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Archive for junho \09\UTC 2011

Vivemos sob a égide da inconsciência por default. E não é para menos. A vida é corrida, e espreme cada momento ou lembrança de epifania para fora de nós. Rouba-nos também, ou nos faz furtar de nós mesmo, nosso tempo para ser. A vida moderna é uma corrida em direção a lugar nenhum, deixando para trás toda a bagagem que a gente não sabe como carregar.

Mas chega o momento em que a gente se pergunta se tudo aquilo que ficou para trás (e não deveria) não é justamente aquilo que nos era mais precioso. Quem é que não tem uma história de algo que fazia — ou alguém que era — e que ficou no passado, acolchoado em uma caixa mental de lembranças doces e difusas?

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Este texto foi escrito na época da palestra sobre Mitoreciclagem que realizamos no Campus Party 2009, no Encontrão Intergaláctico do Metareciclagem. Hoje me cutucaram para voltar a isso, e eu voltei. E foi bom. =)

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Eu gosto de pensar em mitos como narrativas. Histórias que nos são contadas, histórias que contamos para os outros e para nós mesmos. Mas não é qualquer tipo de história. Trata-se de uma história poderosa, que carrega dentro de sí peças do quebra-cabeças de nossa visão de mundo e de realidade. As histórias que ouvimos e as histórias que contamos, e as histórias que vivemos, definem aquilo que temos por real e imaginário, certo e errado, bom e ruim. Somos todos seres míticos, mesmo que nem sempre estejamos conscientes disso.

Muitas pessoas costumam associar os mitos a um tipo de narrativa fantástica, que sabemos ser fantasiosa — não real, e que é geralmente povoada por deuses e seres fantásticos. Estas histórias podem ser mitos, mas na maior parte dos casos elas não são os nossos mitos. Mas por confundir estas histórias fantásticas com mitos, acreditamos viver em uma época não-mítica — e eu acredito que esta é uma idéia equivocada.

Mitos são histórias, sim. Histórias que podem ser sobre qualquer coisa, mas das quais derivamos nossas idéias e sentimentos sobre como o mundo é, como as coisas acontecem, o que é certo e errado, real ou imaginário. Na maior parte dos casos, nossos mitos não são mais sobre deuses e seres fantásticos, forças da natureza ou feitos sobrenaturais. Estes são, na maior parte dos casos, mitos de outros tempos e povos que absorvemos em nossos caldeirões de histórias, mas que não podem mais ser considerados os nossos mitos.

Nossos mitos são sobre pessoas e seus feitos. São histórias sobre empresas, governos, organizações, e sobretudo sobre pessoas que podem ou não ser pessoas como nós. São histórias sobre máquinas e estruturas abstradas, como as leis ou os estados, e nossas relações com elas. Nossos mitos são sobre pessoas que trabalham duro e acumulam muito dinheiro, sobre como as empresas e os governos são poderosos — tem o poder de manufaturar produtos complexos e mandar direta e indiretamente em nossas vidas, mitos sobre pessoas corruptas que se dão bem, sobre como doenças estranhas podem surgir do nada e nos matar, mitos sobre como a classe social que nascemos define quem somos e o que podemos fazer. Nossos mitos são todas aquelas histórias que ouvimos e, acreditando completamente nelas ou não, absorvemos delas algo que vai fazer parte da dinâmica pintura maior que é a nossa visão do mundo.

Se em alguns povos os mitos vinham de sacerdores e xamãs, viajantes e contadores de histórias, os nossos mitos hoje chegam a nós por muitos meios diversos: desde as conversas com o amigo ou com a vizinha, passando pelas escolas que frequentamos, lugares onde trabalhamos, até chegar na imprensa, nas empresas cujos produtos consumimos e os governos que nos regem.

Quando o ministério da saúde exige que todas as embalagens de cigarros apresentem fotos que representam os males do cigarro associadas a dizeres sobre os efeitos nocivos dos mesmos, isso é uma forma de difusão mítica. Podemos desconsiderar estas fotos e dizeres, ou prestar atenção nelas, mas de um jeito ou de outro elas reforçam a idéia de que os cigarros causam doenças — coisas que hoje são inquestionáveis, mas das quais muitas pessoas duvidavam a pouco tempo atrás, quando estas mesmas afirmações de valor mítico eram recusadas e desmentidas pelas empresas de cigarro, interessadas no consumo dos mesmos. Este pode não ser o melhor exemplo (foi o que me ocorreu agora) mas é uma amostra de como nos são contadas histórias que de um jeito ou de outro definem o que é real para nós.

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“…Tudo é narrativa. Aquilo que estamos vivendo neste exato momento é uma narrativa que vertemos sob nós mesmos. Aquilo que nossos sentidos captam, aquilo que interpretamos do que percebemos, se transforma em uma narrativa para nós mesmos quando nos dizemos ‘estou vendo um computador, ele está ligado na minha conta de Gmail, estou lendo um email do Daniel Duende que fala sobre mitos, e ele fala o seguinte…’. Quando conversamos, isso também é uma narrativa de muitos níveis. Eu estou te narrando o que digo, ao passo que você narra para você mesmo o que ouviu do que eu disse. Ao mesmo tempo, você narra para mim aquilo que está sentindo, através de suas expressões faciais ou corporais, ou de eventais palavras de concordância ou discordância que você diga, e eu narro para mim mesmo aquilo que estou vendo você fazer e ouvindo você falar a respeito do que eu estou te dizendo. Ao mesmo tempo, quem nos escuta está narrando para si mesmo aquilo que seus sentindos estão captando, e na mesma medida contamos a nós mesmos sobre as reações daqueles que estão assistindo a conversa. Sob a mesma ótica, estou narrando para você aquilo que quero dizer com estas palavras, e você, narrando para si mesmo o que entendeu delas. Que tal me contar agora o que acha daquilo que eu disse?”

Palestra sobre Mitoreciclagem no Encontrão Intergalactico do Metareciclagem, no Campus Party de 2009

Baixe aqui o áudio da palestra.

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