Trazendo o papo para fora do silo.
O post era este aqui:
Conversando com Luiz Fernando Macedo sobre histórias encantadas e histórias nas quais se mergulha (ou aquelas que nos levam com elas), relembrei o conceito da subcriação tolkeniana. Escrevi sobre ela há alguns anos, aqui:
Luiz Fernando Macedo disse:
“Ótimo texto, ótimo mesmo! Fico maravilhado com o pensamento de que uma realidade, como a de Tolken, pode existir simultaneamente na cabeça de milhares de pessoas. Cada cidade e cada personagem, formando um universo tão diferente e ao mesmo tempo tão parecido com o nosso, onde cada pessoa tem a chance de viver experiências únicas dentro dele. Também é fascinante saber que mesmo sendo originados pela mesma fonte, cada um destes mundos é tão individual e subjetivo que acaba se tornando único na cabeça de cada um. Contar uma história não algo fixo, escrito em pedra e sim algo moldável de forma que cada vez que a história for recontada ela irá englobar, mesmo que sutilmente, as vivências daquele indivíduo, que vai acabar passando com mais ênfase naquilo que foi mais importante para ele. Contar histórias não permite apenas que você experencie aquelas vivências, mas também dá oportunidade do outro a experienciar. Por isso faço coro com você e também digo com orgulho que sou um contador de histórias!”
Eu disse:
“Com certeza, meu caro Luiz Fernando Macedo. Contar histórias é abrir as portas para universos simbólicos ricos e vivos. Aqueles que nos acompanham nas histórias que contamos (ora coletivamente) são companheiros, e não passageiros, nessa viagem. Meu orgulho de contador de histórias se baseia principalmente na importância destas para a sanidade psíquica e espiritual dos seres. Nossa vida é feita de narrativas (que ora narramos para nós mesmos, quando tomamos consciência de nosso mundo e dizemos: isso é isso, aquilo é aquilo), são narrativas míticas que constroem a nossa percepção do mundo. São também narrativas nossa comunicação interpessoal e todo e qualquer conceito de história que possuímos. Somos, ou deveriamos ser todos, em algum aspecto, contadores de histórias.
[...]
E retornando ao foco da discussão (eu divago… e como…), acho bela e emocionante a idéia de que cada pessoa que lê/escuta uma história dela se reapropria, constrói um simulacro simbólico dentro de seu próprio universo, tecitura das tramas da narrativa adicionada com os fios e tinturas de sua própria história e universo simbólico internos. Contar e ouvir histórias é igualmente criativo e construtor de pontes e sentidos.”
Segue a conversa?

A Rivendell de J.R.R. Tolkien na aquarela de... Alan Lee ou de Brian Froud, creio eu.



De fato, sempre contamos histórias a nós mesmos. É interessante você falar isso, porque são estas pequenas definições que nos ensinam (desde infantes =]) quais são os sentimentos que possuímos, quais conseqüências nossas ações terão e até mesmo nos ajuda a definir (posteriormente, mais na fase da adolesc…..estouvado) o que pensamos de nós mesmos, porque afinal de contas a noção de auto-estima nasce da interação do indivíduo com o mundo e um indivíduo que tenha pouco entendimento daquilo a sua volta (talvez por uma “narração” deficiente na infância) raramente vai ser bem sucedido em tais interações.
É levando isso em consideração que eu também considerado o RPG um hobbie muito saudável. Poxa, se por meio da leitura eu consigo criar um mundo e viver experiências dentro dele, porque não porque não abrandar ainda mais o processo e torná-lo ainda mais subjetivo? O poder de escolha e a liberdade dentro do jogo permitem que essa criação seja conjunta de uma forma que a literatura não consegue ser (ao menos na minha opinião) e muito mais dinâmica. O mundo criado pelo RPG teve ser vivo afinal você é quem decide o que seu personagem vai dizer e isso pode fugir totalmente dos padrões daquilo que é por todos os outros que também estão criando e moldando o mundo em sua imaginação.
É uma pena que, como você disse em outro post, muitas vezes esta imaginação é aprisionada e obrigada a seguir certos padrões impostos pela sociedade. Acontece na literatura e acontece no RPG. É triste =/
Sou totalmente fã das narrativas coletivas, sejam elas nos Role Playing Games ou em qualquer outra modalidade lúdica — das mais simples às mais complexas. Se pensarmos bem, na verdade estamos sempre imerso em narrativas coletivas em nosso dia a dia (afinal, a vida é narrativa!). Prezo por aquelas que visam o encanto, no sentido tolkeniano da palavra.
Quando conheci o RPG há uns… errr… 22 anos (a memória do rezingão começa a falhar…), me senti como se tivesse descoberto uma pedra filosofal. Um instrumento poderoso de transmutação narrativa e de vivências, um poderoso catalizador de encantos coletivo. Lembro-me até hoje do dia em que voltei para casa depois de minha primeira sessão de D&D (meu personagem foi assassinado ao final da sessão pelo ladrão do grupo, que tensionava roubar o tesouro que o grupo havia recuperado. mas mesmo assim, adorei!). Os poucos jogadores de RPG que fui conhecendo naqueles dias (e éramos poucos mesmo) tinham todos este mesmo sentimento de encanto. Mas então, com a abertura das importações e a popularização do RPG no Brasil, começaram a surgir aqueles que eu comecei a chamar de “RPGistas de ocasião”, gente que no mínimo tinha uma visão e experiência totalmente distinta de mim do RPG. Levei anos para entender onde estava a grande diferença: eles não tinham amor pelas narrativas nem anseavam pelo encanto. De uma certa forma, acho que se encaixa nestes que você descreve como vítimas de “narrações deficientes”.
Mas discordo que a literatura não consiga alcançar estes patamares de narrativa coletiva. Talvez a literatura engessada pelos velhos literatos não consiga — tudo aquilo que se petrifica em uma forma acaba por se tornar insuficiente e inadequado! — mas a literatura é viva, e pode ser modificada para alcançar novos objetivos. Já participei de alguns círculos de narrativas coletivas, e até mesmo no âmbito da idéia de mitoreciclagem já fizemos algumas experiências no sentido, eu e meu saudoso amigo imaginante Dpadua. Sobre isso, ainda pretendo falar novamente em posts futuros.
Acima de tudo, temos que amar as narrativas… nós que somos (todos) contadores de histórias.
Nunca tive nenhuma experiência parecida com tais círculos de narrativas coletivas, pode falar um pouco mais sobre?
Como eu tinha comentado com a Gabi, temos que nos reunir para jogar Once Upon a Time, um jogo que adquiri recentemente.
Fiz um post sobre ele em um blog que participava, se interessar: http://centralrpg.com.br/?p=491
Por falar em RPGs encantados, que fim terá levado o IERNE?
http://cadernodocluracao.wordpress.com/2010/03/18/ierne-ou-o-sistema-narrativo-mitico-dos-meus-sonhos/
Vou pesquisar.
Será um prazer falar mais sobre os círculos de narrativas coletivas, mas eu preferia fazê-lo pessoalmente. Algumas histórias são melhor e mais facilmente contadas pessoalmente, com a garganta regada a cerveja.
Topo desde já o convite para jogarmos o Once Upon a Time. Mas vou ler seu post.
Abraços do Verde.
[...] dica do Luiz Fernando nos comentários do post anterior é realmente [...]