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Archive for junho \06\UTC 2014

Tinha uma moça que morava ali naquela casa, naquela pontinha da praia. Faz um tempo. Eu não sei quando foi que ela chegou. Eu só sei que um dia eu tava ajudando meu pai a colocar a jangada da água, e ela tava lá parada olhando pro mar. Ela usava uma roupa escura, um vestido. E ela parecia que tava abraçando alguma coisa forte, mas não tinha nada. Ela só ficava lá, olhando pro mar, abraçando o vazio, inclinando a cabeça. Eu achei a moça estranha aquele dia.

Mas ela não era má não. Quer dizer, eu nunca falei com ela. Mas eu nunca vi ou ouvi que ela era má. Perguntei pro meu pai, e ele me olhou triste e falou que não era pra eu falar com a moça. Falou que eu era muito pequena pra entender, mas que era melhor eu não ir lá. Mas eu sempre ficava olhando pra ela quando eu levantava cedo pra ajudar meu pai.

Toda vez, ela tava olhando lá pro mar. Às vezes tava abraçando alguma coisa que eu não via. Eu só via ela abraçando o ar. Ela tinha uns desenhos bonitos em um braço. No braço inteiro. E às vezes ela tava só olhando pro mar. De vez em quando vinham umas andorinhas e pousavam perto dela. Acho que ela falava com as andorinhas. Eu não sei. Mas as andorinhas, quando vinham, ficavam lá com ela. E depois voavam, e ela continuava olhando para o mar.

Um dia a moça sumiu. Eu passei muitos dias sem ver ela. Só a casa vazia. E ninguém vindo olhar para o mar. E então um dia ela apareceu de novo. E todo dia eu via ela lá olhando pro mar de novo, de manhazinha.

Os filhos dos amigos do papai falavam coisas ruins dela. Não lembro o que era, mas eram ruins. Eu não entendo, porque eu nunca vi eles falando com ela. E eu nunca vi ela fazendo nada de ruim. A moça só olhava o mar.

Um dia eu insisti tanto que meu pai me levou pro mar junto com ele. Eu levantei cedo, e ajudei ele a colocar a jangada no mar. E ele me pegou e me ajudou a subir na jangada, e a gente foi pro mar. Quando olhei pra praia, a moça tava lá. E eu acho que ela tava olhando pra gente. Mas a gente já tava longe, e ela tava pequenininha na praia. Depois eu esqueci dela, porque meu pai queria que eu ajudasse ele a jogar a rede, a vigiar a rede, a puxar a rede. Eu fiquei muito feliz, mas meu pai disse que a vida no mar não é pra mulher.

Quando a gente tava voltando pra casa, eu juro que eu vi uma coisa grande nadando no mar. Ela passou rápido, quando a gente tava ainda longe da praia. Eu apontei pro meu pai, mas ele não viu. Disse que eu era uma criança e tava imaginando coisas. Eu fiquei triste, porque eu tinha mesmo visto, e eu fiquei um pouco com medo, mas eu também fiquei querendo saber o que era. Quando cheguei na praia, e depois que ajudei meu pai a levar as redes e o pescado pra dentro, eu voltei pra praia. Já tava anoitecendo. Mas eu olhei pro mar e chorei baixinho lembrando da mamãe. Meu pai não falava da mamãe, nem quando eu perguntava pra ele. Um dia ele tinha bebido com os amigos e eu perguntei, e ele só disse que ela foi embora pro mar. Meu pai ficou brabo com a pergunta, então não perguntei mais. Mas depois desse dia, sempre que eu queria falar com a mamãe, eu falava com o mar.

Será que a moça que morava naquela casa também tava falando com o mar?

Passou uns dois meses, chegou meu aniversário, passou meu aniversário, e um dia eu fui com meu pai pro mar de novo. Esse dia tava meio chuvoso, meu pai não queria me levar, mas eu pedi por favor e ele acabou me levando. O mar tava meio balançado, e meu pai falou que não tinha sido uma boa idéia me levar com ele porque falaram que tava tendo tubarão na água. Meu pai falou que um outro pescador, amigo dele, tinha sido atacado. Eu fiquei pensando como devia ser ruim ser mordida por um tubarão, e fiquei olhando pra água. Meu pai não me pediu pra ajudar ele com as redes nesse dia, porque o mar tava puxado e ele tinha medo da rede me puxar pro mar. Mas aí começou a chover e a jangada começou a balançar mais ainda. Meu pai decidiu que tava na hora de voltar, mesmo sem pescado.

Eu não lembro o que aconteceu direito. Eu acho que foi a vela que girou com o vento e bateu em mim. Eu caí na água, e ela tava gelada. Eu ouvi meu pai gritar, mas tava longe. Eu não tava vendo nada, porque tava tudo escuro lá dentro e tava muito frio. E aí eu senti que alguma coisa tinha me pegado pelas costas. Eu gritei porque achei que era o tubarão. Saiu um monte de bolhas da minha boca e eu não podia ver nada, mas a coisa que me pegou tava me puxando pra trás. Quando eu vi, eu tava virada pra beirada da jangada e eu agarrei com força na murada. Meu pai me puxou pra dentro. Tava chovendo e ele tava todo molhado também, mas eu acho que ele tava chorando, porque tava com o olho vermelho.

Quando eu olhei pra trás, lá na água, eu vi! Era a moça. Eu vi. Ela olhou pra mim com aqueles olhos grandes. Ela tava grande, e tinha um rabo de peixe. Eu vi os desenhos bonitos do corpo dela. E ela foi embora. Meu pai disse que não viu, mas eu vi!

Ela morava alí naquela casa. Mas eu nunca vi ela depois disso. E eu fico triste de nunca ter ido visitar ela.
Eu sinto falta dela.

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