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Ooops… =)

Acabei de perceber que esqueci de revisar a publicar o velho “Vigília”, que estava em minha lista, e o fragmento que dá seguimento ao “Acorda Para Sonhar” a partir do ponto em que terminou o primeiro fragmento…

Publico logo que possível…

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Um convite para “fornecer” um conto brasiliense para servir de base para um roteiro de um curta amador me fez revirar minhas gavetas virtuais. Embora a minha interlocutora já estivesse inclinada a levar a “mercadoria fácil” do “Melhores Venenos“, ainda insistí em regatear sobre alguns velhos contos.

No meio da revirada de gavetas para buscar mais opções, encontrei meu velho, brega e meio surreal “Princesa à Janela” (que, sim, tem o nome MUITO parecido com o “A Moça Acenando na Janela“, a ponto de eu misturar os nomes por vezes, mas que pertence a outra época, sendo um dos contos mais velhos do primeiro projeto de livro).

Abaixo, um trecho da velharia doce que nem mel:

“Acompanhando com os olhos o pequeno ponto de luz do toco de cigarro que cai, Lorena tenta se abstrair do escuro de seu quarto e do vazio que sempre sentiu. A vida nunca foi difícil para ela, mas isto não a fez melhor. O pequeno vagalume laranja se choca com o asfalto lá embaixo, reproduzindo-se em muitos outros pontos de luz que morrem juntos.

Em meio às sombras da quadra parada dois olhos se voltam para cima. Lorena, perdida em um suspiro por mais uma noite perdida, encontra outros olhos perdidos na solidão da noite. Por alguns segundos não há muito mais o que se fazer senão olhar. O homem na calçada e a menina à janela, duas solidões sem par. As cinzas do cigarro na calçada soltam sua última linha de fumaça, o homem volta a olhar para frente e caminhar. Lorena fecha a janela para dormir. Os dois continuam sozinhos.”

Gosto deste trecho. Pena que nem todo o conto é bacana deste jeito. Quem sabe um dia eu o tire da gaveta — quem sabe até agora — para torná-lo algo publicável?

A vida é cheia de surpresas. Nem mesmo eu sei de tudo que vou decidir fazer…

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Juntei algumas imagens e algumas idéias, escrevi sem compromisso com nada, e saiu mais um conto. Não me importa seu sentido ou sua moral. Ele é apenas o que é. É a história de um cara que descobre algumas coisas sobre a vida e a morte. Nada demais. Apenas as verdades dele. Seja como for, é uma história.

Espero que gostem.
O conto se chama…

A imortalidade é um estado de espírito.

“Elizabeth sempre dissera que aquilo iria acabar por matá-lo. Talvez ela tivesse um prazer mórbido — daquele que se escondia bem por trás de sua doçura — se soubesse agora que tinha razão. Sentado em um banco próximo a seu carro, logo perto do hospital, Jonas segurava o papel meio amassado dos exames nas mãos descaídas sobre o colo. Elizabeth agora tinha razão. Todos que haviam dito que ele ainda iria morrer daquilo tinham razão. Como se não fosse óbvio se ter razão quando se vaticina a mortalidade de alguém, aventando a letalidade de riscos evidentes. É claro que o cigarro mata, seu bando de imbecis!

Estava mesmo morrendo, então. Os exames detectaram o que outros exames confirmaram e o médico interpretara com cara de falsa piedade: Jonas estava mesmo com câncer de pulmão. É claro que a notícia caiu sobre ele como uma pedra. Rir na cara da morte não tem muita graça. Não logo de cara. Então, ele simplesmente tentou não chorar na frente do médico. Não conseguiu se segurar depois que saiu do hospital. Tinha pena de si mesmo, achava-se muito jovem para morrer. Mas isso também era absurdo. Não havia motivo para ter pena de si mesmo. Sua vida havia sido… havia sido?… sua vida era muito boa, e ele havia feito o que bem quisera dela. Todo mundo acha-se jovem demais ou velho demais para morrer. Os poucos que se salvam não pensam na morte, ou em raros casos aprenderam a não se importar com ela. Jonas não sabia ao certo o que pensar agora. Mas ao menos havia parado de chorar.

Ficou pensando na vida enquanto a brisa balançava as árvores e o dia esquentava cada vez mais. As pessoas passavam, a maioria delas com caras tristes, para um lado e para o outro. É dificil ver rostos alegres perto de um hospital. Talvez os hospitais façam com que as pessoas sintam-se ainda piores a respeito de si mesmas, ou de estar doente. Talvez os hospitais façam com que as pessoas sintam-se ainda piores de morrer, já que tem tanta gente lá dentro tentando viver. Médicos e hospitais faziam a idéia de arriscar a própria vida, ou de morrer, soar quase obcena. Jonas resolveu ir embora dali. Já que sabia que estava morrendo, não precisava mais de nada daquilo.

Demorou um pouco para ter firmeza nos braços para dirigir — ainda estava abalado. Mas por fim conseguiu dar marcha-ré no carro e ir para um bar. Para onde mais iria? Uma boa parte da rede de sentidos e de práticas cotidianas de Jonas estava irremediavelmente avariada pela descoberta daquilo que o matava. Não conseguiria voltar para o trabalho. Não conseguiu também ligar para ninguém para dar a notícia, embora muitos de seus amigos estivessem esperando ansiosamente pelo resultado negativo dos testes. É claro que não havia pressa agora, que não havia mais boas notícias a dar. Não haveria festejo. Eram apenas as coisas como eram. Jonas sentou-se no bar e pediu uma cerveja. O olhar prestativo do garçom parecia ter um leve traço de pena, e isso o incomodou. Convenceu-se de que isso era absurdo. É claro que o garçom não sabia de nada. Quem ainda estava com pena de si mesmo era Jonas. Isso o irritou.

Tirou o maço de cigarros do bolso e levou um deles à boca. Paralizou o próprio movimento no momento de acendê-lo. Não era isso, afinal, que o estava matando? Colocou o cigarro de volta na mesa, branco e aparentemente inócuo, até mesmo frágil, e ficou paralizado olhando para ele até a chegada da cerveja. Encheu o copo e bebeu em grandes goladas. Estava gostosa, gelada e amigável naquele dia quente. Quando voltou a encher o copo e tomar mais algumas grandes goladas, já não se sentia mais tão doente. Na verdade, naquele momento não sentia nenhum sinal de doença em si mesmo. Estava sentado em um bar, tomando sua cerveja, sem nenhuma preocupação na cabeça além da idéia de que iria morrer — o que tirava dele qualquer preocupação com o futuro. Naquele momento, não ter um futuro era libertador. Deixava-o livre para beber sua cerveja e se preocupar apenas eventualmente com o fato de que estava prestes a morrer.

Mas estava mesmo prestes a morrer? Não sabia. Algumas pessoas vivem durante anos com um câncer devorando-as lentamente, por vezes imperceptivelmente. Existia a quimioterapia e os outros tratamentos. Ele não precisava estar exatamente morrendo agora. E mesmo que não fizesse nada disso, não fazia idéia de quanto tempo aquele câncer levaria para matá-lo. Sua morte iminente começava a entrar em cheque em sua cabeça. Não sabia se sentia-se mais confortável assim. Pensamentos sobre o futuro, sobre o que faria da sua vida se tivesse seis meses, um ano, três anos de vida, começaram a perpassar sua cabeça. Aquilo parecia ser pior do que morrer. Escolher o que fazer com o tempo que o restava parecia ainda mais angustiante. Quase sentia vontade de que não o restasse tempo nenhum, para que pudesse viver só um dia depois do outro esperando pelo dia em que não se deitaria para dormir, ou que não levantaria ao acordar. Estava tudo ficando muito confuso. Encheu mais um copo de cerveja e o virou. Depois encheu o copo de novo, e tornou a virá-lo garganta abaixo. A cerveja gelou sua garganta e o afastou de seus pensamentos. Pediu mais uma garrafa.

Começou a pensar em todas as pessoas que havia conhecido, aquelas que ainda estavam em sua vida e aquelas que haviam desaparecido. Pensou que nunca mais veria algumas delas. Isso o deu uma pontada de tristeza, até que percebeu que o pensamento também era absurdo. Poderia viver 60 anos mais e não voltar a encontrar muitas pessoas que haviam desaparecido de sua vida. E elas nunca fizeram tanta falta assim até hoje. Por quê fariam agora? Este parecia ser apenas mais um dos pensamentos absurdos e estúpidos que, de alguma forma, se insinuam na sua cabeça quando você descobre que está prestes a morrer. Jonas riu de si mesmo. Voltou a olhar para o cigarro. Ainda não teve coragem de acendê-lo, mas ao menos parecia mais amistoso ali onde estava. Estava cansado de todos estes pensamentos estúpidos. Sentia-se ao mesmo tempo pesado e leve agora. Sentia-se ao mesmo tempo revitalizado e moribundo. Não conseguiu encontrar outro motivo para acreditar-se moribundo além dos papéis que assim diziam, guardados em seu bolso. Então, sentiu-se cheio de vida. Quando a cerveja chegou, levantou um brinde para a pilastra e bebeu também de uma vez.

Será que morrer era tão ruim assim? Não sabia. Ninguém sabia disso ao certo, mas agora ele sabia que iria descobrir em breve. Sentiu medo da dor, mas lembrou-se de que haviam analgésicos legais e proibidos que poderiam afastar qualquer dor. Fez anotações mentais sobre quem poderia arranjar um pouco de heroína, ou algumas doses boas de morfina, para si. O pensamento de que a dor, toda a dor, era evitável deu à idéia de morrer contornos mais macios. Tirou o celular do bolso. Sentia vontade de conversar com alguém. Não sobre sua morte, que ainda não era fato, ou do câncer que era pouco mais do que uma abstração por trás de sua ligeira dificuldade de respirar. Queria conversar sobre a vida, sobre as mesmas coisas de sempre. Naquele momento percebeu que a única diferença que aquela coisa estranha que eventualmente o devoraria por dentro fazia em sua vida se projetava sobre o futuro. E o futuro era, sempre foi, desconhecido. A gente só acredita que o conhece, mas não sabe de nada. Se um câncer vai surgir ou não, se os freios do carro vão falhar ou se o ônibus vai capotar com você dentro. Você nunca sabe se vai morrer no dia seguinte, ou se vai ser feliz ou triste. Você apenas acredita. E então, alguém que estudou 10 anos para saber fazer isso te diz que tem algo te devorando por dentro, e então você está morrendo. Mas não estamos todos? A vida cobra seu preço, pensou Jonas. E algumas das melhores coisas são aquelas que mais cortejam a chegada da morte. Nunca pensara em abrir mão de qualquer prazer em sua vida. Por que isso iria ser diferente agora? E que diferença fazia se agora a morte parecia mais próxima? Ainda estava vivo.

Respirou fundo, e certificou-se de que ainda conseguia respirar sem desconforto. Encheu o copo. Bebeu. Chamou o garçom e pediu mais uma cerveja enquanto a garrafa sobre a mesa ainda estava na metade. Queria fartura. Começou a procurar pelos nomes dos amigos e amigas na agenda do celular. Queria ligar para todos. Queria dar uma festa. Quem se importa em morrer, se você pode estar vivo até o fim? Não queria ficar triste nem sentir pena de si mesmo. Queria abraçar a vida, abraçar as pessoas, transar, gozar, beber, rir, fazer tudo que tornava boa a vida. Não havia mais com o que se preocupar. A morte o libertava de todas as preocupações, e lhe devolvia a vida. Jonas resolveu aceitar o presente.

Acendeu o cigarro e decidiu viver até o dia de sua morte. Parecia-lhe muito estúpido fazer qualquer outra coisa. E assim, Jonas continuou vivo — imortal até que se provasse o contrário, como todos nós. Todo mundo morre. Só varia o quando e o como, e o quê você fez antes disso. Jonas sabia muito bem o que faria agora. Iria viver como se não houvesse amanhã. Finalmente, isso era verdade. Jonas brindou à morte e bebeu a vida, e foi feliz com isso. E assim foi.”

Antes que alguém pergunte. A história não é biográfica (e muito menos autobiográfica), mas eu entendo o Jonas…

Quem há de dizer o que é certo ou errado, ou uma boa forma de se viver ou morrer? Cada um sabe da própria vida e da própria morte. Estamos aqui para ser felizes, e tirar bom proveito desta vida. Melhor ainda se pudermos fazer algo bacana — amar, deixar alguma obra bela, fazer alguma diferença na vida das pessoas — neste meio tempo.

Hoje eu escrevi um conto. Amanhã, se estiver vivo, farei outras coisas ainda melhores — beberei, abraçarei e beijarei pessoas amadas, verei a cidade, farei coisas que gosto…

Assim segue a vida, para mim e para o Jonas, até o fim.

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Por vezes sonho em escrever alguns contos que, por indisciplina ou preguiça ou qualquer outro motivo assim, acabo não escrevendo. Fico sempre com a sensação de que algum dia voltarei àquele conto e saberei o que dizer, saberei o que escrever. Por vezes tenho vontade de desistir, mas isso não faz a menor diferença. Penso em apagar o conto para não ter mais que pensar nele, mas isso também não faria a menor diferença. Então eu os deixo lá, esperando a possibilidade de que eu um dia acorde e saiba escrevê-lo de um jeito até melhor do que o comecei.

É assim com muitos de meus contos, principalmente com este que seria um de meus prediletos se eu um dia conseguisse terminá-lo. Seu nome é Acorda pra Sonhar.

Reproduzo abaixo a primeira parte do conto, revisada rápida e não invasivamente hoje. Não me lembro quando o comecei. Espero que um dia acorde e saiba como terminá-lo…

(fragmento de Acorda pra Sonhar)

“Você acorda com o despertador, mas não está realmente acordado. De fato, você não esteve realmente acordado desde… desde que se lembra. Sentado na cama, um tanto relutante – você não quer ir para o trabalho – tenta se lembrar de seus sonhos. Não consegue lembrar-se nem sequer se sonhou. Lembra-se vagamente Dele, do Outro, e da forma como Ele olhava pra você, mas não sabe se O sonhou ou se só O imaginou. Todas as perguntas já desapareceram quando você começa a escovar os dentes, balançando-se para um lado e para o outro e morrendo de sono. Você não está realmente acordado, mas está de pé. Tem que se contentar com isso. Ao menos não vai perder a hora novamente. Se Ele estivesse alí, lembraria você de perguntar a si mesmo quem é você. Você provavelmente não saberia a resposta. Você não está acordado o bastante para isso.

Cambaleante, com a cabeça vazia e um bocado tonto, você começa a se vestir. Tenta se lembrar se bebeu ontem, ou se ficou acordado até muito tarde. Você quase sempre faz alguma das duas coisas. Passando o dia inteiro no trabalho você não tem muito tempo para dedicar a você mesmo. Não que você utilize muito bem o tempo que rouba do seu sono. Você não presta muita atenção na roupa que veste. Uma calça e uma camisa que você usou apenas uma vez nos últimos dias, as botas de sempre, um casaco para a chuva do fim do dia… Você tem que economizar roupas, pois a lavanderia está cara e você não é muito bom com o dinheiro. No caminho até o carro você fica ofuscado pelo sol e se lembra que esqueceu os seus óculos escuros. É uma forma levemente ruim de começar o dia.

Dirigir nem sempre é uma coisa prazeirosa para você. Você até queria gostar, mas por algum motivo acha tão enfadonho quanto qualquer outra coisa. Quando é dia as ruas estão cheias e todos os sinais da W3 parecem se fechar quando você se aproxima deles. É um saco. Quando está quente, fazendo aquele calor matinal das épocas de chuva no cerrado, e você está rodando rumo a outro dia entediante, dirigir é quase uma tortura. Por outro lado você gosta de dirigir à noite, quando as ruas estão vazias, quando você pode acelerar o carro e dirigir de um jeito menos automático. Geralmente você está bêbado, ou ao menos animado, nestas situações. Você geralmente se diverte mais quando está bêbado. Algo em você acorda nestas horas, e uma outra parte que não te faz muito feliz vai dormir. Mais um sinal fechado, e você não quer pensar em você mesmo. Está entediado, mortalmente entediado, e o dia está apenas começando.

Você desce do carro e tranca a porta. Você nunca tem saco de colocar o alarme. O dia está quente e você está muito longe de onde queria estar, embora você não saiba ao certo onde você queria estar. Um colega de trabalho acena pra você. Ele está descendo de seu carro também. Parece animado. Você acena de volta, consciente de que deve estar exibindo um sorriso amarelo beirando o marrom. Duas senhoras olham para você enquanto você caminha para a entrada do edifício. Olham como se você fosse um bocado esquisito, o que talvez você seja. Você as ignora, como ignora a maioria das pessoas. Nem sempre você sabe o que dizer a elas. Isso te deixa nervoso, pois as pessoas parecem esperar que você diga algo a elas. Na maior parte do tempo você apenas não está interessado no que elas tem a dizer também. Mesmo assim, ultimamente você não acha que tenha muito a dizer também.

Ás vezes você queria ser normal — ser como os outros — mas você não sabe ao certo o que isso quer dizer. Quando olha de verdade para a vida da maioria das pessoas que o cercam, você tem a impressão de que eles não são felizes. Parecem de fato viver vidas muito chatas. Veja aquele pessoal do escritório, e mesmo aqueles seus amigos lá do boteco. Eles se divertem ao modo deles, mas você não tem certeza de que se divertiria no lugar deles. Há algumas pessoas cuja vida e modo de ser você admira, mas é isso… você gosta que elas não sejam você, para que elas possam estar em sua vida. De qualquer modo você não iria querer viver a vida delas — elas também parecem inadequadas para você — não são o tipo de vida que poderia ser a sua vida. Então você se pergunta o que é ser normal, não encontra resposta, e acaba desistindo da idéia. É então que você se sente bem com a idéia de tentar ser você mesmo. Não que você saiba ao certo o que isso quer dizer também.

Sentado em sua mesa, você liga o seu computador e espera impacientemente pela inicialização do sistema. Todos à sua volta estão trabalhando. Alguns acenaram para você enquanto você chegava. Você acenou de volta, fingindo estar feliz. Geralmente as pessoas se contentam com isso. Olhando para a tela preta onde passam linhas e mais linhas de um computês impenetrável do qual você só entende uma ou outra coisa, você traça um paralelo entre aquilo e a sua vida. Você poderia entender muito mais do que entende, mas não tem saco para tentar entender, e então as coisas simplesmente passam. Mais uma vez você resolve não pensar nisso. Gostaria de saber para onde ir, ou o que fazer para ser feliz. Gostaria de perguntar para Ele, mas Ele deve ser apenas parte da sua imaginação. Algumas pessoas tem amigos imaginários. Eles aparecem, falam, contam histórias e segredos, e ouvem o que você tem a dizer. Você só tem uma pessoa imaginária que está em algum lugar que você nâo sabe ao certo qual é, que nunca aparece, nunca diz nada e apenas olha pra você enquanto você o imagina. Ao mesmo tempo Ele parece muito com você, e não se parece em quase nada. É como se Ele fosse alguém que você gostaria de ser, mas isso só parece possível no lugar onde Ele vive, e provavelmente este lugar também é parte da sua imaginação. Olhando para a tela do computador, você percebe que este já está pronto para o uso. Você não tem que pensar para descobrir que você não quer usá-lo, de qualquer forma. Então apenas checa o seu email e fica tentando se distrair na internet enquanto ninguém olha de modo estranho para você por isso.

Alguns emails te interessaram. Um ou outro de pessoas queridas, um ou dois dizendo coisas interessantes. Você os respode com um expontâneo ar de sábio enigmático e divertido. Nestes momentos você até gosta de você — nos momentos em que está escrevendo algo — mas o prazer é momentâneo e você volta a ficar entediado. Há alguma coisa faltando, sempre houve, em você ou sua vida. Por vezes você acha que Ele sabe a solução. Por vezes você acha que a solução não existe, e que a vida é assim mesmo. Em dias como este, você prefere nem notar que alguma coisa está faltando.

Ele deve estar rindo de mim em algum lugar, você pensa. Foda-se, pare de rir e venha aqui me tirar desta vida se é que você existe — você diz entredentes. Nada acontece. A vida deve ser assim mesmo. Este é mais um dia ruim. Quem se importa? Ele? Você não se importa. Você gosta de acreditar que está tudo bem, quase tanto quanto gosta secretamente de acreditar Nele. Nenhuma das duas coisas te faz mais feliz. Mas o que mais você pode fazer, afinal?

Em dias como estes, você se sente como um náufrago. Não, pior do que isso! Em dias como estes você se sente ridículo por se sentir como um náufrago. É uma merda. Ou nem é tão ruim. Muitas coisas poderiam ser piores. Você se sente pior por isso.

No fundo, você só queria acordar deste sonho ruim. Mas o quê aconteceria se você acordasse?
Até o trabalho parece menos pior do que ficar preso nesta arapuca de pensamentos que não saem do lugar, então você decide trabalhar. Mesmo assim, uma voz lá no fundo continua ecoando na sua cabeça e dizendo que você só queria acordar…”

Um dia eu descubro como contar o que acontece depois. Prometo que conto pra vocês, quando souber…

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Recebi hoje um gracioso comentário/email de Dora Nascimento, colega overmundana e atenciosa leitora, a respeito do fragmento do conto Samhain, publicado aqui no Caderno do Cluracão há uns tempos atrás.

Reproduzo abaixo, na íntegra, a encantada e encantadora missiva:

Samhain (fragmento) – quase uma fábula de sutil erotismo, que começa com um segredo em suspense e termina com um suspense segregado.

Foi assim:

O abri numa tarde quente de maio, num ciber-café lotado de adolescentes que jogavam aqueles games, todos infernalmente barulhentos.

“(…) Alma respirou fundo, parada frente à porta, mordendo os lábios.”.

Eu fechei os olhos e disse:

“Não dá pra ser agora”.

No final do expediente o escritório ainda era todo movimento, e no computador onde trabalho, voltei a abri-lo novamente.

Vozes, risadas, telefones tocando em alucinados e irritantes estilos…

Alma com a sua respiração em suspenso, uma história por acontecer…

Voltei a fechar, telefone para mim.

Pela terceira vez naquele dia eu o abri e imprimi.

Com ele impresso nas minhas mãos, estava segurando os papéis nas mãos, quando alguém me pediu para ir até a videoteca.

Dobrei-o adiando Alma mais uma vez, fiz o que me pediram, e fui embora dali o mais rápido possível.

E Alma lá, estática, respirando fundo, parada frente à porta, mordendo os lábios.

Peguei-o e guardei dobrado o suficiente para caber dentro da minha bolsa.

Na parada do ônibus, toquei nos papéis, cinco páginas guardavam a continuação de Alma. Fui para debaixo de um poste e retirei-o da bolsa, desdobrei os papéis, e lá estava Alma, à espera de que eu a deixasse soltar a funda respiração. Não, a luz de mercúrio do poste me ofuscava. Dobrei os papéis adiando tudo mais uma vez.

Dentro do ônibus, retirei novamente os papéis, e Alma já havia, em uma frase, passado toda aquela tensão dela para mim.

Desisti dali também.

Peguei o livro das “Fadas no Divã” – psicanálise boa e pura – e corri os olhos nele, mas só pensava em Alma e sua respiração suspensa e presa nos papéis e na minha demora em retornar à sua história que estava preste a acontecer.

A ansiedade faz tudo parecer uma eternidade, mas eu enfim cheguei em casa.

Aí fiz assim:

Larguei a ansiedade descuidadamente sobre o pufe gigante.

Tomei um banho, e me alimentei.

Ascendi um digestivo, um incenso e a luminária.

Retirei aqueles papéis da bolsa pela terceira e última vez naquela noite. Apaguei todas as luzes da casa.

Deitei no sofá-cama e finalmente o li, voltando a dar vida a Alma, que ainda continuava a morder os lábios numa suspensa e funda respiração.

Tenho agora duas impressões e uma constatação pretensiosamente minha.

1 – Alma, apesar do temor, entregou-se à excitação no instante em que “aproximou a mão muito levemente, incerta, da maçaneta…” e se assustou,

com a facilidade com que a porta se abriu ao seu desejo mesclado de temor, materializando aquela excitação dentro daquele quarto escuro.

Ela estava lá!

A incerteza dera abertura a uma frágil, mas firme convicção.

2 – Sméagan é um não humano – apesar de só descobrir isso na última frase – ainda assim, não havia descrição alguma de que fosse um humano normal. O tom tenso com que a história tem desde o início, é que deixa um sutil eco de anormalidade naquele encontro.

Depois quando o segredo é parcialmente revelado na última frase, ficou no ar do meu imaginário o que poderá vir a ser um não-humano.

Na minha cabecinha fabulosa pairaram elfos, faunos, gnomos, duendes…

O vi como um elfo.

E Alma – que agora eu via com mais nitidez dentro de formas imberbes de mulher que trás ainda latente sua sensualidade – firme na sua frágil certeza de querer se entregar a Sméagan, me diz:

“Ele nem sequer era humano (…)”.

Mas depois, Alma ficou me acalentando:

“Ao menos ele não é humano (…)”.

3 – Para mim – muito pretensiosamente individual essa minha opinião pode parecer, e é – o conto está findo.

Quando tu iniciaste a primeira frase com “(…) e fechou a última frase com (…)”, deixaste – ao menos para mim – todo um mistério a ser desvendado pelo imaginário do leitor.

Porque é um conto que tem um quê de fábula de sutil erotismo, e que começa com um segredo em suspense e termina com um suspense segregado.

L-I-N-D-O!

Um cheiro de manjericão adentrou por toda a casa, como uma confirmação.

P.S.:

1- Acho que se o conto for continuado, eu ainda não sei se vou querer ler.

Os personagens, às vezes, simplesmente se calam, se encerram, e se não os deixamos em paz, eles talvez voltem distorcidos. Salvo quando querem voltar à tona do imaginário do seu criador. Ai não tem jeito, tem que continuar.

Desculpe-me, mas eu jamais vou deixar de te dizer o que sinto e o que vem do meu agitado coração, mesmo que eu me arrependa no instante seguinte – e já tarde demais – após clicar em “enviar”.

A propósito, Sméagan me apareceu como um elfo desejável e amedrontador, e talvez por isso mesmo, ao menos sua alma, é humana.

2– Se puderes desculpar essas minhas levianas interpretações, basta me responder dizendo que sorriu.

3- Quando virei uma das páginas do caderno em que escrevia essa carta-comentário, subitamente me apareceu essa receita de “Pão Rápido”, que gosto de fazer para servir aos amigos:

“Receita de Pão Rápido”.

Ingredientes:

2/1/2 xícaras (chá) de farinha de trigo especial (aquela sem fermento)

1 xícara (chá) de açúcar (da sua preferência, mascavo… etc)

1 colher (sopa) rasa de fermento comum (aqueles de bolo mesmo).

1 pitada de sal

1 xícara de castanha ralada (ou qualquer outro recheio que der na telha, uvas passas…)

1 copo (250ml) de leite (temperatura ambiente)

1 copo (250ml) de óleo (também da sua preferência, girassol…)

3 ovos inteiros ligeiramente mexidos (também em temperatura ambiente)

Modo de preparar:

Bom para fazer nas horas do dia em que o sol ainda está frio.

Se não tiver sol, antes do meio-dia.

Bater todos os ingredientes líquidos no liquidificador.

Numa tigela, adicionar todos os ingredientes secos.

Despejar o conteúdo liquido sobre o seco, pegar dois garfos e mexer delicadamente, até que tudo se torne homogêneo, enquanto isso, vá adicionando a energia boa de estar produzindo um alimento, mesmo que seja só para você.

Levar ao forno pré-aquecido em forma (que pode ser refratária) untada, uma temperatura de 180° por + ou – 45minutos, ou até dourar.

Pode espetar com um palito, como se faz com os bolos.

Pode comer na hora que sair do forno, mas ele estará com a consistência de um bolo. Mas se der para esperar até o fim do dia, já estará com a consistência de pão.

O nome é Pão Rápido porque não precisa esperar a massa crescer.

Bom apetite!


Esta carinhosa e apaixonada mensagem da leitora Dora me fez pensar um bocado e lembrar de algumas discussões e idéias sobre contos e fragmentos que venho tendo aqui, alí e acolá. Penso que o fragmento é quase um estilo literário em sí — tendo sido influenciado por uns “fragmentistas” por aí — e como tal, merece o reconhecimento como obra acabada, mesmo que carregue o nome de algo que parece incompleto. O fragmento pode levar no seio uma incompletitude, mas se o faz, é porquê nisso também imita a vida que por vezes retrata.

Posto isso, fiquei a pensar com meus botões o que fazia com este fragmento benquisto. Assumí-lo como um fragmento por si só e arrancá-lo do conto Samhain, no qual ainda estou trabalhando? Não. Isso não. Abandonar o conto e reconhecê-lo encerrado neste fragmento? Nem pensar! Samhain é muito mais do que isso! Deixar, então, a coisa como está? Talvez não…

Por fim, decidi tomar o caminho do meio, que contempla os amantes do fragmento e do conto. Continuo a trabalhar no conto Samhain (embora a correria dos últimos dias tenha me afastado dele), e batizo este fragmento, que agora tem sua vida própria reconhecida, como “Alma e o quarto escuro“. Continuará fazendo parte do conto, mas também tem existência própria, e cada um o lerá como preferir.

E assim é, e assim será. Para os que ainda não leram, aqui está “Alma e o quarto escuro“. Quanto ao conto Sahmain, continuo trabalhando nele.

Em tempo,
vou experimentar a receita assim que puder, Dora. :D

p.s. Para fazer justiça à minha persistência em manter o trabalho no conto Samhain, publicarei em breve mais um fragmento dele — sua parte inicial — como uma forma de dar satisfação a respeito de algum andamento literário deste Cluracão (que até agora não publicou a quinta parte de O Cavaleiro e o Dragão para continuar a fábula em fragmentos no Overmundo).

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“(…)Rosa está em silêncio. Olha para a televisão como se ela não estivesse lá. Suspira profundamente, quase que com um susto. Olha para o sol que espreita pelas persianas fechadas da sala. Está tão abafado! Levanta-se e caminha até a janela. A onda de luz que invade a sala quando as persianas são levantadas é física, faz balançar o corpo leve de Rosa. Ela olha para a rua lá fora. Carros passam devagar, e tudo parece silencioso neste amanhecer de domingo. Rosa volta a sentar-se. Não vê mais a televisão, ou a poeira no ar. Rosa tem um vislumbre da infância, brincando na rua de pedras desiguais. Lá ela também vê o sol, mas ele ilumina toda uma vida que ainda a esperava pela frente. Agora Rosa já sabe como é viver uma vida inteira. O barulho de um prato quebrando na cozinha a desperta por um momento. Rosa sente uma certa tristeza de ter sido trazida de volta de sua infância. Suspira novamente, devagar e com dificuldade, enquanto os raios de sol dançam.(…)”
(trecho do conto “Uma casa morrendo”, publicado no Overmundo)

Fiquei muito feliz em ver a recepção que este conto teve lá no Overmundo até agora. No momento em que faço este post são mais de 130 votos — que levaram o conto à capa do Overmundo — e 25 comentários (incluindo os meus, de agradecimento, claro). Eu, que não havia dado muito por ele quando o escrevi por achá-lo muito triste, espero ter agora aprendido a lição de que todo escrito que é rabiscado de coração merece ser dado ao mundo…

Mais escritos virão em breve…
Obrigado a todos pelo carinho, e por me lerem!

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Levando alguns passos em frente (por um caminho mais produtivo) o post anterior, estava pensando sobre a importância da existência de literatura ambientada em uma cidade para a construção do imaginário de (e sobre) aquela cidade. No caldeirão desta reflexão, junto 3 sentimentos semelhantes em natureza e distintos no tempo e no espaço.

O primeiro é o sentimento de isolamento e “saudade do desconhecido” que experimentava nos tempos em que só lia literatura estrangeira. Sentia falta de encontrar a minha cultura, a minha nacionalidade, nas histórias que me moviam.

O segundo sentimento era um sentimento de falta. A falta de literatura sobre Brasília, que narrasse histórias brasilienses, sob os céus da Cidade Seca, falando das coisas daquele lugar — capturando seu espírito, evidenciando-o. A este sentimento respondi me propondo quase naturalmente a só escrever a respeito daquela cidade, no meu período de contista que foi de 2003 a 2006.

O terceiro sentimento é o encanto cantado no post anterior, de andar por uma cidade que é pano de fundo e personagem de uma boa parte daquilo que ando lendo hoje em dia. Isso não é sem propósito; desde que me mudei para o Rio me propus a mergulhar e conhecer a literatura carioca que fale sobre a cidade. A sensação de ler sobre Copacabana, sobre o Jardim Botânico, sobre a rua Voluntários da Pátria em Botafogo (onde trabalha o médico da morta de Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca), sobre a Urca onde um homem morre afogado enquanto Clarice Lispector experimenta seu vestido… sobre tantos lugares e histórias cariocas… é simplesmente fantástica. É como estar finalmente inserido e contemplado integralmente em um universo ao mesmo tempo real e secundário, imaginário e sólido. É a magia penetrando o dia a dia.

Isso me leva de volta ao questionamento do segundo sentimento: É necessário que as pessoas escrevam sobre suas cidades, sobre suas realidades, sobre suas vidas e as vidas das quais são testemunhas. Há de se falar de jeitos, trejeitos, ruas, espaços, apertos, histórias e ilusões de cada cidade — e de sua gente. Uma cidade sobre a qual há rica literatura é mais real do que a sua realidade física, é super-real, é mais forte e se entranha na carne do leitor-morador.

É por estas e por outras que me sinto em dívida com minha cidade natal quadradinha. Eu tenho que escrever sobre aquela cidade! Tenho que viver mais dela, e escrever mais, muito mais, sobre ela! O Rio já está em boas mãos. É bom de morar, é bom de ler. Mas quando não estiver escrevendo sobre a Terra Encantada, quero escrever sobre a minha terra.

Brasília ainda carece de quem conte suas histórias. Eu ainda careço de contar as histórias da minha Brasília. Ouço o chamado. Um dia eu chego lá…

Já que declarei em meu post anterior meu amor pelo Rio, agora é hora de declarar também o meu amor por Brasília, sua gente, sua terra que vira poeira no ar e seu vento seco que embaraça os cabelos e o coração. Eu também amo Brasília, e ainda vou escrever muito sobre ela. Ela merece!

(mas para quem também ficou com água na boca para ler sobre Brasília, humildemente prometo publicar mais dois de meus contos brasilienses no Overmundo logo depois que publicar a quinta parte de O Cavaleiro e o Dragão. Para quem não quer esperar, sempre há Na Saída e A Moça Acenando na Janela.)

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