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Posts Tagged ‘clarice lispector’

Levando alguns passos em frente (por um caminho mais produtivo) o post anterior, estava pensando sobre a importância da existência de literatura ambientada em uma cidade para a construção do imaginário de (e sobre) aquela cidade. No caldeirão desta reflexão, junto 3 sentimentos semelhantes em natureza e distintos no tempo e no espaço.

O primeiro é o sentimento de isolamento e “saudade do desconhecido” que experimentava nos tempos em que só lia literatura estrangeira. Sentia falta de encontrar a minha cultura, a minha nacionalidade, nas histórias que me moviam.

O segundo sentimento era um sentimento de falta. A falta de literatura sobre Brasília, que narrasse histórias brasilienses, sob os céus da Cidade Seca, falando das coisas daquele lugar — capturando seu espírito, evidenciando-o. A este sentimento respondi me propondo quase naturalmente a só escrever a respeito daquela cidade, no meu período de contista que foi de 2003 a 2006.

O terceiro sentimento é o encanto cantado no post anterior, de andar por uma cidade que é pano de fundo e personagem de uma boa parte daquilo que ando lendo hoje em dia. Isso não é sem propósito; desde que me mudei para o Rio me propus a mergulhar e conhecer a literatura carioca que fale sobre a cidade. A sensação de ler sobre Copacabana, sobre o Jardim Botânico, sobre a rua Voluntários da Pátria em Botafogo (onde trabalha o médico da morta de Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca), sobre a Urca onde um homem morre afogado enquanto Clarice Lispector experimenta seu vestido… sobre tantos lugares e histórias cariocas… é simplesmente fantástica. É como estar finalmente inserido e contemplado integralmente em um universo ao mesmo tempo real e secundário, imaginário e sólido. É a magia penetrando o dia a dia.

Isso me leva de volta ao questionamento do segundo sentimento: É necessário que as pessoas escrevam sobre suas cidades, sobre suas realidades, sobre suas vidas e as vidas das quais são testemunhas. Há de se falar de jeitos, trejeitos, ruas, espaços, apertos, histórias e ilusões de cada cidade — e de sua gente. Uma cidade sobre a qual há rica literatura é mais real do que a sua realidade física, é super-real, é mais forte e se entranha na carne do leitor-morador.

É por estas e por outras que me sinto em dívida com minha cidade natal quadradinha. Eu tenho que escrever sobre aquela cidade! Tenho que viver mais dela, e escrever mais, muito mais, sobre ela! O Rio já está em boas mãos. É bom de morar, é bom de ler. Mas quando não estiver escrevendo sobre a Terra Encantada, quero escrever sobre a minha terra.

Brasília ainda carece de quem conte suas histórias. Eu ainda careço de contar as histórias da minha Brasília. Ouço o chamado. Um dia eu chego lá…

Já que declarei em meu post anterior meu amor pelo Rio, agora é hora de declarar também o meu amor por Brasília, sua gente, sua terra que vira poeira no ar e seu vento seco que embaraça os cabelos e o coração. Eu também amo Brasília, e ainda vou escrever muito sobre ela. Ela merece!

(mas para quem também ficou com água na boca para ler sobre Brasília, humildemente prometo publicar mais dois de meus contos brasilienses no Overmundo logo depois que publicar a quinta parte de O Cavaleiro e o Dragão. Para quem não quer esperar, sempre há Na Saída e A Moça Acenando na Janela.)

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“Tudo o que nunca se fez, far-se-á um dia? O futuro da tecnologia ameaça destruir tudo que é humano no homem, mas a tecnologia não atinge a loucura; e nela então o humano do homem se refugia.”

(Clarice Lispector in Tempestada da Alma, 1974)

Tudo mais poderia ser feito por uma máquina, menos isto. Menos ser humano e escrever…

Este blog tem uma média de 7 visitas diárias. Espero que ao menos uma ou duas delas leiam o que escrevo. Dois leitores em um dia já seria o bastante. Mas, o bastante para quê? Para quê se escrevem blogs como este? Para quê se escreve? Para quem?

Que me leiam ou não. Que me entendam, ou não. Tudo que escrevo está escrito. Tudo que está publicado, está solto no mar da rede. Que os anos e o Google se encarreguem de trazer até aqui algum náufrago ou alguma sereia que, um dia, entenda estas palavras. De resto, nada mais me cabe fazer ou esperar — apenas escrever.

Quem espera se frustra, quem quer tem que buscar. Mas buscar o quê? Ser lido? Não. Ser lido não depende em quase nada de mim. Cabe a mim escrever, ser escrito. A mim cabe apenas viver. Que caiba aos outros também viverem suas vidas e, se os anos e o Google e a sorte e a vontade ajudarem, quem sabe, me ler e me entender.

Mas não preciso tanto assim ser entendido. Só preciso ser escrito.
Estou me escrevendo. Você me lê?

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Estou tentando cultivar o hábito de comprar ao menos um livro de um autor que eu ainda não conheça a cada vez que entro em um sebo, para assim alargar um pouco mais meus horizontes literários. Na última destas visitas, além de comprar um livro da minha querida Clarice Lispector (Onde Estivestes de Noite) e outro do mestre Rubem Fonseca (A Coleira do Cão, de 1963), comprei também “O Reino das Cebolas” de Cintia Moscovitch e “Pubis Angelical” de Manuel Puig (apesar da torcida de nariz dada pelo Cláudio do sebo Mar de Histórias ao me ver comprando estes últimos dois títulos).

Onde Estivestes de Noite dispensa (mais) comentários. A prosa de Clarice é, no mais das vezes, impressionantemente boa. O mesmo se pode dizer de Rubem Fonseca, com seu texto direto, cativante e profundamente humano e simples. Já de Cintia Moscovitch, tenho que me segurar para não falar impropérios. Enquanto isso, Manuel Puig foi apenas uma decepção (tendo em vista que uma grande amiga havia me recomendado muito bem este seu livro).

A prosa de Cintia Moscovitch é ininteligível quando tenta ser original e simplesmente ruim quando tenta ser inteligível. Seu experimentalismo não convence, e passa a impressão de que ela é apenas mais uma escritora que acha ser muito mais do que é. Talvez seu texto ainda possa melhorar com o tempo (assim como o meu ainda precisa melhorar MUITO antes que eu ache que está minimamente bom), mas o que vi em “O Reino das Cebolas” é algo que eu não classificaria nem sequer como regular. Resumindo, achei Cintia Moscovitch uma escritora sofrivelmente ruim. Não consegui sequer terminar de ler seu livro, pois lutava a cada página contra o impulso de jogá-lo pela janela. Me pergunto como diabos este livro quase ganhou o Prêmio Jabuti.

Manuel Puig, por sua vez, merece palavras bem mais brandas e doces, embora não muito condescendentes. Seu “Pubis Angelical” não chega a ser um livro ruim, pelo que percebi. Não é ruim, mas não chega também a ser bom. Existe uma aridez, um algo de profundamente desinteressante, em seus personagens. Os diálogos entre Ana e Beatriz e Ana e seu diário nos primeiros capítulos do livro são um bocado sem pé nem cabeça, e as reflexões de Ana na cama do hospital (psiquiátrico) são até convincentes, mas não me chamaram a atenção em nada. Em suma, Pubis Angelical não é um livro que eu leria até o fim, e muito menos recomendaria. Mas ainda tenho esperança de que Manuel Puig tenha escrito algo melhor, pois vejo que o cara tem qualidade e sabe escrever (na maior parte do tempo).

Agora é hora de fazer outra visita ao sebo. Espero ter mais sorte com os próximos “desconhecidos”.

Update:
Na esperança de que um livro tão bem falado por tantas pessoas possa eventualmente ser bom sem que eu tenha notado, vou tentar ler o Pubis Angelical até o fim. Manuel Puig parece ser um cara respeitado (e respeitável) o bastante para merecer uma segunda chance. De qualquer forma, até o momento, não retiro nada que eu disse (além de, talvez, que “o Pubis Angelical não seria um livro que eu leria até o fim”).

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“Para além da orelha existe o som, à extremidade do olhar um aspecto, às pontas dos dedos um objeto — é para lá que eu vou.

À ponta do lápis o traço.

Onde expira um pensamento está uma idéia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia — é para lá que eu vou.

Na ponta dos pés o salto.

Parece a história de alguém que foi e não voltou — é para lá que eu vou.”

(trecho de É para lá que eu vou, de Clarice Lispector
in
Onde Estivestes de Noite)

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