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Posts Tagged ‘alma’

reencontrei minha alma,
como tesouro de naufrágio.
preciosa!

eu, justo eu,
que nem sabia se,
e quando, e onde,
naufraguei.

reencontrei entre as ondas
do oceano do sono
e as praias de mim mesmo,
onde vinha andando
sem sentir a areia.

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“Agora só durmo, há tanto tempo que nem lembro a cor dos meus olhos. – Pois eu sei de que cor eles são. – provocou – Sabe? – Cor de tristeza, olhos como os seus só podem ter cor de tristeza. – Você acha? – Acho. – Quem é você? Nunca vem ninguém aqui. – Isso não é importante, tenho que ir embora mesmo. – Espera. Ela se sentou e abriu os olhos vagarosamente, querendo fechá-los, de doloridos que estavam. Ele abriu um enorme sorriso ao vislumbrar os olhos violeta, brilhantes. – Ah, eu estava certo – disse tocando o rosto dela -, são lindos. – São? – Violeta – ele gritou, rindo -, lindos! – e foi embora

“- E que escolha a gente tem quando a nossa felicidade depende de outra pessoa não mudar de idéia cada vez que acorda? Que escolha a gente realmente tem?
– Não, Estela, acho que a gente não tem escolha alguma

“Penso em amor. A guerra estoura no Haiti. Um furacão devasta os eua. Penso em amor. Uma borboleta cai morta no chão, com as asas quebradas. Acendo um cigarro numa miríade de atos falhos. Leio sempre as mesmas páginas do livro. Põe um pouco mais de whisky no meu café, por favor, que é para ver se eu entendo melhor o mundo

Por um ínfimo momento daquele quase amanhecer Adriana e Amanda foram a mesma: duas mulheres com amor para além de si, com o estranho desejo de se viverem por extravasar. Duas belas mulheres olhando o amanhecer mais belo dos tempo, sentindo o cheiro da chuva passda e desejando a eternidade daquele momento que, sabiam, só era o que era por ser momento. Elas sorriram o mesmo sorriso. Adriana pensou nele e disse eu te amo para si mesma antes de adormecer, pensando em dias vindouros. Amanda pensou no garoto com quem nunca havia tido nada e se quis consolar por não se viver inteira, pois não se vivia amar

“Ela olha para o lado e pensa em respirar fundo. Chove. Dá para ver a janela do lado da mesa, o rosto dela à esquerda, o dele à direita. Gotas de chuva escorrem discretas, embaçando. Ela olha para ele por dentro. Ele para de mastigar no meio do caminho e pergunta:
– O que foi?
– Eu te amo.
– Eu também.
Ele olha para a janela. Ela, para o outro lado

Ela sabe contar histórias…

Eu só estou (re)aprendendo.
É sempre bom (re)aprender…

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“Agora só durmo, há tanto tempo que nem lembro a cor dos meus olhos. – Pois eu sei de que cor eles são. – provocou – Sabe? – Cor de tristeza, olhos como os seus só podem ter cor de tristeza. – Você acha? – Acho. – Quem é você? Nunca vem ninguém aqui. – Isso não é importante, tenho que ir embora mesmo. – Espera. Ela se sentou e abriu os olhos vagarosamente, querendo fechá-los, de doloridos que estavam. Ele abriu um enorme sorriso ao vislumbrar os olhos violeta, brilhantes. – Ah, eu estava certo – disse tocando o rosto dela -, são lindos. – São? – Violeta – ele gritou, rindo -, lindos! – e foi embora

“- E que escolha a gente tem quando a nossa felicidade depende de outra pessoa não mudar de idéia cada vez que acorda? Que escolha a gente realmente tem?
– Não, Estela, acho que a gente não tem escolha alguma

“Penso em amor. A guerra estoura no Haiti. Um furacão devasta os eua. Penso em amor. Uma borboleta cai morta no chão, com as asas quebradas. Acendo um cigarro numa miríade de atos falhos. Leio sempre as mesmas páginas do livro. Põe um pouco mais de whisky no meu café, por favor, que é para ver se eu entendo melhor o mundo

Por um ínfimo momento daquele quase amanhecer Adriana e Amanda foram a mesma: duas mulheres com amor para além de si, com o estranho desejo de se viverem por extravasar. Duas belas mulheres olhando o amanhecer mais belo dos tempo, sentindo o cheiro da chuva passda e desejando a eternidade daquele momento que, sabiam, só era o que era por ser momento. Elas sorriram o mesmo sorriso. Adriana pensou nele e disse eu te amo para si mesma antes de adormecer, pensando em dias vindouros. Amanda pensou no garoto com quem nunca havia tido nada e se quis consolar por não se viver inteira, pois não se vivia amar

“Ela olha para o lado e pensa em respirar fundo. Chove. Dá para ver a janela do lado da mesa, o rosto dela à esquerda, o dele à direita. Gotas de chuva escorrem discretas, embaçando. Ela olha para ele por dentro. Ele para de mastigar no meio do caminho e pergunta:
– O que foi?
– Eu te amo.
– Eu também.
Ele olha para a janela. Ela, para o outro lado

Ela sabe contar histórias…

Eu só estou (re)aprendendo.
É sempre bom (re)aprender…

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“Ele a observava dormir, da segurança de seu cigarro à beira da cama. Refazia seus contornos, suas curvas, seus caminhos. Sabia de cabeça como havia chegado até alí. Depois disso, do amanhã, não sabia. Havia aprendido a viver e não querer saber. Apenas ouvia a chuva e a observava dormir, aboletado na segurança de seu cigarro. A fumaça se perdia no rumo da luz. Sessenta watts de luz.

— Hummm… Oi… — ela acordou.
Ele sorriu, boca torta segurando o cigarro. Nu por trás da fumaça.
— Você estava me olhando dormir? Assim eu fico com vergonha.
Ele continuou sorrindo enquanto se levantava. Alcançou o copo de absinto que esquentava sobre a estante e voltou para a cama.
Falou — Estava pensando naquele dia que você cantou para mim.
— Eu estava bêbada — cortou ela. — não canto mais. — espreguiçou, trazendo seus braços e seus seios para a luz.
Ele apenas assentiu com a cabeça, olhar distante nos olhos voltados para ela.
Ela olhou em seus olhos por alguns segundos, e voltou a se virar para dormir.
— Você pode não cantar mais, mas aquele momento em que você cantou agora é meu.

Apagou o cigarro no cinzeiro. Apagou a luz. Sentou-se novamente na cama e olhou para ela, iluminada pela lua que escapava das cortinas e desenhava sobre seu rosto. Lua inteira. Tudo inteiro, mesmo que feito em mil pedaços de luz na escuridão.
Deitou-se e demorou a dormir, mas estava feliz. Teria medo do amanhã se não tivesse aprendido a viver o hoje.

Nada mais é o mesmo depois que você ama. Nada se perde. Tudo flui.”

Mais um fragmento de palavras em meio ao silêncio.
Talvez um dia eu o costure a uma história, ou o use para remendar algum buraco de alma.

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Conforme prometido, aí vai mais um fragmento de meu encruado e complexo conto Samhain. Este é um fragmento de seu início. Não tentem entender a conexão dele com o outro fragmento. Samhain é um conto surreal e cheio de surpresas…

Chuva.

“(…)Os carros buzinavam e passavam lentos, refletindo-se no chão molhado. O tráfego estava levemente engarrafado sobre o asfalto lavado da pista em frente à comercial. Chovia de leve no fim da tarde. O trânsito fluía devagar, quase hipnótico, deixando Rodrigo desatento a tudo mais. O garçom trouxe mais uma garrafa. Marcou um risco azul na comanda da conta. Foi embora. Rodrigo nem o viu. Não viu também a moça de cabelos pretos que passava ao lado da mesa. Ela também não o viu. A gente não enxerga aquilo que não conhece. Vivemos em mundos tão pequenos… E os carros continuavam buzinando e se refletindo no chão. Rodrigo continuava absorto, sem refletir sobre nada. Era um trivial entardecer repleto de nada. Enquanto isso, Alma entrava no carro e ia embora, para se juntar aos carros que buzinavam e refletiam sobre o asfalto. Nada demais.

Caía a noite do dia trinta e um de outubro, mas isso não fazia a menor diferença para a maioria da cidade. Fazia alguma diferença para Rodrigo, que costumava acreditar em velhos Deuses e outras coisas de que ninguém mais se lembra. Costumava, mas agora ele estava indiferente demais para se importar também. Bebia a sua cerveja sem gosto. Vivia sem tesão, pensando vez por outra na morte, mas desistindo também por pura falta de vontade de morrer. Havia chamado alguém para lhe fazer companhia, mas provavelmente ninguém viria. Era noite de quarta feira. Só pessoas como Rodrigo saem para beber em quartas feiras, por pura falta do que fazer. Mesmo assim, havia lá no fundo da garganta dele uma fome profunda por algo que ele não sabia o que era. Talvez fosse alguma coisa. Alguma coisa que o levasse além do nada que o cercava. Alguma coisa alada que queria voar acima do tédio das asas cubistas da cidade. Indiferente a tudo isso, chovia.

Quando a chuva engrossou e todos começaram a escapar, resmungões, das mesas que se molhavam, Rodrigo também se levantou. Não sabia se pagava a conta e ia embora, ou se ficava por ali olhando a chuva. Tanto fazia. Nada fazia diferença na noite vazia que antecedia mais um dia de trabalho vazio no amanhã. Então, Rodrigo ficou. Sentou-se em outra mesa, esta protegida do aguaceiro, pediu outra cerveja e se deixou olhando a chuva. Os respingos que o alcançavam e o molhavam aos poucos eram tudo que o separava da completa banalidade de beber silenciosamente sozinho em um bar onde nada nem ninguém o interessava. Gostava da chuva, mas não o bastante para se animar com ela. Contudo, ficou ali, por hora.(…)”

Não há garantia de que este fragmento vá permanecer inalterado ao longo da escrita do conto, nem sequer há garantia de que ele vá figurar na versão final de Samhain, mas resolvi publicá-lo para dar um gostinho do que ando escrevendo (embora, confesso, este seja um fragmento um tanto antigo, pois não tenho trabalhado em Samhain nos últimos dias).

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Recebi hoje um gracioso comentário/email de Dora Nascimento, colega overmundana e atenciosa leitora, a respeito do fragmento do conto Samhain, publicado aqui no Caderno do Cluracão há uns tempos atrás.

Reproduzo abaixo, na íntegra, a encantada e encantadora missiva:

Samhain (fragmento) – quase uma fábula de sutil erotismo, que começa com um segredo em suspense e termina com um suspense segregado.

Foi assim:

O abri numa tarde quente de maio, num ciber-café lotado de adolescentes que jogavam aqueles games, todos infernalmente barulhentos.

“(…) Alma respirou fundo, parada frente à porta, mordendo os lábios.”.

Eu fechei os olhos e disse:

“Não dá pra ser agora”.

No final do expediente o escritório ainda era todo movimento, e no computador onde trabalho, voltei a abri-lo novamente.

Vozes, risadas, telefones tocando em alucinados e irritantes estilos…

Alma com a sua respiração em suspenso, uma história por acontecer…

Voltei a fechar, telefone para mim.

Pela terceira vez naquele dia eu o abri e imprimi.

Com ele impresso nas minhas mãos, estava segurando os papéis nas mãos, quando alguém me pediu para ir até a videoteca.

Dobrei-o adiando Alma mais uma vez, fiz o que me pediram, e fui embora dali o mais rápido possível.

E Alma lá, estática, respirando fundo, parada frente à porta, mordendo os lábios.

Peguei-o e guardei dobrado o suficiente para caber dentro da minha bolsa.

Na parada do ônibus, toquei nos papéis, cinco páginas guardavam a continuação de Alma. Fui para debaixo de um poste e retirei-o da bolsa, desdobrei os papéis, e lá estava Alma, à espera de que eu a deixasse soltar a funda respiração. Não, a luz de mercúrio do poste me ofuscava. Dobrei os papéis adiando tudo mais uma vez.

Dentro do ônibus, retirei novamente os papéis, e Alma já havia, em uma frase, passado toda aquela tensão dela para mim.

Desisti dali também.

Peguei o livro das “Fadas no Divã” – psicanálise boa e pura – e corri os olhos nele, mas só pensava em Alma e sua respiração suspensa e presa nos papéis e na minha demora em retornar à sua história que estava preste a acontecer.

A ansiedade faz tudo parecer uma eternidade, mas eu enfim cheguei em casa.

Aí fiz assim:

Larguei a ansiedade descuidadamente sobre o pufe gigante.

Tomei um banho, e me alimentei.

Ascendi um digestivo, um incenso e a luminária.

Retirei aqueles papéis da bolsa pela terceira e última vez naquela noite. Apaguei todas as luzes da casa.

Deitei no sofá-cama e finalmente o li, voltando a dar vida a Alma, que ainda continuava a morder os lábios numa suspensa e funda respiração.

Tenho agora duas impressões e uma constatação pretensiosamente minha.

1 – Alma, apesar do temor, entregou-se à excitação no instante em que “aproximou a mão muito levemente, incerta, da maçaneta…” e se assustou,

com a facilidade com que a porta se abriu ao seu desejo mesclado de temor, materializando aquela excitação dentro daquele quarto escuro.

Ela estava lá!

A incerteza dera abertura a uma frágil, mas firme convicção.

2 – Sméagan é um não humano – apesar de só descobrir isso na última frase – ainda assim, não havia descrição alguma de que fosse um humano normal. O tom tenso com que a história tem desde o início, é que deixa um sutil eco de anormalidade naquele encontro.

Depois quando o segredo é parcialmente revelado na última frase, ficou no ar do meu imaginário o que poderá vir a ser um não-humano.

Na minha cabecinha fabulosa pairaram elfos, faunos, gnomos, duendes…

O vi como um elfo.

E Alma – que agora eu via com mais nitidez dentro de formas imberbes de mulher que trás ainda latente sua sensualidade – firme na sua frágil certeza de querer se entregar a Sméagan, me diz:

“Ele nem sequer era humano (…)”.

Mas depois, Alma ficou me acalentando:

“Ao menos ele não é humano (…)”.

3 – Para mim – muito pretensiosamente individual essa minha opinião pode parecer, e é – o conto está findo.

Quando tu iniciaste a primeira frase com “(…) e fechou a última frase com (…)”, deixaste – ao menos para mim – todo um mistério a ser desvendado pelo imaginário do leitor.

Porque é um conto que tem um quê de fábula de sutil erotismo, e que começa com um segredo em suspense e termina com um suspense segregado.

L-I-N-D-O!

Um cheiro de manjericão adentrou por toda a casa, como uma confirmação.

P.S.:

1- Acho que se o conto for continuado, eu ainda não sei se vou querer ler.

Os personagens, às vezes, simplesmente se calam, se encerram, e se não os deixamos em paz, eles talvez voltem distorcidos. Salvo quando querem voltar à tona do imaginário do seu criador. Ai não tem jeito, tem que continuar.

Desculpe-me, mas eu jamais vou deixar de te dizer o que sinto e o que vem do meu agitado coração, mesmo que eu me arrependa no instante seguinte – e já tarde demais – após clicar em “enviar”.

A propósito, Sméagan me apareceu como um elfo desejável e amedrontador, e talvez por isso mesmo, ao menos sua alma, é humana.

2– Se puderes desculpar essas minhas levianas interpretações, basta me responder dizendo que sorriu.

3- Quando virei uma das páginas do caderno em que escrevia essa carta-comentário, subitamente me apareceu essa receita de “Pão Rápido”, que gosto de fazer para servir aos amigos:

“Receita de Pão Rápido”.

Ingredientes:

2/1/2 xícaras (chá) de farinha de trigo especial (aquela sem fermento)

1 xícara (chá) de açúcar (da sua preferência, mascavo… etc)

1 colher (sopa) rasa de fermento comum (aqueles de bolo mesmo).

1 pitada de sal

1 xícara de castanha ralada (ou qualquer outro recheio que der na telha, uvas passas…)

1 copo (250ml) de leite (temperatura ambiente)

1 copo (250ml) de óleo (também da sua preferência, girassol…)

3 ovos inteiros ligeiramente mexidos (também em temperatura ambiente)

Modo de preparar:

Bom para fazer nas horas do dia em que o sol ainda está frio.

Se não tiver sol, antes do meio-dia.

Bater todos os ingredientes líquidos no liquidificador.

Numa tigela, adicionar todos os ingredientes secos.

Despejar o conteúdo liquido sobre o seco, pegar dois garfos e mexer delicadamente, até que tudo se torne homogêneo, enquanto isso, vá adicionando a energia boa de estar produzindo um alimento, mesmo que seja só para você.

Levar ao forno pré-aquecido em forma (que pode ser refratária) untada, uma temperatura de 180° por + ou – 45minutos, ou até dourar.

Pode espetar com um palito, como se faz com os bolos.

Pode comer na hora que sair do forno, mas ele estará com a consistência de um bolo. Mas se der para esperar até o fim do dia, já estará com a consistência de pão.

O nome é Pão Rápido porque não precisa esperar a massa crescer.

Bom apetite!


Esta carinhosa e apaixonada mensagem da leitora Dora me fez pensar um bocado e lembrar de algumas discussões e idéias sobre contos e fragmentos que venho tendo aqui, alí e acolá. Penso que o fragmento é quase um estilo literário em sí — tendo sido influenciado por uns “fragmentistas” por aí — e como tal, merece o reconhecimento como obra acabada, mesmo que carregue o nome de algo que parece incompleto. O fragmento pode levar no seio uma incompletitude, mas se o faz, é porquê nisso também imita a vida que por vezes retrata.

Posto isso, fiquei a pensar com meus botões o que fazia com este fragmento benquisto. Assumí-lo como um fragmento por si só e arrancá-lo do conto Samhain, no qual ainda estou trabalhando? Não. Isso não. Abandonar o conto e reconhecê-lo encerrado neste fragmento? Nem pensar! Samhain é muito mais do que isso! Deixar, então, a coisa como está? Talvez não…

Por fim, decidi tomar o caminho do meio, que contempla os amantes do fragmento e do conto. Continuo a trabalhar no conto Samhain (embora a correria dos últimos dias tenha me afastado dele), e batizo este fragmento, que agora tem sua vida própria reconhecida, como “Alma e o quarto escuro“. Continuará fazendo parte do conto, mas também tem existência própria, e cada um o lerá como preferir.

E assim é, e assim será. Para os que ainda não leram, aqui está “Alma e o quarto escuro“. Quanto ao conto Sahmain, continuo trabalhando nele.

Em tempo,
vou experimentar a receita assim que puder, Dora. :D

p.s. Para fazer justiça à minha persistência em manter o trabalho no conto Samhain, publicarei em breve mais um fragmento dele — sua parte inicial — como uma forma de dar satisfação a respeito de algum andamento literário deste Cluracão (que até agora não publicou a quinta parte de O Cavaleiro e o Dragão para continuar a fábula em fragmentos no Overmundo).

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ou

Alma e o quarto escuro

“(…)Alma respirou fundo, parada frente à porta, mordendo os lábios. Aproximou a mão muito lentamente, incerta, da maçaneta. Assustou-se quando a porta se abriu tão facilmente e tão repentina sob o toque de sua mão, movendo-se com um rangido baixo que parecia gigantesco naquele silêncio onde só se ouvia seu coração. A luz da cozinha invadiu o quarto, projetando a sua sombra encolhida sobre corpo imóvel de Sméagan, refestelado sobre a cama. Não sabia se ele dormia. Esperava que acordasse e ao mesmo tempo não queria que acontecesse. Sua resolução, que começava a falhar, a empurrou em passos curtos e incertos para dentro do quarto. Fechou a porta com um gesto vago, e a última luz sufocada pela porta que se fechava iluminou os olhos de Sméagan, que acabavam de se abrir. Ela imaginava ter visto também um sorriso. Exasperou-se, perdida na estrada entre o temor e a excitação.

‘Estou aqui’, ela disse. Sua voz falhou, e então ela preferiu repetir — ‘estou aqui. eu vim…’. Ele nada disse, mas ela podia ouvir sua respiração. Podia ver, com os olhos que se acostumavam muito devagar com a luz fraca filtrada através da cortina, que ele sentava-se lentamente na cama. Alma permaneceu imóvel, abraçada pela escuridão e pelo silêncio rompido apenas pela respiração dos dois. Não sabia dizer se ele estava nu em meio às tantas cobertas amarfanhadas sobre a cama. Parecia um espectro em sua brancura quase invisível na luz tênue demais. Ele também olhava para ela, mas sua expressão era indecifrável, emoldurando seus olhos rasgados e escuros… tão escuros quanto aquela noite e quanto aquele quarto. Tão escuros quanto as coisas que a escuridão esconde.

Alma deu um passo em direção à cama, mas foi detida pelo gesto quase brusco de Smeagan, que sinalizava para que ela não se aproximasse. Olhou para ele, sem entender o porquê daquilo. Ele sorveu a perplexidade dela por um alongado segundo antes de falar — “Tire as suas roupas antes de vir para a cama, moça. Elas estão sujas com as coisas da rua.”. Alma enrubesceu no escuro. Pensou em ir embora. Virou-se de costas, mas não deu nenhum passo. Isso não fazia sentido. Era para isso que ela tinha vindo. Não havia mais ninguem e nenhum lugar lá fora, naquela noite escura, para onde ela pudesse, ou quisesse, ir. Sentiu uma lágrima se formando em seu olho esquerdo. Sentia-se como uma menina de novo, e isso a assustava. Estendeu a mão pelas costas para alcançar o zipper do vestido curto, e o abriu, puxando-o para baixo. O ar frio tocou suas costas agora nuas e fez com que sentisse um calafrio, mas isso não foi de todo ruim. Abaixou-se para começar a desamarrar as botas, e por alguns segundos viu-se distraída com os cadarços. Smeagan, que parecia ter se levantado da cama enquanto ela se livrava de suas botas altas, falou por detrás dela — “gosto da sua tatuagem, sabia?”. Alma sentiu outro calafrio.

Levantou-se depressa, girando sobre os calcanhares ainda recobertos pelas meias listradas. Esperava encontrá-lo mais perto, mas seu movimento brusco parece tê-lo assustado. Reequilibrava-se de um passo largo dado para trás, que o fez encostar novamente com as pernas na cama. Alma não sabia explicar o motivo de seu pudor, mas não olhou para a nudez dele. Não ainda. Olharam-se por um segundo, olhos escuros em olhos escuros no quarto escuro, e se reconheceram um no outro. Alma levou as mãos aos ombros e puxou seu vestido como quem arranca uma pele morta, inadequada, inútil. Sorriu com apenas um canto da boca ao ver o sorriso de Smeogan, que observava seu corpo de cima a baixo. ‘Satisfeito com o que está vendo?’, disse ela, retomando a coragem frente à inesperada timidez daquele homem. “Ainda não”, disse ele enquanto sentava-se na cama, empurrando-se lentamente com as mãos para apoiar-se com as costas na parede — “agora venha cá.”, completou. Alma caminhou até a cama e colocou-se ajoelhada, com as pernas afastadas, sobre as pernas estendidas dele. Inclinou-se para beijá-lo, mas estacou quando seus olhos voltaram a se encontrar com os dele, agora tão perto. Seus olhos eram tão negros! Sondaram-se, paralizados, olhos nos olhos, por mais um segundo, antes de aproximarem-se por fim para dar o beijo que terminaria com toda aquela angústia.

Seus lábios eram frios, muito frios, e Alma podia sentir como eram igualmente frias as mãos que percorriam suas costas e por fim encontraram seu lugar em seus seios, buscando calor e contato. Continuaram a se beijar, enquanto ela relaxava lentamente as pernas para sentar-se sobre ele, sentindo-o crescer debaixo dela. Mas, de repente, foi sacudida por um espasmo de choro que surpreendeu até mesmo a ela. Afastou seu rosto do dele e o cobriu com as mãos, soluçando baixinho. Ele a abraçou com uma doçura que para ela era também inesperada. Mal o conhecia. Tudo era um tanto inesperado nele, e era em parte por isso que chorava. Entregava-se por fim àquele estranho tão familiar, como tinha desejado silenciosamente por tantas noites, mas também estava assustada. Por quê seus olhos eram tão escuros, insondáveis e tristes? Por quê ele era tão doce? Não havia como aquele momento ser perfeito, dada a sua canhestra estranheza, mas ainda assim era bom e forte demais para que ela aguentasse seguir em frente. Sentia que seu coração podia explodir, ou que o mundo poderia se esgarçar e rasgar à volta dela. Chorou nos braços dele, sentindo raiva de si mesma por estar estragando tudo, sentindo-se importente ao mesmo tempo que se aninhava deliciada em seu abraço. “Porquê você chora, se é que posso perguntar?”, sussurrou ele por fim. Alma não respondeu. Chorava porque estava imensamente feliz e porque tinha um imenso medo, e porque sabia que agora estava totalmente perdida. Nada poderia ser tão bom quanto o que estava prestes a ser, pensava ela, mas ainda assim estava trespassada de pavor. Alma sentia-se ridícula, ridiculamente humana, chorando nos braços de Smeagan. Queria-o tanto, tanto, e tinha tanto medo disso, que sentia que não conseguiria tê-lo. Era demais para ela! Ele nem sequer era humano.(…)”
(fragmento não revisado do conto ‘Samhain’)

Rompi o bloqueio de escritor dolorosamente, como um rio que rompe uma represa e se escalavra nas pedras que carrega no seio de seu jorro.

Ao menos escritor está vivo, enquanto todo o resto se mortifica a espera de renascer…

p.s. as fotos que ilustram este fragmento ainda não existem. existirão, quiçá, um dia, se ele for levado em frente.

UPDATE:
Embora tenha trabalhado em algumas anotações mais neste conto, revisado algumas partes (não publicadas) e refinado algumas idéias, ainda não tenho nada novo para publicar. De qualquer forma, o trabalho não está abandonado. A seu tempo Samhain verá a luz, quando for o seu momento.

UPDATE2:
Resolvi batizar este fragmento como “Alma e o quarto escuro“, a partir das observações carinhosas e encantadoras da leitora Dora Nascimento. Agora ele tem vida própria, é uma obra em si, embora faça parte também do conto Samhain (do mesmo modo que vários contos reunidos podem transformar-se em um romance).

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