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Posts Tagged ‘chuva’

e.e.cummings

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me,i and
my life will shut very beautifully,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

– e.e. cummings

(há anos eu procurava a poesia original)

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É incrível e maravilhoso como pequenas coisas podem nos arrancar do transe triste da depressão. As nuvens avançando no céu, rodeando o sol que dança entre as árvores ao som de tambor das trovoadas que rolam sobre as colinas… só isso, tudo isso… me fez me sentir vivo de novo!

Talvez hoje seja dia de dedicar algum tempo à minha escrita.

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Um trovão distante chega;
é aviso da chuva que vem

é uma boa hora.
o calor vai embora,
e o peso dos dias também.

chuva com vento,
tempestade,
com cheiro de renascimento.

eu e as plantas,
cabelos do mundo que balançam,
agradecemos a nosso modo.

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Lúti observava a chuva através da janela. Adorava tudo a respeito da chuva. O cheiro, as gotas na janela (ou no rosto), o vento refrescado depois da seca. Era a primeira vez que via a estação das chuvas em Brasília, e tinha a sensação de que havia algo de realmente especial naquela chuva.

Encostou o focinho na janela. Desde a noite que descobriu que era gente e gato, sonhadora e sonho, gostava de chamar seu nariz de focinho. A janela estava fria, mas o frio era gostoso. Através da janela borrada pela chuva só distinguia o mato escuro, as luzes da cidade à distância — um brilho esmaecido e indistinto — e o céu que tomara agora uma luminosidade entre o laranja e o vermelho. A noite parecia iluminada pela chuva, ou para a chuva, ou coisa assim. Tinha a sensação de que era algo realmente especial.

Ficou pensando nas coisas que havia escutado por trás das portas nas últimas semanas. Lúti gostava muito de escutar por trás das portas — desde criança, não era coisa nova, ou coisa que ela começara a fazer depois que descobriu que podia virar gato. Escutara Sinasecht falando para a Baronesa sobre a chuva que viria, e coma chuva iria despertar um dragão e também romper as crisálidas de algumas pessoas…

Era tudo muito novo pra ela. Estar em Brasília, então ver seus velhos sonhos destroçados, o desespero de se ver sozinha em uma cidade estranha, e então todas as coisas que aconteceram depois. A descoberta do outro mundo, e de sua verdadeira natureza. E então a casa da colina, Erick, Dairean, Sinasecht e seus sussurros e suas mãos que ela sabia que eram frias sem mesmo ter que encostar nelas, Otto e todas as outras fadas que ela sabia que existiam por ter ouvido falar, ou mesmo sem ter ouvido falar. O mundo, que pareceu tão maior quando ela entrou naquele ônibus para Brasília crescera em grandes e assustadoras ondas desde então, e não parava de crescer. E lá longe, em algum lugar, ela sentia que esta chuva estava novamente alargando suas fronteiras. E ela se sentia excitada e ao mesmo tempo assustada, porque essas coisas são sempre um pouco assustadoras. De repente sentiu-se muito pequena frente a tudo aquilo, e a chuva fina lá fora parecia rugir como uma tempestade, embora continuasse fina. Soube então, sem saber como sabia, que no Sonhar aquela chuva era uma tempestade.

E o Sonhar era a suprema vastidão que a chamava e a assustava ao mesmo tempo. E ela gostava disso. Sem vacilar, tomou a forma de gato e correu pelo quarto, pelo corredor, até a grande sala cheia de móveis que pareciam tão enormes agora, e ganhou o jardim depois de pular pelo janelão da sala que Seu Alcélio não havia fechado por algum motivo. Correu pela chuva, ouvindo ao mesmo tempo as gotas finas trazendo vida de volta pra este mundo e o rugido da tempestade que caía sobre o outro, e que parecia dizer alguma coisa que ela ainda não conseguia entender bem o que era. A curiosidade dos gatos a movia, e ela continou correndo na chuva, sem sequer saber para onde ia.

(imagem por yumedust no dA)

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Lúti observava a chuva através da janela. Adorava tudo a respeito da chuva. O cheiro, as gotas na janela (ou no rosto), o vento refrescado depois da seca. Era a primeira vez que via a estação das chuvas em Brasília, e tinha a sensação de que havia algo de realmente especial naquela chuva.

Encostou o focinho na janela. Desde a noite que descobriu que era gente e gato, sonhadora e sonho, gostava de chamar seu nariz de focinho. A janela estava fria, mas o frio era gostoso. Através da janela borrada pela chuva só distinguia o mato escuro, as luzes da cidade à distância — um brilho esmaecido e indistinto — e o céu que tomara agora uma luminosidade entre o laranja e o vermelho. A noite parecia iluminada pela chuva, ou para a chuva, ou coisa assim. Tinha a sensação de que era algo realmente especial.

Ficou pensando nas coisas que havia escutado por trás das portas nas últimas semanas. Lúti gostava muito de escutar por trás das portas — desde criança, não era coisa nova, ou coisa que ela começara a fazer depois que descobriu que podia virar gato. Escutara Sinasecht falando para a Baronesa sobre a chuva que viria, e coma chuva iria despertar um dragão e também romper as crisálidas de algumas pessoas…

Era tudo muito novo pra ela. Estar em Brasília, então ver seus velhos sonhos destroçados, o desespero de se ver sozinha em uma cidade estranha, e então todas as coisas que aconteceram depois. A descoberta do outro mundo, e de sua verdadeira natureza. E então a casa da colina, Erick, Dairean, Sinasecht e seus sussurros e suas mãos que ela sabia que eram frias sem mesmo ter que encostar nelas, Otto e todas as outras fadas que ela sabia que existiam por ter ouvido falar, ou mesmo sem ter ouvido falar. O mundo, que pareceu tão maior quando ela entrou naquele ônibus para Brasília crescera em grandes e assustadoras ondas desde então, e não parava de crescer. E lá longe, em algum lugar, ela sentia que esta chuva estava novamente alargando suas fronteiras. E ela se sentia excitada e ao mesmo tempo assustada, porque essas coisas são sempre um pouco assustadoras. De repente sentiu-se muito pequena frente a tudo aquilo, e a chuva fina lá fora parecia rugir como uma tempestade, embora continuasse fina. Soube então, sem saber como sabia, que no Sonhar aquela chuva era uma tempestade.

E o Sonhar era a suprema vastidão que a chamava e a assustava ao mesmo tempo. E ela gostava disso. Sem vacilar, tomou a forma de gato e correu pelo quarto, pelo corredor, até a grande sala cheia de móveis que pareciam tão enormes agora, e ganhou o jardim depois de pular pelo janelão da sala que Seu Alcélio não havia fechado por algum motivo. Correu pela chuva, ouvindo ao mesmo tempo as gotas finas trazendo vida de volta pra este mundo e o rugido da tempestade que caía sobre o outro, e que parecia dizer alguma coisa que ela ainda não conseguia entender bem o que era. A curiosidade dos gatos a movia, e ela continou correndo na chuva, sem sequer saber para onde ia.

(imagem por yumedust no dA)

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Voltou a chover lá fora. A chuva que é a linha condutora entre eu e a história, e que descortina a própria história. Isso é um ótimo sinal…

Em algum lugar, Lúti está vendo a chuva.
Lá vamos nós….

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Hoje acordei com uma disposição diferente. Não era preguiça, nem falta de vontade de trabalhar. Lavei meu carro, ajeitei as coisas que precisava ajeitar em casa, até tentei trabalhar — mas algo me dizia que não havia trabalho a fazer, e que outra coisa me chamava. Lembrei que havia marcado, de meio coração, o primeiro encontro de imaginários para amanhã. Não havia ainda sentado para juntar as centenas de anotações que havia feito para a Crônica de Changeling que pretendo re-iniciar no encontro, e decidí então quer seria isso que deveria fazer.

Depois de fazer as compras que a casa demandava (e esquecer de comprar comida para minha pobre companheira felina, que agora no início da noite desistiu de miar para ir caçar camundongos), me sentei na frente do computador e comecei a baixar os livros de que precisava, reler velhas anotações, fazer algumas muito poucas novas anotações, ler livros de regras, estudar sobre o que precisava estudar… enfim, assumir novamente o velho manto de contador de histórias.

E tudo fluiu naturalmente, como nos velhos tempos. Sem grandes arroubos, sem grandes bolas de fogo ou outros ocidentalismos associados à magia. Simplesmente, aconteceu. Redescobrí minha senda de contador de histórias, e o manto e o cajado de griô moderno novamente me recaíram leves e naturais nos ombros. Os personagens que antes me sussuravam no ouvido, há várias semanas, fizeram silêncio. Eles sabem que agora vou cuidar deles, e que não é mais necessário seu chamado constante. E é isso que vou fazer. Estou novamente contador de histórias, pois isso é o que eu sou.

E então descobrí que em algum lugar nas redondezas, começou a chover em meio à seca brasiliense. Quem disse que a mágica não está em todo lugar?

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