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Posts Tagged ‘Céu em Chamas’

O pequeno redcap Daniel escreve em seu diário:

“Nos últimos 2 dias ele passou por um processo que não sabe descrever bem, mas aceitou com relativa facilidade. O mundo se expandiu a partir da mescla com outro, de sonhos. Depois de ser perseguido por um cachorro sem rosto, começar a ver mais do que o simples “real”, ser salvo por outro cachorro e desmaiar, ele acordou no quarto de Áureo um saxofonista que mora em uma kitnet na 709N, interpretado pelo Pádua. Conheceu também Helena, uma garota de uns 15 anos que gosta tanto de Lain que se veste como ela.

Mais entre as pessoas que conheceu a que mais ajudou a entender o processo pelo qual ele estava passando foi Boa, um homem vindo da África que anda com um belo cajado. Daniel, talvez pela pouca idade, talvez pelo mundo de fantasias que criou e em que vivia para fugir da solidão, aceitou com alguma facilidade a mudança. Talvez porque sempre soubesse que aquele mundo existiu.”

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O pequeno redcap Daniel escreve em seu diário:

“Nos últimos 2 dias ele passou por um processo que não sabe descrever bem, mas aceitou com relativa facilidade. O mundo se expandiu a partir da mescla com outro, de sonhos. Depois de ser perseguido por um cachorro sem rosto, começar a ver mais do que o simples “real”, ser salvo por outro cachorro e desmaiar, ele acordou no quarto de Áureo um saxofonista que mora em uma kitnet na 709N, interpretado pelo Pádua. Conheceu também Helena, uma garota de uns 15 anos que gosta tanto de Lain que se veste como ela.

Mais entre as pessoas que conheceu a que mais ajudou a entender o processo pelo qual ele estava passando foi Boa, um homem vindo da África que anda com um belo cajado. Daniel, talvez pela pouca idade, talvez pelo mundo de fantasias que criou e em que vivia para fugir da solidão, aceitou com alguma facilidade a mudança. Talvez porque sempre soubesse que aquele mundo existiu.”

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“- Algumas pessoas se preocupam demais com os astros. Outras, não sabem sequer quando nasceram…
– Algumas não tem como saber…
– Como assim, Clurichaun?
– Algumas simplesmente não tem como saber.
– Está se referindo a alguém em específico? Tenho a impressão de conhecer este sorriso.
– Sim.
– …
– Alguém bastante especial. Ela é…
– … [risos]
– O que foi?
– Estava tentando ler a sua mente…
– Seu ‘fidaputadesgraçado’…!
– Acalme-se. Eu desistí. Sua cabeça é uma bagunça. [risos]
– Então me devolve a garrafa, seu ‘semideuzinho’ de merda, porque seu silêncio me deixa de boca seca.
– É você que fala demais, Clurichaun. Tome seu whiskey.”

L’th e O’Duireagh fazem uma amizade farpada que pode vir a salvar alguns mundos… Ou talvez não.

Enquanto isso, em algum outro lugar, alguém começa a tomar consciência de quem é e coloca em movimento uma reação em cadeia que surprenderá muito a ambos.

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“- …Vocês não apenas perderam os caminhos, queimaram os mapas e viraram as costas para as terras do Sonho. Vocês também construíram cidades a toda a sua volta, com tantas luzes e cores que te fazem esquecer de que sequer existia algum lugar além delas! São suas fortalezas, suas muralhas, o artifício da inconsciência consensual que se tornou tão bem vinda. O que aconteceu com vocês? E, mais do que isso, por que é que você ainda me pede ajuda depois de tudo?
– Somos humanos. Quer dizer, a maioria de nós o é ao menos em parte, e todos o são ao menos um pouco. Você sabe como é isso, né?
– …
– Temos um dom para descobrir e esquecer coisas.
– …
– Trouxe um pouco de whiskey.
– …!
– Que tal um copo de whiskey, uma boa conversa, quem sabe até contar algumas velhas histórias…
– Filho de uma puta! Me dá um gole, então.
– Certo. Agora vamos conversar sobre aquele caminho…”

O’Duiréagh conversa com L’Th em algum lugar à vista de todos, ainda assim invisível à maioria.

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eu detesto quando chega a noite.
fica silencioso demais e as pessoas tem que dormir.
eu detesto, detesto, detesto ter que dormir.

quando eu vou dormir, eu penso.
e quando eu penso, eu lembro,
e eles vem até mim…

minha barriga ronca.
não tem nada para comer aqui.
tento dormir.
mas eles vem até mim…

alguém escuta música
no andar de cima.
eu não queria estar sozinha aqui.
porque aí eles vem até mim…

alguém grita lá fora.
eu grito em silêncio aqui dentro.
meu pulso dói.
eles estão chegando…

vou chorar. não. não quero chorar.
estou com fome mas não vou comer.
quero ir embora
e eles vem até mim….

ele me bateu. ele me bateu muito.
e doeu mais dentro do que fora,
porque ele bateu tanto que parou de doer no corpo.
e ele matou meu filho.

mas a culpa foi minha. a culpa é minha.
sempre. sempre sou a culpada
todos colocam a culpa em mim.
então fui eu que matei meu filho.

mas eu não tinha escolha.
estava muito difícil. eu não aguentava mais
e não havia ninguém mais lá. só ele.
então foi ele que matou meu filho.

mas então ele descobriu
que eu estava vendo ele,
outro ele, todos eles…
eles mataram meu filho.

mas isso não importa mais.
eu matei, eles mataram,
ele está morto,
meu filho.

ele está vindo para me buscar.
todos eles estão.
querem me buscar pra me trancar de novo
querem me buscar pra me bater de novo
querem me buscar para morrer de novo
querem me buscar para me xingar de novo
querem me buscar para me matar…
não…
fui eu…
ele…
eles…
que
mataram.
eu
não
eu
matei
eu
não
sei…

vão embora!

vocês não mataram meu filho
vocês mataram a mim
e agora meu filho morto
vive minha vida
para vir aqui me buscar
e me levar embora
em seu lugar…

ele vai me matar.
mas eu já estou morta.
quero ir embora
e eles estão chegando…

estamos todos mortos.
mas eu queria tanto tanto tanto
poder
viver.

(imagem por Nessie1001 no dA)

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a menina bonita se sentou no banco.
ela tinha um papel na mão e olhava para o nada.
vários passarinhos passam por mim. querem comida.
também tenho fome, mas esqueço.
está escurecendo, e a moça está sentada no banco.
dois meninos passam correndo e gritando. me assusto.
vou até debaixo daquela árvore. a grama está seca
e a moça continua sentada no banco.
seus pés se retorcem. o vento levas algumas folhas.
ela olha para o papel, e depois olha para os blocos.
não parece estar vendo nada. parece estar chorando
está escurecendo. está esfriando. cadê os pássaros?
a menina está chorando. ela é tão linda e tão triste.
sua pele é tão branca… e ela é tão magrinha,
que parece doente.
será que ela está doente?
droga! lá vem um cachorro! odeio cachorros!!
é melhor sair daqui…

lá está a menina. está andando.
tem um menino indo atrás dela.
não. não parece ser só um menino.
ele tem alguma coisa estranha nele.
ele não é como eles, mas não é como eu.
está ventando. e este vento é diferente.
tem borboletas no anoitecer muitas.
e o menino continua andando atrás dela.
vou chegar mais perto.

a menina está chorando, sentada debaixo do bloco.
o menino fala com ela. entendo, mas ignoro.
não é o que ele está falando que importa.
ele tem um cachorro enorme atrás dele,
mas eles não podem ver o cachorro.
eu posso. ele ainda não é real, mas eu posso.
e olhando de perto posso ver a coisa fria dentro da menina.
o que será aquilo? ela está doente mesmo?
a menina segura o papel, tentando escondê-lo do menino.
então o menino começa a desenhar.
será que ele não vê o cachorro?
será que ela não vê a coisa em sua barriga?
acho que vai chover. é uma chuva estranha.
o menino desenha árvores, e um cachorro.
ele desenha outro cachorro, então.
ele está desenhando o cachorro que está atrás dele.
e então eles olham para mim, mas não me vêem como sou.
e a menina não chora mais,
mas a coisa fria ainda se retorce dentro dela.

acho ela está morrendo. não sei porquê.

vai chover.
é melhor sair daqui antes que minhas penas fiquem molhadas.
estou com medo dessa chuva

vou embora com a menina e sua morte na cabeça.
mas sinto que também vou encontrar o menino
e o cachorro
por aí…

este é
um anoitecer
estranho.

tenho fome.

vôo para casa.

(imagem por VikaLC, no dA)

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Lúti observava a chuva através da janela. Adorava tudo a respeito da chuva. O cheiro, as gotas na janela (ou no rosto), o vento refrescado depois da seca. Era a primeira vez que via a estação das chuvas em Brasília, e tinha a sensação de que havia algo de realmente especial naquela chuva.

Encostou o focinho na janela. Desde a noite que descobriu que era gente e gato, sonhadora e sonho, gostava de chamar seu nariz de focinho. A janela estava fria, mas o frio era gostoso. Através da janela borrada pela chuva só distinguia o mato escuro, as luzes da cidade à distância — um brilho esmaecido e indistinto — e o céu que tomara agora uma luminosidade entre o laranja e o vermelho. A noite parecia iluminada pela chuva, ou para a chuva, ou coisa assim. Tinha a sensação de que era algo realmente especial.

Ficou pensando nas coisas que havia escutado por trás das portas nas últimas semanas. Lúti gostava muito de escutar por trás das portas — desde criança, não era coisa nova, ou coisa que ela começara a fazer depois que descobriu que podia virar gato. Escutara Sinasecht falando para a Baronesa sobre a chuva que viria, e coma chuva iria despertar um dragão e também romper as crisálidas de algumas pessoas…

Era tudo muito novo pra ela. Estar em Brasília, então ver seus velhos sonhos destroçados, o desespero de se ver sozinha em uma cidade estranha, e então todas as coisas que aconteceram depois. A descoberta do outro mundo, e de sua verdadeira natureza. E então a casa da colina, Erick, Dairean, Sinasecht e seus sussurros e suas mãos que ela sabia que eram frias sem mesmo ter que encostar nelas, Otto e todas as outras fadas que ela sabia que existiam por ter ouvido falar, ou mesmo sem ter ouvido falar. O mundo, que pareceu tão maior quando ela entrou naquele ônibus para Brasília crescera em grandes e assustadoras ondas desde então, e não parava de crescer. E lá longe, em algum lugar, ela sentia que esta chuva estava novamente alargando suas fronteiras. E ela se sentia excitada e ao mesmo tempo assustada, porque essas coisas são sempre um pouco assustadoras. De repente sentiu-se muito pequena frente a tudo aquilo, e a chuva fina lá fora parecia rugir como uma tempestade, embora continuasse fina. Soube então, sem saber como sabia, que no Sonhar aquela chuva era uma tempestade.

E o Sonhar era a suprema vastidão que a chamava e a assustava ao mesmo tempo. E ela gostava disso. Sem vacilar, tomou a forma de gato e correu pelo quarto, pelo corredor, até a grande sala cheia de móveis que pareciam tão enormes agora, e ganhou o jardim depois de pular pelo janelão da sala que Seu Alcélio não havia fechado por algum motivo. Correu pela chuva, ouvindo ao mesmo tempo as gotas finas trazendo vida de volta pra este mundo e o rugido da tempestade que caía sobre o outro, e que parecia dizer alguma coisa que ela ainda não conseguia entender bem o que era. A curiosidade dos gatos a movia, e ela continou correndo na chuva, sem sequer saber para onde ia.

(imagem por yumedust no dA)

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