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Archive for abril \27\UTC 2007

ou

Alma e o quarto escuro

“(…)Alma respirou fundo, parada frente à porta, mordendo os lábios. Aproximou a mão muito lentamente, incerta, da maçaneta. Assustou-se quando a porta se abriu tão facilmente e tão repentina sob o toque de sua mão, movendo-se com um rangido baixo que parecia gigantesco naquele silêncio onde só se ouvia seu coração. A luz da cozinha invadiu o quarto, projetando a sua sombra encolhida sobre corpo imóvel de Sméagan, refestelado sobre a cama. Não sabia se ele dormia. Esperava que acordasse e ao mesmo tempo não queria que acontecesse. Sua resolução, que começava a falhar, a empurrou em passos curtos e incertos para dentro do quarto. Fechou a porta com um gesto vago, e a última luz sufocada pela porta que se fechava iluminou os olhos de Sméagan, que acabavam de se abrir. Ela imaginava ter visto também um sorriso. Exasperou-se, perdida na estrada entre o temor e a excitação.

‘Estou aqui’, ela disse. Sua voz falhou, e então ela preferiu repetir — ‘estou aqui. eu vim…’. Ele nada disse, mas ela podia ouvir sua respiração. Podia ver, com os olhos que se acostumavam muito devagar com a luz fraca filtrada através da cortina, que ele sentava-se lentamente na cama. Alma permaneceu imóvel, abraçada pela escuridão e pelo silêncio rompido apenas pela respiração dos dois. Não sabia dizer se ele estava nu em meio às tantas cobertas amarfanhadas sobre a cama. Parecia um espectro em sua brancura quase invisível na luz tênue demais. Ele também olhava para ela, mas sua expressão era indecifrável, emoldurando seus olhos rasgados e escuros… tão escuros quanto aquela noite e quanto aquele quarto. Tão escuros quanto as coisas que a escuridão esconde.

Alma deu um passo em direção à cama, mas foi detida pelo gesto quase brusco de Smeagan, que sinalizava para que ela não se aproximasse. Olhou para ele, sem entender o porquê daquilo. Ele sorveu a perplexidade dela por um alongado segundo antes de falar — “Tire as suas roupas antes de vir para a cama, moça. Elas estão sujas com as coisas da rua.”. Alma enrubesceu no escuro. Pensou em ir embora. Virou-se de costas, mas não deu nenhum passo. Isso não fazia sentido. Era para isso que ela tinha vindo. Não havia mais ninguem e nenhum lugar lá fora, naquela noite escura, para onde ela pudesse, ou quisesse, ir. Sentiu uma lágrima se formando em seu olho esquerdo. Sentia-se como uma menina de novo, e isso a assustava. Estendeu a mão pelas costas para alcançar o zipper do vestido curto, e o abriu, puxando-o para baixo. O ar frio tocou suas costas agora nuas e fez com que sentisse um calafrio, mas isso não foi de todo ruim. Abaixou-se para começar a desamarrar as botas, e por alguns segundos viu-se distraída com os cadarços. Smeagan, que parecia ter se levantado da cama enquanto ela se livrava de suas botas altas, falou por detrás dela — “gosto da sua tatuagem, sabia?”. Alma sentiu outro calafrio.

Levantou-se depressa, girando sobre os calcanhares ainda recobertos pelas meias listradas. Esperava encontrá-lo mais perto, mas seu movimento brusco parece tê-lo assustado. Reequilibrava-se de um passo largo dado para trás, que o fez encostar novamente com as pernas na cama. Alma não sabia explicar o motivo de seu pudor, mas não olhou para a nudez dele. Não ainda. Olharam-se por um segundo, olhos escuros em olhos escuros no quarto escuro, e se reconheceram um no outro. Alma levou as mãos aos ombros e puxou seu vestido como quem arranca uma pele morta, inadequada, inútil. Sorriu com apenas um canto da boca ao ver o sorriso de Smeogan, que observava seu corpo de cima a baixo. ‘Satisfeito com o que está vendo?’, disse ela, retomando a coragem frente à inesperada timidez daquele homem. “Ainda não”, disse ele enquanto sentava-se na cama, empurrando-se lentamente com as mãos para apoiar-se com as costas na parede — “agora venha cá.”, completou. Alma caminhou até a cama e colocou-se ajoelhada, com as pernas afastadas, sobre as pernas estendidas dele. Inclinou-se para beijá-lo, mas estacou quando seus olhos voltaram a se encontrar com os dele, agora tão perto. Seus olhos eram tão negros! Sondaram-se, paralizados, olhos nos olhos, por mais um segundo, antes de aproximarem-se por fim para dar o beijo que terminaria com toda aquela angústia.

Seus lábios eram frios, muito frios, e Alma podia sentir como eram igualmente frias as mãos que percorriam suas costas e por fim encontraram seu lugar em seus seios, buscando calor e contato. Continuaram a se beijar, enquanto ela relaxava lentamente as pernas para sentar-se sobre ele, sentindo-o crescer debaixo dela. Mas, de repente, foi sacudida por um espasmo de choro que surpreendeu até mesmo a ela. Afastou seu rosto do dele e o cobriu com as mãos, soluçando baixinho. Ele a abraçou com uma doçura que para ela era também inesperada. Mal o conhecia. Tudo era um tanto inesperado nele, e era em parte por isso que chorava. Entregava-se por fim àquele estranho tão familiar, como tinha desejado silenciosamente por tantas noites, mas também estava assustada. Por quê seus olhos eram tão escuros, insondáveis e tristes? Por quê ele era tão doce? Não havia como aquele momento ser perfeito, dada a sua canhestra estranheza, mas ainda assim era bom e forte demais para que ela aguentasse seguir em frente. Sentia que seu coração podia explodir, ou que o mundo poderia se esgarçar e rasgar à volta dela. Chorou nos braços dele, sentindo raiva de si mesma por estar estragando tudo, sentindo-se importente ao mesmo tempo que se aninhava deliciada em seu abraço. “Porquê você chora, se é que posso perguntar?”, sussurrou ele por fim. Alma não respondeu. Chorava porque estava imensamente feliz e porque tinha um imenso medo, e porque sabia que agora estava totalmente perdida. Nada poderia ser tão bom quanto o que estava prestes a ser, pensava ela, mas ainda assim estava trespassada de pavor. Alma sentia-se ridícula, ridiculamente humana, chorando nos braços de Smeagan. Queria-o tanto, tanto, e tinha tanto medo disso, que sentia que não conseguiria tê-lo. Era demais para ela! Ele nem sequer era humano.(…)”
(fragmento não revisado do conto ‘Samhain’)

Rompi o bloqueio de escritor dolorosamente, como um rio que rompe uma represa e se escalavra nas pedras que carrega no seio de seu jorro.

Ao menos escritor está vivo, enquanto todo o resto se mortifica a espera de renascer…

p.s. as fotos que ilustram este fragmento ainda não existem. existirão, quiçá, um dia, se ele for levado em frente.

UPDATE:
Embora tenha trabalhado em algumas anotações mais neste conto, revisado algumas partes (não publicadas) e refinado algumas idéias, ainda não tenho nada novo para publicar. De qualquer forma, o trabalho não está abandonado. A seu tempo Samhain verá a luz, quando for o seu momento.

UPDATE2:
Resolvi batizar este fragmento como “Alma e o quarto escuro“, a partir das observações carinhosas e encantadoras da leitora Dora Nascimento. Agora ele tem vida própria, é uma obra em si, embora faça parte também do conto Samhain (do mesmo modo que vários contos reunidos podem transformar-se em um romance).

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Olhando o google em busca de links e revendo velhos escritos sobre o maravilhoso primeiro livro de Robert M. Pirsig (onde ele lança as bases de sua Metafísica da Qualidade), reencontrei o link para a versão integral do livro disponível na internet.
Quer ler? O livro está aqui (por enquanto, apenas na língua inglesa).

“”Quality”, or “value” as described by Pirsig, cannot be defined because it empirically precedes any intellectual constructions. It is the “knife-edge” of experience, known to all. “What distinguishes good and bad writing? Do we need to ask this question of Lysias or anyone else who ever did write anything?” (Plato’s Phaedrus, 258d). Likening it with the Tao, Pirsig believes that Quality is the fundamental force in the universe stimulating everything from atoms to animals to evolve and incorporate ever greater levels of Quality. According to the MOQ, everything (including mind, ideas and matter) is a product and a result of Quality.”


(retirado do verbete da wikipedia anglófona sobre Metafísica da Qualidade)

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Olhando o google em busca de links e revendo velhos escritos sobre o maravilhoso primeiro livro de Robert M. Pirsig (onde ele lança as bases de sua Metafísica da Qualidade), reencontrei o link para a versão integral do livro disponível na internet.
Quer ler? O livro está aqui (por enquanto, apenas na língua inglesa).

“”Quality”, or “value” as described by Pirsig, cannot be defined because it empirically precedes any intellectual constructions. It is the “knife-edge” of experience, known to all. “What distinguishes good and bad writing? Do we need to ask this question of Lysias or anyone else who ever did write anything?” (Plato’s Phaedrus, 258d). Likening it with the Tao, Pirsig believes that Quality is the fundamental force in the universe stimulating everything from atoms to animals to evolve and incorporate ever greater levels of Quality. According to the MOQ, everything (including mind, ideas and matter) is a product and a result of Quality.”


(retirado do verbete da wikipedia anglófona sobre Metafísica da Qualidade)

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Simples assim…
O Brutti, Sporchi e Cativi continua ducaralho.

O segredo de falar e escrever bem é falar o que precisa ser dito, e somente o necessário. :)

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the silmarillion - unwin books pocket version

Os dias continuam corridos…

Sorte que nem todos os grandes livros (e os mais encantadores) são também necessariamente grandes em tamanho. Alguns, graças aos bons Deuses, cabem em qualquer bolsa e em qualquer momento. Este é o meu querido e cheiroso (pois eu adoro cheiro de livro velho) exemplar de O Silmarillion. Custou cinco reais no Mar de Histórias, mas não tem preço para mim. Tolkien é seguramente um dos maiores fabulistas de todos os tempos (e um dos maiores escritores em língua inglesa também).

Desculpem o post de ostentação, mas é uma homenagem necessária a um grande livro e um pequeno companheiro.

Abraços do Verde.

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Tá dificil escrever em meio à correria de trabalho e nestes dias de readaptação na cidade do Rio. Na verdade, mal tenho tido tempo até para ler. Encontro um tempinho para revisar anotações na fila do banco, leio antes de desmaiar na cama à noite uma ou duas páginas de Abarat (excelente livro que o Rafa Maia me emprestou em minha passagem por Brasília), penso vez por outra em minhas fábulas enquanto faço minhas providenciais caminhadas pela praia… e por hora isso é tudo.

Se a vida é feita de momentos, confio que haverá em breve um momento melhor para me debruçar de novo em minha escrita. Por hora, vou mantendo o contador de histórias vivo na sombra do blogueiro, do jeito que posso…

Que os Deuses das Histórias nos abençoem a todos.

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“pisei na cidade maravilhosa
que não é minha
já morrendo de saudades
da minha cidade quadradinha…”

De volta ao Rio de Janeiro…
De volta ao trabalho…
De volta aos desafios…
Preparando terreno para dar a volta e voltar…

Depois de alguns dias memoráveis, alguns dos melhores da minha vida, na minha jovem velha cidade quadradinha.

Nossas vidas são contos de fadas estranhos até que se prove o contrário.

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