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Archive for março \28\UTC 2007


(pôr do sol visto do bar Spicy, na Asa Norte, em Brasília)

Saudades desta cidade com “o céu cheio de céu“, como disse meu caríssimo amigo Metal Cabelinho.

Existe tanta beleza neste mundo…

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Levando alguns passos em frente (por um caminho mais produtivo) o post anterior, estava pensando sobre a importância da existência de literatura ambientada em uma cidade para a construção do imaginário de (e sobre) aquela cidade. No caldeirão desta reflexão, junto 3 sentimentos semelhantes em natureza e distintos no tempo e no espaço.

O primeiro é o sentimento de isolamento e “saudade do desconhecido” que experimentava nos tempos em que só lia literatura estrangeira. Sentia falta de encontrar a minha cultura, a minha nacionalidade, nas histórias que me moviam.

O segundo sentimento era um sentimento de falta. A falta de literatura sobre Brasília, que narrasse histórias brasilienses, sob os céus da Cidade Seca, falando das coisas daquele lugar — capturando seu espírito, evidenciando-o. A este sentimento respondi me propondo quase naturalmente a só escrever a respeito daquela cidade, no meu período de contista que foi de 2003 a 2006.

O terceiro sentimento é o encanto cantado no post anterior, de andar por uma cidade que é pano de fundo e personagem de uma boa parte daquilo que ando lendo hoje em dia. Isso não é sem propósito; desde que me mudei para o Rio me propus a mergulhar e conhecer a literatura carioca que fale sobre a cidade. A sensação de ler sobre Copacabana, sobre o Jardim Botânico, sobre a rua Voluntários da Pátria em Botafogo (onde trabalha o médico da morta de Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca), sobre a Urca onde um homem morre afogado enquanto Clarice Lispector experimenta seu vestido… sobre tantos lugares e histórias cariocas… é simplesmente fantástica. É como estar finalmente inserido e contemplado integralmente em um universo ao mesmo tempo real e secundário, imaginário e sólido. É a magia penetrando o dia a dia.

Isso me leva de volta ao questionamento do segundo sentimento: É necessário que as pessoas escrevam sobre suas cidades, sobre suas realidades, sobre suas vidas e as vidas das quais são testemunhas. Há de se falar de jeitos, trejeitos, ruas, espaços, apertos, histórias e ilusões de cada cidade — e de sua gente. Uma cidade sobre a qual há rica literatura é mais real do que a sua realidade física, é super-real, é mais forte e se entranha na carne do leitor-morador.

É por estas e por outras que me sinto em dívida com minha cidade natal quadradinha. Eu tenho que escrever sobre aquela cidade! Tenho que viver mais dela, e escrever mais, muito mais, sobre ela! O Rio já está em boas mãos. É bom de morar, é bom de ler. Mas quando não estiver escrevendo sobre a Terra Encantada, quero escrever sobre a minha terra.

Brasília ainda carece de quem conte suas histórias. Eu ainda careço de contar as histórias da minha Brasília. Ouço o chamado. Um dia eu chego lá…

Já que declarei em meu post anterior meu amor pelo Rio, agora é hora de declarar também o meu amor por Brasília, sua gente, sua terra que vira poeira no ar e seu vento seco que embaraça os cabelos e o coração. Eu também amo Brasília, e ainda vou escrever muito sobre ela. Ela merece!

(mas para quem também ficou com água na boca para ler sobre Brasília, humildemente prometo publicar mais dois de meus contos brasilienses no Overmundo logo depois que publicar a quinta parte de O Cavaleiro e o Dragão. Para quem não quer esperar, sempre há Na Saída e A Moça Acenando na Janela.)

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Andando pelas ruas de Copacabana, voltando da estação de metrô até minha casa, fico olhando para os prédios, janelas, para as pessoas, e suspirando. Não é que eu seja um bobo alegre, ou pelo menos não é só por isso. Ando suspirando, pois ainda não me tornei insensível à riqueza de vida e beleza que há em cada detalhe das ruas desta cidade (ou ao menos da maioria das ruas que conheço dela). A cada entrada de prédio, com seus ecos de pretensa opulência cinquentista, ou com sua discreta graça que se compõe com o bucolismo e carioquice das ruas, fico impressionado. Chego a parar, ter vontade de tirar fotos ou olhar por longos minutos para apreender cada detalhe. As pessoas nas ruas me deixam impressionado. O relevo derretido do asfalto, os morros aparecendo por trás dos prédios, as árvores, o descuido e o cuidado com os detalhes, a riqueza que só os anos e as histórias de tantas vidas se desenrolando por ali podem dar a uma cidade… tudo me deixa muito impressionado, tocado e suspirante.
Estou mesmo apaixonado pelo Rio de Janeiro.

Desde que cheguei, mergulhei na leitura de autores cariocas que falem sobre o Rio. Clarice Lispector, Rubem Fonseca, narradores de vidas cariocas simples ou complexas, cada um com seu estilo, com seu olhar sobre a cidade. Andar pelas ruas do Rio com as frases destes homens e mulheres tão cariocas na cabeça é viver uma constante identificação de nuances. É como andar em Brasília ouvindo Legião Urbana no diskman. É como ser convidado para estar ali. É como começar a descobrir uma cidade…
É como se apaixonar.

Acho que ando um bocado sensível, talvez até meio bobo. Mas é desta sensibilidade que nasce o olhar que me presta para escrever qualquer coisa que preste. É disso, e dos sonhos, que nascem todos os contos, sejam eles de fadas ou de pessoas mundanas (ou não).

Quanto tempo se leva para se reconstruir o escritor que vinha se perdendo dentro de mim? Seja como for, está acontecendo rápido.

“Minha alma canta… vejo o Rio de Janeiro.”

E enquanto isso o “cara lá de cima da montanha” abraçava as nuvens roxas ao cair da tarde na cidade do povo gato…

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Discussões psicoclínicas, metafísicas e culturais, somadas às minhas próprias reflexões fabulísticas e morais, me levaram de volta ao início daquela estrada. Cá estou eu olhando para a estante e pensando que é hora de reler “Zen e a arte da manutenção de motocicletas” (há um resumo não garantido dele aqui, para quem não o conhece), para reencontrar o início do fio da meada da Qualidade e do Bom e Ruim.

Quando nossa visão do mundo começa a ficar muito complexa, dá uma enorme preguiça de reestruturá-la para abarcar novas percepções e insights. Mas é justamente neste momento que devemos fazê-lo. “Keep it simple, stupid!“, dizem os sábios zen-carequinhas e os cabeludos e desajeitados evangelistas do código. E é justamente em busca da raiz da simplicidade que mergulho me Pirsig e Tolkien, tentando encontrar um espelho adequado para a pessoa e para o contador de histórias em mim.

Estamos em obras? Sempre.
Mas estamos trabalhando para melhorar os “serviços”(!?).

E chega de posts complexos e reflexivos!
Quando eu escrever novamente aqui, quero que seja sobre uma poesia ou um trecho de história, pois é para isso que estamos aqui, não é mesmo?
Chega de mostrar entranhas…
É hora de cantar e contar histórias…

Abraços do Verde.

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Há algum tempo estou não apenas me preparando para escrever este texto, mas também sentindo uma grande falta dele como substrato para dar um pouco mais de sentido a tantas de minhas reflexões. Vamos, neste post, tentar jogar alguma luz sobre o complexo e absolutamente fascinante conceito de Subcriação elaborado (ou revelado) por J.R.R.Tolkien, que não apenas ilumina a arte da narrativa fantástica como lança também sua luz sobre a dimensão divina do ser e sobre algumas descobertas da física quântica.

Para começar, e tentar colocar em poucas palavras o que toda a literatura Tolkeniana apenas começou a explicar, vamos tentar criar um esboço de definição do que é a Subcriação:

Subcriação é o poder de conceber, com o uso da imaginação e da manipulação quase mágica da linguagem (idéias e conceitos), uma dimensão outra de realidade, com entidades várias, cuja existência é conjurada unicamente pela capacidade de imaginação do ser. Trata-se de conjurar a existência de algo antes inexistente, ou antes inexistente naquela forma, pela pura capacidade de imaginá-lo e experienciá-lo em sua imaginação. Assim concebido e trazido à realidade (mesmo que apenas a uma realidade secundária), este ente passa a existir e deve sua existência unicamente ao poder imaginador (subcriador) de seu imaginante.


Admitindo que minha definição foi um bocado canhestra, e talvez não muito clara, vamos às palavras de um dos mais hábeis subcriadores de nosso mundo a respeito da Subcriação. Nas páginas 28 e 29 de seu “Sobre Histórias de Fadas“(edição brasileira da Conrad, de 2006), Tolkien fala um pouco sobre a Subcriação:

“(…)A mente humana, dotada de poderes de generalização e abstração, não vê apenas grama verde, mas discriminando-a de outras coisas (e contemplando-a como bela), mas vê que ela é verde além de ser grama. Mas quão poderosa, quão estimulante para a própra faculdade que a produziu, foi a invenção do adjetivo: nenhum feitiço ou mágica do Belo Reino é mais potente. E isso não é de surpreender: tais encantamentos de fato podem ser vistos apenas como uma outra visão dos adjetivos, uma parte do discurso numa gramática mítica. A mente que imaginou leve, pesado, cinzento, amarelo, imóvel, veloz também concebeu a magia que tornaria as coisas pesadas leves e capazes de voar, transformaria o chumbo cinzento em ouro amarelo e a rocha imóvel em água veloz. Se era capaz de fazer uma coisa, podia fazer a outra, e inevitavelmente fez ambas. Quando podemos abstrair o verde da grama, o azul do céu e o vermelho do sangue, já temos o poder de um encantador em um determinado plano, e o desejo de manejar este poder no mundo externo vem a nossa mente. Isso não significa que usaremos bem esse poder em qualquer plano. Podemos pôr um verde mortal no rosto de um homem e produzir horror, podemos fazer reluzir a rara e terrível lua azul, ou podemos fazer com que os bosques irrompam em folhas de prata e os carneiros tenham pelagens de ouro, e pôr o fogo quente no ventre do réptil frio. Mas numa “fantasia”, tal como a chamamos, surge uma nova forma: o Belo Reino vem à tona, e o Homem se torna subcriador.

Assim, um poder essencial do Belo Reino é o de tornar as visões da “fantasia” imediatamente efetivas através da vontade. Nem todas são belas, nem mesmo salutares, certamente não as fantasias do Homem decaído. E ele maculou os elfos que têm esse poder (em verdade ou em fábula) com sua própria mácula. Este aspecto da “mitologia” — a subcriação, não a representação ou a interpretação simbólica das belezas e dos terrores do mundo — é muito pouco considerado, em minha opinião.(…)”

O que Tolkien está nos apresentando neste e em tantos outros trechos desta de outras de suas obras é que a própria faculdade de imaginar algo, rearranjar-lhe a natureza ou as características, ou mesmo sua relação com o universo que o cerca, é em si só um ato de criação cujas consequências são admiráveis e fantásticas. É a própria faculdade de subcriação, o poder de criar com a imaginação, que Ilúvatar concede aos Ainur no Ainulindalë de O Silmarillion — onde descreve a criação e a primeira era da Terra Encantada de (que significa, em élfico, “isso é” ou “deixa ser” — palavras de Ilúvatar que realizaram a subcriação ainuriana), onde se desenrola numa era posterior a sua famigerada saga d’O Senhor dos Anéis.

Ao fundir ou, mais do que isso, identificar o poder subcriador do fabulista e do contador de histórias encantadas com o poder dado por Ilúvatar aos Ainur no Ainulindalë, Tolkien está fazendo uma afirmação discreta e refinada, mas profundamente poderosa — a de que o poder da subcriação é o que nos torna deuses (como o fez com os Ainur). Da mesma forma Tolkien narra no mesmo Ainulindalë que Ilúvatar teria dado aos elevados Ainur o poder e o privilégio de nomear aquelas coisas que criaram, e que estes nomes passariam a ter um enorme poder, pois tornariam-se parte da criação — o que não é senão um mito do surgimento da linguagem, a qual é, enquanto elemento organizador de idéias e conceitos, uma ferramenta fundamental à própria faculdade subcriadora. Em um outro trecho de “Sobre Histórias de Fadas” Tolkien também faz uma breve elaboração sobre linguagem e mitologia, quando diz:

“(…)A opinião de Max Müller, a visão da mitologia como “doença da linguagem”, pode ser abandonada sem remorso. A mitologia não é nenhuma doença, porém pode adoecer, como todas as coisas humanas. Da mesma forma alguém poderia dizer que o pensamento é uma doença da mente. Estaria mais próximo da verdade dizer que as línguas, em especial as européias modernas, são uma doença da mitologia. Mas ainda assim a linguagem não pode ser descartada. A mente encarnada, a língua e o conto são contemporâneos em nosso mundo.(…)”

Posto isso, Tolkien coloca a linguagem e o mito como elementos inseparavelmente entrelaçados, de modo que geram e devoram um ao outro em seu próprio ciclo e, a meu ver, dá a entender (como se confirma em vários outros trechos) que o mesmo processo que de uma forma gera linguagem e mito, também gera a narrativa fantástica (esta, irmã do próprio mito) e toda a invenção humana — e tudo isso é fruto e, ao mesmo tempo, matéria prima do divino poder da subcriação.

Dando mais um ousado passo à frente, é possível conectar a idéia de subriação aos mais arrojados conceitos da física quântica, nos quais o Universo só existe pois está sendo não apenas observado, mas moldado pela imaginação e pela percepção. Dando às mãos a Tolkien e Fred Alan Wolf (que maravilhosa companhia!) podemos chegar à conclusão de que não apenas o poder da subcriação é a essência de toda a arte, linguagem e fantasia, mas também o elemento que molda o universo à imagem e semelhança de nossas banais ou ousadas imaginações. Posto isso, somos todos criadores (ou, mais corretamente, subcriadores, senhores do rearranjo livre da realidade) — deuses — e a “chama secreta” que deu a existência a brilha no coração de todos nós.

Este é um dos motivos pelos quais eu digo com ORGULHO que eu sou um contador de histórias. Isso é uma reafirmação da nossa própria divindade.

“Eä Eru i estaina ná Ilúvatar Ardassë,
ar ónes minyavë Ainur i ner i híni sanweryo,
ar ner yo së nó ilúvë né ontaina.
Ar ten quentes, antala ten lammar lindalëo,
ar lirnentë, ar së né alassëa.

Nan andavë lirnentë ilquen erya
ecar pitya nótessë [sina lúmessë] ar hosta lastainë,
nan ilquen hanyanë minyavë sanwi Ilúvataro
yallon tulles, ar handessë nossento
palyanentë nan úlintavë.
Nan oi lúmessë ya lastanentë, entë tuller antumna handenna,

ar vanessë lindalento palyane
ar tulles marta sa Ilúvatar tultanë Ainur eryenna
ar quente ten taura lírë pantala ten analt’
ar analcarinquë or ya nó westanes
ar i alcar yesseryo ar i rille mettaryo elyaner Ainur,
yanen cawnentë ar carnentë úlamma…”

(fragmento do Ainulindalë em Quenya)

Namárië.

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É possível se contar uma história sem moral? É possível sequer se conceber uma narrativa que seja não moral, ou onde uma personagem possa ser realmente não moral? Se isto for possível, so o é em um Conto da Terra Encantada (e, insisto, a tradução é FaërieTale e não FairyTale) e tratar-se-á de uma das mais fabulosas demonstrações de Sub-Criação* e mesmo Meta-Sub-Criação*.

Estou sendo muito incompreensível?
Então vamos tentar esclarecer as coisas…

Toda moral é um código, uma estruturação, de valores. Valores são afirmações feitas a respeito de idéias, atos, objetos, pessoas e quaisquer elementos que se possa perceber. Quando se diz “o gato é bonito”, se está fazendo uma afirmação de valor. Quando se diz “eu estou achando este texto um saco”, esta é também uma afirmação de valor. Do mesmo modo, dizer que tal coisa é certa ou errada, ou que tal idéia ou coisa é boa ou ruim, são afirmações de valor (assim como dizer que alguma coisa existe ou mesmo que não-existe). Sobre estas afirmações de valor, de certos e errados e “melhores que” e “piores que”, se constrói uma moral. E não é que haja tantas “morais” assim, pois uma grande quantidade de afirmações de valor são tão entranhadas em nossas culturas que nem sequer sabemos que as levamos em nossas cabeças. Logo, podemos discutir se o aborto é “bom” ou “ruim” e, dependendo de nossos valores, este será “moral” ou “imoral” (contrário à moral). Por outro lado, se eu questionar a validade da afirmação de que “esta tela é real” ou mesmo da afirmação de que “você é real”, você pode me achar interessante, curioso, completamente maluco ou achar que ando lendo livros demais sobre física quântica, mas dificilmente esta afirmação estará em discussão para você (a não ser que você seja tão maluco ou maluca, ou quântico, quanto eu).

Pois bem, para encurtar uma explicação que pode ser muito longa, a partir de uma estrutura de valores se tece uma moral. Há quem diga que a moral é a própria estrutura de valores, mas isso não importa agora. O que importa é que, uma vez que existe uma ou várias moralidades, dado que existem valores e eles se estruturam sempre de alguma forma, torna-se então possível afirmar que não há nada que não esteja de alguma forma contemplado, seja positiva ou negativamente, pela moralidade. Posto isso, qualquer afirmação (e uma narrativa é construída de afirmações) carrega em seu seio uma enorme dimensão moral.

Se eu digo que “John pegou uma pedra e a jogou em Michael”, isso não tem, a princípio, uma implicação moral, não é? não é!? Mas é claro que tem! Logo de cara temos um ato que, dentro de uma estrutura moral, pode ser considerado certo ou errado. Na maior parte das vezes a “observação moral” desta afirmação dependerá, ou poderá ao menos ser modificada, por outras afirmações ligadas e complementares a ela como, por exemplo, “John jogou a pedra pois Michael estava fugindo com sua carteira”. Note a quantidade de questões morais (é certo jogar pedras nos outros? é certo jogar pedras em pessoas que tentam roubar suas carteiras? é certo roubar carteiras? um erro justifica o outro? o calor do momento, ou as emoções, justificam um erro? etc…) contidas apenas neste conjunto de duas afirmações. Será possível então escrever uma história não-moral?

Vamos tentar aprofundar um pouco mais esta questão (ou, se estiver cansado ou já estiver convencido de que não é possível escrever uma narrativa não-moral, pode pular para o último parágrafo). Vamos nos esforçar mais para buscar ao menos uma única afirmação não moral. Algo como “a pedra está no chão”. Vejam! Uma afirmação sem nenhum conteúdo moral, certo? Não é!? Err… acho que não foi desta vez que conseguimos também. Pode-se dizer que não há a princípio nenhuma questão que “pareça” moral envolvida nesta afirmação. Mas vamos olhar um pouco mais para a pedra e ver se não há aí nenhum valor envolvido. Antes de mais nada, o que é uma pedra? Sem precisar entrar em definições muito complexas, uma pedra é um objeto basicamente não-vivo (ou assim convencionamos acreditar) que e feito de… bem… de algum tipo de rocha. Mas no fundo isso não é uma pedra. Isso é apenas um nome (valor) e uma definição que o conceitua (mais valores) atribuídos àquele objeto. A mesma coisa vale para chão e até para a idéia de “estar” (sim, lá vamos nós para mais Metafísica Qualitativa Pirsiguiana!). Mas o que tem a ver isso com a moral? É aí que está o ponto! Lembram-se de que a moral é uma estruturação de valores? Se o nome é um valor, e eu estou usando naquela afirmação ao menos dois nomes (pedra e chão), além do conceito de estar, então afirmar que a pedra está no chão é uma reiteração (ainda que “au-passant“) da “validade” destes nomes e deste conceito enquanto formas de se expressar o fenômeno sobre o qual estou afirmando. Tá muito complexo? Agora que chegamos até aqui, dá para simplificar. Ao dizer “a pedra está no chão” eu estou dizendo que existe uma pedra, e que ela pode ser chamada assim, e que existe um chão, e que ele pode ser chamado assim, e que uma pedra pode estar no chão, a partir do momento que estou afirmando que ela “está no chão”. Weeew… que maluquice, duende! Pode ser maluquice, mas são afirmações perfeitamente razoáveis. Eu poderia questionar (e esta seria uma daquelas coisas que parecem inquestionáveis, pois estão incutidas em nossa percepção de mundo, mas que na verdade tanto podem ser questionáveis quanto vem sendo questionadas pela física quântica), por exemplo, que exista tal coisa como uma pedra. É! Eu posso! E agora você não vai ter só que afirmar que a pedra está no chão. Vai ter que me convencer de que há tal coisa como uma pedra para que ela possa estar ali no chão. A mesma coisa vale para o chão. Você afirmou que há um chão (e isso é um valor: “chão existe”, uma vez que algo pode estar “no chão”). Agora vai ter que arcar com as consequências. Prove que existem pedras, chão, e, por fim, que uma pedra PODE simplesmente ESTAR no chão. Mas não precisamos discutir nada disso se você quiser apenas afirmar que “a pedra está no chão”, assim como afirmar que “John pegou a pedra e a jogou em Michael” ou que “Mary teve seu filho pois considerava um absurdo realizar um aborto”. Mas você há de convir agora que estas três afirmações são profundamente carregadas de conteúdo moral (e que eu posso ser um imoral por isso, mas eu posso questioná-las enquanto afirmações de valor que são). E agora podemos, então, concluir que é IMPOSSÍVEL se escrever uma narrativa sem conteúdo moral?

Postas todas estas coisas, temos então que ficar atentos à moral de cada uma de nossas afirmações (e isso não apenas quando estamos escrevendo histórias ou fábulas). Cada afirmação carrega em seu seio uma enorme quantidade de consequências, e se as mesmas passam completamente desapercebidas no cotidiano, o mesmo não se dá quando se está construindo uma narrativa. Cada pequena afirmação utilizada na construção da história diz muito não apenas sobre o mundo que está sendo sub-criado, mas também sobre o olhar que você ora lança sobre ele (e partilha com o leitor). Quando se está escrevendo uma história, seus olhos são os olhos do leitor e seus ouvidos são igualmente partilhados mas, sobretudo, uma parte “a priorística” do seu juízo de valores também acaba sendo emprestada. O leitor pode exercer seu senso crítico a respeito daquilo que consegue enxergar, mas não a respeito daquilo que você já julgou e valorou antes dele. Desta forma é dado ao contador de histórias não apenas moldar um mundo e povoá-lo de personagens e histórias, mas também enfocar todo este ecossistema dinâmico com a luz de seu olhar narrador de forma a dar a ele tal ou qual nuance desejar. Cria-se vilões e heróis (e estes dois entes são elementos feitos de moral da cabeça aos pés, mesmo que não tenham cabeças ou pés), direitos e regras, premiações e punições naturais, e tudo isso pode acontecer por debaixo do tapete vermelho que você estende ao leitor, ou mesmo por debaixo do seu próprio nariz. Quando digo que ao escrever dizemos muito sobre nós mesmos, não estou falando apenas das nossas escolhas temáticas e de histórias, ou das dimensões morais mais aparentes. Estou dizendo que, ao emprestar seus olhos e ouvidos e tudo mais ao leitor, você está emprestando uma parte das janelas da sua alma e, inevitavelmente, das lentes que usa para enxergar o mundo sub-criado ou revelado a você. Estas são coisas que se deve ter em mente ao escrever. Toda história tem uma moral ou, mais do que isso, toda história é construída inteiramente de valores, moral e (com um pouco de imaginação, arte e fantasia por parte do contador) de um bocado de magia. É necessário se ter muita responsabilidade e atenção quando se utiliza a magia da criação…

Tudo isso me faz pensar que, na verdade, tudo neste universo é submetido à moral (ou às moralidades várias). Mas disso qualquer leitor de Pirsig já sabe…

Ou vocês também querem que eu explique? :)

Acho melhor voltar à minha fábula.
Espero que este enorme post sirva a alguém.


* Por mais que eu tente, nunca consegui achar um link ou texto sequer que explique estes conceitos de forma razoável. Por fim acabei escrevendo um eu mesmo, que pode ser lido seguindo a palavra hyperlinkada, ou clicando aqui.

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Sacando do bolso um trecho de Trégua, do Lixo Extraordinário:

“(…)Nem na nata, nem na draga
nem na sarjeta
nem pose, nem passeata
que eu sei toda a reza
a tua arte combate ou só faz show?(…)”

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