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Archive for dezembro \05\UTC 2008

L’th sentou-se na beira da calçada, com os longos pés tocando a areia da Praia Vermelha, e se deixou ficar lá. Fitava o sol que se punha, tão inalcançável. O’Dúireagh o olhava sem jeito. Por vezes ficava perplexo com L’th, e não sabia como reagir. Então apenas o olhava e esperava para ver o que faria. Mas L’th ficou lá, sem dizer nada, sem esboçar qualquer reação, olhos púrpuras perdidos na imensidão do mar que abraçava o dia e trazia a noite por trás do sol que ia embora.

– “Você está assim porque falei dos rumores da volta dela, homem?” O’Duireág tentou começar um assunto.

L’th parecia não ter ouvido, mas seus olhos pareciam mais úmidos, mareados. O’Duireág fez menção de falar alguma coisa, mas L’th o interrompeu ao levantar-se da calçada e caminhar em direção ao mar alagoado na Baía da Praia Vermelha. O’Duireág o seguiu.

– “É por conta dela? Por conta da artesã de Atirfeu?” Insistiu O’Duireág, perplexo.
– “Sim e não, cluracão.”
– “O que é então. Você parece triste.”
– “Triste? Sim e não. Sentindo, sim. Sentindo muito. Sentindo como não estava mais acostumado…”
– “Eu não entendo. Você tem sempre que ser tão complicado?”
– “É você que finge que não é, cluracão.”

O’Duireág se calou. Ele também sabia que sentia. Ficou também observando o mar que era pouco a pouco engolido pela noite. Quase não ouviu quando L’th continuou a falar, com uma voz suave e embargada que ele nunca havia ouvido antes…

– “Não é só por ela que me emociono nesta tarde. É por ele. Pelo caminhante que cantou as ilhas. Por DánL’th… É a ele que amo acima de tudo, e também tenho medo que volte. E com a volta dela, ele também irá voltar. É assim que é, e é assim que ele é. Voltará. Eu não sei o que fazer sobre isso. Por vezes era mais fácil quando ele estava em outro mundo e eu podia me esconder e fingir que nada mais existia além de mim. Mas ele é parte de mim, eu sou parte dele, e por isso não posso deixar de amá-la e amar a ele ainda mais agora que se aproximam.”

O’Duireág não sabia o que dizer frente a tudo aquilo. Era ao mesmo tempo complexo demais e familiar demais. Sussurrou apenas um “eu entendo” quase inaudível, e suspirou profundamente.

O alto senhor feérico e o cluracão ficaram observando o mar até que a noite os abraçou. E depois foram embora andando pela praça em um silêncio cúmplice.

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