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Archive for the ‘escritos’ Category

Tinha uma moça que morava ali naquela casa, naquela pontinha da praia. Faz um tempo. Eu não sei quando foi que ela chegou. Eu só sei que um dia eu tava ajudando meu pai a colocar a jangada da água, e ela tava lá parada olhando pro mar. Ela usava uma roupa escura, um vestido. E ela parecia que tava abraçando alguma coisa forte, mas não tinha nada. Ela só ficava lá, olhando pro mar, abraçando o vazio, inclinando a cabeça. Eu achei a moça estranha aquele dia.

Mas ela não era má não. Quer dizer, eu nunca falei com ela. Mas eu nunca vi ou ouvi que ela era má. Perguntei pro meu pai, e ele me olhou triste e falou que não era pra eu falar com a moça. Falou que eu era muito pequena pra entender, mas que era melhor eu não ir lá. Mas eu sempre ficava olhando pra ela quando eu levantava cedo pra ajudar meu pai.

Toda vez, ela tava olhando lá pro mar. Às vezes tava abraçando alguma coisa que eu não via. Eu só via ela abraçando o ar. Ela tinha uns desenhos bonitos em um braço. No braço inteiro. E às vezes ela tava só olhando pro mar. De vez em quando vinham umas andorinhas e pousavam perto dela. Acho que ela falava com as andorinhas. Eu não sei. Mas as andorinhas, quando vinham, ficavam lá com ela. E depois voavam, e ela continuava olhando para o mar.

Um dia a moça sumiu. Eu passei muitos dias sem ver ela. Só a casa vazia. E ninguém vindo olhar para o mar. E então um dia ela apareceu de novo. E todo dia eu via ela lá olhando pro mar de novo, de manhazinha.

Os filhos dos amigos do papai falavam coisas ruins dela. Não lembro o que era, mas eram ruins. Eu não entendo, porque eu nunca vi eles falando com ela. E eu nunca vi ela fazendo nada de ruim. A moça só olhava o mar.

Um dia eu insisti tanto que meu pai me levou pro mar junto com ele. Eu levantei cedo, e ajudei ele a colocar a jangada no mar. E ele me pegou e me ajudou a subir na jangada, e a gente foi pro mar. Quando olhei pra praia, a moça tava lá. E eu acho que ela tava olhando pra gente. Mas a gente já tava longe, e ela tava pequenininha na praia. Depois eu esqueci dela, porque meu pai queria que eu ajudasse ele a jogar a rede, a vigiar a rede, a puxar a rede. Eu fiquei muito feliz, mas meu pai disse que a vida no mar não é pra mulher.

Quando a gente tava voltando pra casa, eu juro que eu vi uma coisa grande nadando no mar. Ela passou rápido, quando a gente tava ainda longe da praia. Eu apontei pro meu pai, mas ele não viu. Disse que eu era uma criança e tava imaginando coisas. Eu fiquei triste, porque eu tinha mesmo visto, e eu fiquei um pouco com medo, mas eu também fiquei querendo saber o que era. Quando cheguei na praia, e depois que ajudei meu pai a levar as redes e o pescado pra dentro, eu voltei pra praia. Já tava anoitecendo. Mas eu olhei pro mar e chorei baixinho lembrando da mamãe. Meu pai não falava da mamãe, nem quando eu perguntava pra ele. Um dia ele tinha bebido com os amigos e eu perguntei, e ele só disse que ela foi embora pro mar. Meu pai ficou brabo com a pergunta, então não perguntei mais. Mas depois desse dia, sempre que eu queria falar com a mamãe, eu falava com o mar.

Será que a moça que morava naquela casa também tava falando com o mar?

Passou uns dois meses, chegou meu aniversário, passou meu aniversário, e um dia eu fui com meu pai pro mar de novo. Esse dia tava meio chuvoso, meu pai não queria me levar, mas eu pedi por favor e ele acabou me levando. O mar tava meio balançado, e meu pai falou que não tinha sido uma boa idéia me levar com ele porque falaram que tava tendo tubarão na água. Meu pai falou que um outro pescador, amigo dele, tinha sido atacado. Eu fiquei pensando como devia ser ruim ser mordida por um tubarão, e fiquei olhando pra água. Meu pai não me pediu pra ajudar ele com as redes nesse dia, porque o mar tava puxado e ele tinha medo da rede me puxar pro mar. Mas aí começou a chover e a jangada começou a balançar mais ainda. Meu pai decidiu que tava na hora de voltar, mesmo sem pescado.

Eu não lembro o que aconteceu direito. Eu acho que foi a vela que girou com o vento e bateu em mim. Eu caí na água, e ela tava gelada. Eu ouvi meu pai gritar, mas tava longe. Eu não tava vendo nada, porque tava tudo escuro lá dentro e tava muito frio. E aí eu senti que alguma coisa tinha me pegado pelas costas. Eu gritei porque achei que era o tubarão. Saiu um monte de bolhas da minha boca e eu não podia ver nada, mas a coisa que me pegou tava me puxando pra trás. Quando eu vi, eu tava virada pra beirada da jangada e eu agarrei com força na murada. Meu pai me puxou pra dentro. Tava chovendo e ele tava todo molhado também, mas eu acho que ele tava chorando, porque tava com o olho vermelho.

Quando eu olhei pra trás, lá na água, eu vi! Era a moça. Eu vi. Ela olhou pra mim com aqueles olhos grandes. Ela tava grande, e tinha um rabo de peixe. Eu vi os desenhos bonitos do corpo dela. E ela foi embora. Meu pai disse que não viu, mas eu vi!

Ela morava alí naquela casa. Mas eu nunca vi ela depois disso. E eu fico triste de nunca ter ido visitar ela.
Eu sinto falta dela.

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fragmentos

“existem peças de lixo que já começaram a fazer parte da decoração. e não é assim às vezes com a vida? até o dia em que você joga fora um pouco mais do lixo, ou um pouco mais da vida.”

“guardara alí sua tesoura para nunca mais perdê-la. e nunca mais a achara.”

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“Era um homem muito triste. Trazia uma grande trouxa de bagagem nas costas e me parou educadamente pedindo direções. Parecia ignorar que a estrada de tijolos cinzentos o leva sempre aos mesmos lugares, pois me perguntou se naquele dia era possível chegar a Setestrelas se tomando o desvio à direita. […] Quando perguntei por quê estava deixando a capital, ele me disse gravemente que só se deve deixar um lugar quando os motivos para se querer ir embora não forem mais compensados pelos motivos para se querer ficar. Insistí, e ele simplesmente me disse que não morava mais lá, e calou. Eu também silenciei quando me perguntou de onde eu vinha. De certa forma, me parecia que por mais que andasse estava sempre em um lugar muito familiar, e não fazia mais para mim sentido algum dizer que um dia vim de algum lugar.”

Velhas anotações no 529. Novas anotações se somarão.

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Trazendo o papo para fora do silo.

O post era este aqui:

Conversando com Luiz Fernando Macedo sobre histórias encantadas e histórias nas quais se mergulha (ou aquelas que nos levam com elas), relembrei o conceito da subcriação tolkeniana. Escrevi sobre ela há alguns anos, aqui:

http://cadernodocluracao.wordp​ress.com/2007/03/24/subcriacao​-poder-divino-e-essencia-do-fa​ntastico-da-imaginacao-e-da-re​alizacaorealidade/

Luiz Fernando Macedo disse:

“Ótimo texto, ótimo mesmo! Fico maravilhado com o pensamento de que uma realidade, como a de Tolken, pode existir simultaneamente na cabeça de milhares de pessoas. Cada cidade e cada personagem, formando um universo tão diferente e ao mesmo tempo tão parecido com o nosso, onde cada pessoa tem a chance de viver experiências únicas dentro dele. Também é fascinante saber que mesmo sendo originados pela mesma fonte, cada um destes mundos é tão individual e subjetivo que acaba se tornando único na cabeça de cada um. Contar uma história não algo fixo, escrito em pedra e sim algo moldável de forma que cada vez que a história for recontada ela irá englobar, mesmo que sutilmente, as vivências daquele indivíduo, que vai acabar passando com mais ênfase naquilo que foi mais importante para ele. Contar histórias não permite apenas que você experencie aquelas vivências, mas também dá oportunidade do outro a experienciar. Por isso faço coro com você e também digo com orgulho que sou um contador de histórias!”

Eu disse:

“Com certeza, meu caro Luiz Fernando Macedo. Contar histórias é abrir as portas para universos simbólicos ricos e vivos. Aqueles que nos acompanham nas histórias que contamos (ora coletivamente) são companheiros, e não passageiros, nessa viagem. Meu orgulho de contador de histórias se baseia principalmente na importância destas para a sanidade psíquica e espiritual dos seres. Nossa vida é feita de narrativas (que ora narramos para nós mesmos, quando tomamos consciência de nosso mundo e dizemos: isso é isso, aquilo é aquilo), são narrativas míticas que constroem a nossa percepção do mundo. São também narrativas nossa comunicação interpessoal e todo e qualquer conceito de história que possuímos. Somos, ou deveriamos ser todos, em algum aspecto, contadores de histórias.

[…]

E retornando ao foco da discussão (eu divago… e como…), acho bela e emocionante a idéia de que cada pessoa que lê/escuta uma história dela se reapropria, constrói um simulacro simbólico dentro de seu próprio universo, tecitura das tramas da narrativa adicionada com os fios e tinturas de sua própria história e universo simbólico internos. Contar e ouvir histórias é igualmente criativo e construtor de pontes e sentidos.”

Segue a conversa?

A Rivendell de J.R.R. Tolkien na aquarela de... Alan Lee ou de Brian Froud, creio eu.

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Estava escuro. A dor era algo abstrato, presente e sem lugar. Apenas sentia. Por tudo que se lembrava, havia acabado de despertar. Fora de hora, no meio da noite. Sonhara? Não sabia. Estava escuro e estava doendo, e ele estava com medo. Tentou dormir de novo, mas não conseguia. A dor permanecia, como uma companheira que precisa falar e não te deixa dormir. Ele se resignou a apenas ficar lá, no escuro, e ouvir a dor.

A dor falou de descaso. Falou das farças que a gente encena para nós mesmos. Falou de fuga, e vício, e entrega. Falou de escolhas. Ou isto era apenas sua cabeça passeando enquanto a dor apenas falava sua língua de latejos e pulsos cortantes.

O que você sabe sobre os deuses? Ele quase podia ouvir a voz, mas sabia que vinha de dentro. Não havia mais ninguém dali afora àquela hora. O que sei sobre os deuses? Sabia. Sabia um monte de coisas. Mas o que sabia não o serve mais. É no escuro e na dor a melhor hora para começar a reaprender.

Os Deuses estão todos dentro de nós. São parte de nós, assim como somos parte deles. Muitos se esquecem disso. Na verdade, os Deuses são nós. Nós de sentidos, de imagem e imaginação. São confluências, rostos, presenças. São absolutamente reais em sua própria forma de serem reais. Assim como nós. O resto pode muito bem ser ilusão, pois é de outro mundo. Um mundo que é bem menos parte de nós, e nós dele, porque foi inventado. Só os deuses já estavam lá mesmo antes de serem inventados. Eles só aceitaram as roupas que ganharam de nós. E nós nos demos os Deuses da mesma forma que nos demos aos Deuses. Deuses são a experiência da divindade, como dela nos lembramos, como a ela conhecemos.

Quais são os seus Deuses? Ele podia novamente ouvir a voz, mas sabia que vinha de dentro. Tentou pensar em todos os Deuses que conhecia, e todos eles pareciam apenas lembranças estéreis. Mas ele entendeu. Estas são lembranças estéreis, de segunda mão. São apenas histórias. Quais são os seus Deuses? Quais são os rostos que você enxerga simples e naturalmente.

E então o portal se abriu, e ele enxergou seus Deuses.
E soube então qual era o caminho. E a cura fazia parte dele.

Om Namah Shivaiya. Om Namah Chandekayee. Jaya Jagatambe Eh Maa Durga, Maa Kalee.

Nós de sentido da divindade que é.

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Este texto foi escrito na época da palestra sobre Mitoreciclagem que realizamos no Campus Party 2009, no Encontrão Intergaláctico do Metareciclagem. Hoje me cutucaram para voltar a isso, e eu voltei. E foi bom. =)

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Eu gosto de pensar em mitos como narrativas. Histórias que nos são contadas, histórias que contamos para os outros e para nós mesmos. Mas não é qualquer tipo de história. Trata-se de uma história poderosa, que carrega dentro de sí peças do quebra-cabeças de nossa visão de mundo e de realidade. As histórias que ouvimos e as histórias que contamos, e as histórias que vivemos, definem aquilo que temos por real e imaginário, certo e errado, bom e ruim. Somos todos seres míticos, mesmo que nem sempre estejamos conscientes disso.

Muitas pessoas costumam associar os mitos a um tipo de narrativa fantástica, que sabemos ser fantasiosa — não real, e que é geralmente povoada por deuses e seres fantásticos. Estas histórias podem ser mitos, mas na maior parte dos casos elas não são os nossos mitos. Mas por confundir estas histórias fantásticas com mitos, acreditamos viver em uma época não-mítica — e eu acredito que esta é uma idéia equivocada.

Mitos são histórias, sim. Histórias que podem ser sobre qualquer coisa, mas das quais derivamos nossas idéias e sentimentos sobre como o mundo é, como as coisas acontecem, o que é certo e errado, real ou imaginário. Na maior parte dos casos, nossos mitos não são mais sobre deuses e seres fantásticos, forças da natureza ou feitos sobrenaturais. Estes são, na maior parte dos casos, mitos de outros tempos e povos que absorvemos em nossos caldeirões de histórias, mas que não podem mais ser considerados os nossos mitos.

Nossos mitos são sobre pessoas e seus feitos. São histórias sobre empresas, governos, organizações, e sobretudo sobre pessoas que podem ou não ser pessoas como nós. São histórias sobre máquinas e estruturas abstradas, como as leis ou os estados, e nossas relações com elas. Nossos mitos são sobre pessoas que trabalham duro e acumulam muito dinheiro, sobre como as empresas e os governos são poderosos — tem o poder de manufaturar produtos complexos e mandar direta e indiretamente em nossas vidas, mitos sobre pessoas corruptas que se dão bem, sobre como doenças estranhas podem surgir do nada e nos matar, mitos sobre como a classe social que nascemos define quem somos e o que podemos fazer. Nossos mitos são todas aquelas histórias que ouvimos e, acreditando completamente nelas ou não, absorvemos delas algo que vai fazer parte da dinâmica pintura maior que é a nossa visão do mundo.

Se em alguns povos os mitos vinham de sacerdores e xamãs, viajantes e contadores de histórias, os nossos mitos hoje chegam a nós por muitos meios diversos: desde as conversas com o amigo ou com a vizinha, passando pelas escolas que frequentamos, lugares onde trabalhamos, até chegar na imprensa, nas empresas cujos produtos consumimos e os governos que nos regem.

Quando o ministério da saúde exige que todas as embalagens de cigarros apresentem fotos que representam os males do cigarro associadas a dizeres sobre os efeitos nocivos dos mesmos, isso é uma forma de difusão mítica. Podemos desconsiderar estas fotos e dizeres, ou prestar atenção nelas, mas de um jeito ou de outro elas reforçam a idéia de que os cigarros causam doenças — coisas que hoje são inquestionáveis, mas das quais muitas pessoas duvidavam a pouco tempo atrás, quando estas mesmas afirmações de valor mítico eram recusadas e desmentidas pelas empresas de cigarro, interessadas no consumo dos mesmos. Este pode não ser o melhor exemplo (foi o que me ocorreu agora) mas é uma amostra de como nos são contadas histórias que de um jeito ou de outro definem o que é real para nós.

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“…Tudo é narrativa. Aquilo que estamos vivendo neste exato momento é uma narrativa que vertemos sob nós mesmos. Aquilo que nossos sentidos captam, aquilo que interpretamos do que percebemos, se transforma em uma narrativa para nós mesmos quando nos dizemos ‘estou vendo um computador, ele está ligado na minha conta de Gmail, estou lendo um email do Daniel Duende que fala sobre mitos, e ele fala o seguinte…’. Quando conversamos, isso também é uma narrativa de muitos níveis. Eu estou te narrando o que digo, ao passo que você narra para você mesmo o que ouviu do que eu disse. Ao mesmo tempo, você narra para mim aquilo que está sentindo, através de suas expressões faciais ou corporais, ou de eventais palavras de concordância ou discordância que você diga, e eu narro para mim mesmo aquilo que estou vendo você fazer e ouvindo você falar a respeito do que eu estou te dizendo. Ao mesmo tempo, quem nos escuta está narrando para si mesmo aquilo que seus sentindos estão captando, e na mesma medida contamos a nós mesmos sobre as reações daqueles que estão assistindo a conversa. Sob a mesma ótica, estou narrando para você aquilo que quero dizer com estas palavras, e você, narrando para si mesmo o que entendeu delas. Que tal me contar agora o que acha daquilo que eu disse?”

Palestra sobre Mitoreciclagem no Encontrão Intergalactico do Metareciclagem, no Campus Party de 2009

Baixe aqui o áudio da palestra.

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– Você pode ouvir a música?

Eu estava tomado demais pelos meus sentimentos e preocupações e idéias para entender o que ele queria dizer. O máximo que pude fazer foi olhar em seus olhos feéricos, alienígenas, que expressavam algo próximo de uma perplexidade divertida. Pensei em tentar explicar de novo, mas desisti da idéia de que ele entenderia sentimentos humanos.

– Você pode ouvir a música?

– “Eu acho que sim.”, respondi sem saber ao certo se era verdade. E então, no silêncio posterior, comecei a entender e ouvir a música…

– Então dance.

Fez sentido.

p.s. “now… who’s the faerie, you blind man?”

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