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Archive for agosto \31\UTC 2008

Lúti observava a chuva através da janela. Adorava tudo a respeito da chuva. O cheiro, as gotas na janela (ou no rosto), o vento refrescado depois da seca. Era a primeira vez que via a estação das chuvas em Brasília, e tinha a sensação de que havia algo de realmente especial naquela chuva.

Encostou o focinho na janela. Desde a noite que descobriu que era gente e gato, sonhadora e sonho, gostava de chamar seu nariz de focinho. A janela estava fria, mas o frio era gostoso. Através da janela borrada pela chuva só distinguia o mato escuro, as luzes da cidade à distância — um brilho esmaecido e indistinto — e o céu que tomara agora uma luminosidade entre o laranja e o vermelho. A noite parecia iluminada pela chuva, ou para a chuva, ou coisa assim. Tinha a sensação de que era algo realmente especial.

Ficou pensando nas coisas que havia escutado por trás das portas nas últimas semanas. Lúti gostava muito de escutar por trás das portas — desde criança, não era coisa nova, ou coisa que ela começara a fazer depois que descobriu que podia virar gato. Escutara Sinasecht falando para a Baronesa sobre a chuva que viria, e coma chuva iria despertar um dragão e também romper as crisálidas de algumas pessoas…

Era tudo muito novo pra ela. Estar em Brasília, então ver seus velhos sonhos destroçados, o desespero de se ver sozinha em uma cidade estranha, e então todas as coisas que aconteceram depois. A descoberta do outro mundo, e de sua verdadeira natureza. E então a casa da colina, Erick, Dairean, Sinasecht e seus sussurros e suas mãos que ela sabia que eram frias sem mesmo ter que encostar nelas, Otto e todas as outras fadas que ela sabia que existiam por ter ouvido falar, ou mesmo sem ter ouvido falar. O mundo, que pareceu tão maior quando ela entrou naquele ônibus para Brasília crescera em grandes e assustadoras ondas desde então, e não parava de crescer. E lá longe, em algum lugar, ela sentia que esta chuva estava novamente alargando suas fronteiras. E ela se sentia excitada e ao mesmo tempo assustada, porque essas coisas são sempre um pouco assustadoras. De repente sentiu-se muito pequena frente a tudo aquilo, e a chuva fina lá fora parecia rugir como uma tempestade, embora continuasse fina. Soube então, sem saber como sabia, que no Sonhar aquela chuva era uma tempestade.

E o Sonhar era a suprema vastidão que a chamava e a assustava ao mesmo tempo. E ela gostava disso. Sem vacilar, tomou a forma de gato e correu pelo quarto, pelo corredor, até a grande sala cheia de móveis que pareciam tão enormes agora, e ganhou o jardim depois de pular pelo janelão da sala que Seu Alcélio não havia fechado por algum motivo. Correu pela chuva, ouvindo ao mesmo tempo as gotas finas trazendo vida de volta pra este mundo e o rugido da tempestade que caía sobre o outro, e que parecia dizer alguma coisa que ela ainda não conseguia entender bem o que era. A curiosidade dos gatos a movia, e ela continou correndo na chuva, sem sequer saber para onde ia.

(imagem por yumedust no dA)
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Lúti observava a chuva através da janela. Adorava tudo a respeito da chuva. O cheiro, as gotas na janela (ou no rosto), o vento refrescado depois da seca. Era a primeira vez que via a estação das chuvas em Brasília, e tinha a sensação de que havia algo de realmente especial naquela chuva.

Encostou o focinho na janela. Desde a noite que descobriu que era gente e gato, sonhadora e sonho, gostava de chamar seu nariz de focinho. A janela estava fria, mas o frio era gostoso. Através da janela borrada pela chuva só distinguia o mato escuro, as luzes da cidade à distância — um brilho esmaecido e indistinto — e o céu que tomara agora uma luminosidade entre o laranja e o vermelho. A noite parecia iluminada pela chuva, ou para a chuva, ou coisa assim. Tinha a sensação de que era algo realmente especial.

Ficou pensando nas coisas que havia escutado por trás das portas nas últimas semanas. Lúti gostava muito de escutar por trás das portas — desde criança, não era coisa nova, ou coisa que ela começara a fazer depois que descobriu que podia virar gato. Escutara Sinasecht falando para a Baronesa sobre a chuva que viria, e coma chuva iria despertar um dragão e também romper as crisálidas de algumas pessoas…

Era tudo muito novo pra ela. Estar em Brasília, então ver seus velhos sonhos destroçados, o desespero de se ver sozinha em uma cidade estranha, e então todas as coisas que aconteceram depois. A descoberta do outro mundo, e de sua verdadeira natureza. E então a casa da colina, Erick, Dairean, Sinasecht e seus sussurros e suas mãos que ela sabia que eram frias sem mesmo ter que encostar nelas, Otto e todas as outras fadas que ela sabia que existiam por ter ouvido falar, ou mesmo sem ter ouvido falar. O mundo, que pareceu tão maior quando ela entrou naquele ônibus para Brasília crescera em grandes e assustadoras ondas desde então, e não parava de crescer. E lá longe, em algum lugar, ela sentia que esta chuva estava novamente alargando suas fronteiras. E ela se sentia excitada e ao mesmo tempo assustada, porque essas coisas são sempre um pouco assustadoras. De repente sentiu-se muito pequena frente a tudo aquilo, e a chuva fina lá fora parecia rugir como uma tempestade, embora continuasse fina. Soube então, sem saber como sabia, que no Sonhar aquela chuva era uma tempestade.

E o Sonhar era a suprema vastidão que a chamava e a assustava ao mesmo tempo. E ela gostava disso. Sem vacilar, tomou a forma de gato e correu pelo quarto, pelo corredor, até a grande sala cheia de móveis que pareciam tão enormes agora, e ganhou o jardim depois de pular pelo janelão da sala que Seu Alcélio não havia fechado por algum motivo. Correu pela chuva, ouvindo ao mesmo tempo as gotas finas trazendo vida de volta pra este mundo e o rugido da tempestade que caía sobre o outro, e que parecia dizer alguma coisa que ela ainda não conseguia entender bem o que era. A curiosidade dos gatos a movia, e ela continou correndo na chuva, sem sequer saber para onde ia.

(imagem por yumedust no dA)

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Voltou a chover lá fora. A chuva que é a linha condutora entre eu e a história, e que descortina a própria história. Isso é um ótimo sinal…

Em algum lugar, Lúti está vendo a chuva.
Lá vamos nós….

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Desisti de escrever o que estava escrevendo. Bem, não é que eu desisti de escrever em si. É mais como se eu tivesse desistido de escrever aquilo que estava escrevendo, que não estava refletindo o que eu queria escrever. Alguns escritos simplesmente dão errado. E escritos não são como pessoas. Eles por vezes não encontram seu caminho. É melhor simplesmente amassar o papel em que se escrevia (ou o equivalente digital “close document” – “don’t save”), abortar, partir pra outra.

Fico então olhando a Fionna, minha gata, passear pela cozinha, ansiosa e frustrada pela estupidez de seu humano — eu — em ter esquecido de comprar comida para ela. Lembro-me de ter lido certa vez, ou mais de uma vez, que Neil Gaiman declarava que ouvia todas as histórias que contava de seu gato, ou seria gata? Não importa, ao menos pra mim, o sexo do felino. O que importa é que eu gostaria, ao menos uma vez, de poder ouvir uma história que a Fionna me contasse. Quem sabe se Neil me ensinasse a entender a fala dos gatos. Acho que seria a solução. Pois o contrário, a Fionna aprender com o gato, ou gata, de Neil Gaiman a falar a fala das gentes, poderia esbarrar no costumaz desinteresse dos felinos — dos dois felinos envolvidos, no caso. Fionna só quer comida, eu não conheço Neil Gaiman pessoalmente, e muito menos seu gato ou gata, e eu deveria estar tentando escrever as histórias que tenho pra contar neste momento em vez de escrever este post sem pé nem cabeça.

Mas de uma forma ou de outra, estas palavras me soaram bem mais honestas do que qualquer história que eu poderia contar neste momento. Queria poder contar uma história sobre gatos e gentes, e sobre suas histórias. E isso é justamente a idéia que eu precisava.

Lúti vai contar a história.

(e é assim que a gente recomeça. deixa a mente vagar pra fora da história, ronda um pouco que nem um gato procurando comida, e então — zás! — você reencontra a senda da história.)

Hora de voltar a meus escritos.
Espero que a Fionna ache comida. Seria terrível escrever com ela miando no meu ouvido.

Onde eu estava?

Ahhh, sim…

“Lúti observava a chuva caindo através da janela…

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Hoje acordei com uma disposição diferente. Não era preguiça, nem falta de vontade de trabalhar. Lavei meu carro, ajeitei as coisas que precisava ajeitar em casa, até tentei trabalhar — mas algo me dizia que não havia trabalho a fazer, e que outra coisa me chamava. Lembrei que havia marcado, de meio coração, o primeiro encontro de imaginários para amanhã. Não havia ainda sentado para juntar as centenas de anotações que havia feito para a Crônica de Changeling que pretendo re-iniciar no encontro, e decidí então quer seria isso que deveria fazer.

Depois de fazer as compras que a casa demandava (e esquecer de comprar comida para minha pobre companheira felina, que agora no início da noite desistiu de miar para ir caçar camundongos), me sentei na frente do computador e comecei a baixar os livros de que precisava, reler velhas anotações, fazer algumas muito poucas novas anotações, ler livros de regras, estudar sobre o que precisava estudar… enfim, assumir novamente o velho manto de contador de histórias.

E tudo fluiu naturalmente, como nos velhos tempos. Sem grandes arroubos, sem grandes bolas de fogo ou outros ocidentalismos associados à magia. Simplesmente, aconteceu. Redescobrí minha senda de contador de histórias, e o manto e o cajado de griô moderno novamente me recaíram leves e naturais nos ombros. Os personagens que antes me sussuravam no ouvido, há várias semanas, fizeram silêncio. Eles sabem que agora vou cuidar deles, e que não é mais necessário seu chamado constante. E é isso que vou fazer. Estou novamente contador de histórias, pois isso é o que eu sou.

E então descobrí que em algum lugar nas redondezas, começou a chover em meio à seca brasiliense. Quem disse que a mágica não está em todo lugar?

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