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Posts Tagged ‘Delianárra’

“Era um homem muito triste. Trazia uma grande trouxa de bagagem nas costas e me parou educadamente pedindo direções. Parecia ignorar que a estrada de tijolos cinzentos o leva sempre aos mesmos lugares, pois me perguntou se naquele dia era possível chegar a Setestrelas se tomando o desvio à direita. […] Quando perguntei por quê estava deixando a capital, ele me disse gravemente que só se deve deixar um lugar quando os motivos para se querer ir embora não forem mais compensados pelos motivos para se querer ficar. Insistí, e ele simplesmente me disse que não morava mais lá, e calou. Eu também silenciei quando me perguntou de onde eu vinha. De certa forma, me parecia que por mais que andasse estava sempre em um lugar muito familiar, e não fazia mais para mim sentido algum dizer que um dia vim de algum lugar.”

Velhas anotações no 529. Novas anotações se somarão.

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A vida é também uma eterna tentativa de retomar as pontas soltas das muitas tramas que vivemos (e imaginamos) em busca de transformá-las novas tramas.

Hoje, enquanto comprava cigarros e uma providencial garrafa de coca-cola em um mercadinho que acabei de descobrir na vizinhança, estava me relembrando de uma velha aventura de RPG que mestrei para amigos há mais de 10 anos. Nela havia alguns povos que descendiam de elementos naturais. Eram, de fato, manifestações destes elementos. Havia o povo da terra — também chamados por alguns de Gnoms (não confundir com gnomos, embora a raiz da palavra seja a mesma) — que descendia de algumas rochas que tomavam consciência e conseguiam se manifestar em corpos atarracados e fortes, semelhantes aos dos anões de Tolkien. Havia também os Aradin, que eram manifestações dos corpos de água. E entre estes e tantos outros havia um povo, do qual eu não consigo me recodar o nome, que eram as próprias manifestações das árvores milenares das florestas em que viviam. Por mais que tentasse, não conseguia me lembrar do nome deste povo, mas na tentativa de lembrar deles me lembrei de outro povo — este parte dos meus fragmentos sobre as Ilhas Encantadas na narrativa Delianárra — que tinha características semelhantes: os Eneirah.

Segundo um trecho dos fragmentos (que me deu vontade de reescrever), os Eneirah são descritos assim:

Há uma controvérsia tola entre as outras gentes a respeito dos Eneirah. Perguntam-se, e nestes questionamentos se destacam os homens jovens e velhos de Fínne e um ou outro pequenino que tenha vivido tempo demais entre eles, se serão os Eneirah plantas ou gentes. A pergunta é tola, e só faz sentido quando se pensa que temos que ser uma coisa ou outra, ou alguma das duas, para ser. Os Eneirah são simplesmente Eneirah, e mesmo isso é uma tentativa de colocar em palavras tolas a absoluta simplicidade da natureza deste povo.

(…)

O Povo Eneirah vive muito, e por vezes concebe seus filhos da união de amor e companheirimo entre dois deles. Mas muitos deles nascem também dos frutos das árvores da floresta, e também muitos deles, quando assim decidem, deitam-se em algum lugar que lhes apraz e cria raízes por alguns anos. Diz-se, e sobre isso descobrí a verdade depois, que é possível a um Eneirah ser morto pela tristeza, pelo aço e pela magia. Mas mesmo a estes ainda resta a transcendência verde, pois o povo Eneirah acredita que de seu corpo brota sempre um outro corpo, e que todos os frutos e todas as decorrências da natureza e do curso da vida carregam em sí aquilo que as gerou. Desta forma, os Eneirah não apenas são gentes que caminham e cantam e cultivam jardins e fazem perfumes e dançam e amam. São também as árvores de sua morada, e por vezes também os animais. Os filhos também se concebem como parte daqueles que os geraram, e aqueles que os geraram também acreditam ser os filhos, e todos eles acreditam ser ao mesmo tempo os frutos de uma só árvore, cujo nome porventura é Eneirah.

E essa idéia do povo árvore e dos outros povos nascidos das coisas da natureza ficou na minha cabeça. Acho que vem história pela frente…

P.S. procurando por uma imagem para o post, acabei reencontrando esta Dríade que há 5 anos deu rosto a Sylvia, mulher-árvore que era dona do coração de Yirddyn Duirfel (um personagem druida de uma velha aventura de D&D3.5ed)

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Trechos extraídos de “Um caminhante em busca de outro”, ensaio do falador Thiellót (em forma breve) sobre o Delianárra e os lugares e pessoas citadas por Delian no manuscrito.

A Árvore do Reino dos Gatos

(a primeira parte deste trecho está documentada no Caderno Verde)

…Ainda sobre a Árvore, nela só gatos e aqueles que vestem sua forma podem adentrar. No coração da Árvore vive um dos Reis Gatos. Seu nome é Awni em nossa língua, e só um gato sabe pronunciar seu verdadeiro nome.

Seus batedores circulam quase inauditos pela planície, não reconhecidos como tais por gente que anda em duas pernas nem por quase nenhum outro caminhante que use as quatro. Vez por outra um gato preto, a cor dos emissários do Rei Awni, cruza em disparada as terras gramadas rumo ao Leste ou ao Oeste.

A Grande Estrada

A grande estrada que cruza a Planície dos Ventos é talvez uma das poucas sendas seguras de toda a região. Tentar chegar a algum lugar da Planície dos Ventos sem viajar pela “Grande Estrada” é garantia de aventuras, e de chegar muito atrasado. Os ventos da Planície, chamados por alguns de Sopro de Dánloth, transformam constantemente o lugar, criando e escondendo lugares.

Pukán (pu-KÁNN)

Pukán é uma viajante, uma mercadora de histórias e segredos, que viaja pela Grande Estrada. Não se sabe seu destino, ou de onde vem, mas frequentemente se ouve de alguém que a encontrou na Estrada. Filha do Povo-da-Terra, ou assim se acredita, dizem que foi tão tocada pelos Ventos da Planície que ela mesma agora também muda com os ventos. Uma das formas de reconhecê-la são seus cabelos vermelhos e seus olhos muito vivos.

Lágrimas de Delian

Existem às vezes, em alguns lugares da Planície dos Ventos, luxuriantes e bucólicos jardins. Alguns deles são marcados por discretas ruínas cinzentas e velhos bancos, mesas e caramanchões de pedra ou madeira muito velha. Conta-se que estes lugares foram semeados pelas lágrimas de Delian em sua viagem em busca de Dánloth.

Faladores e estudiosos do Povo-da-Terra afirmam que estes lugares surgiram por conta de lágrimas de coração partido vertidas por Delian após encontrar-se com algumas das guardiãs dos tesouros do Tecelão dos Sonhos. Em um destes jardins, uma triste estátua costumava dizer aos viajantes a mesma frase a cada nascer do sol.

“O vento e a chuva lutaram por toda a tarde, e se amaram na madrugada longe dos meus olhos, mas um dia há de chover e ventar em mim.”


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Depois de uma(s) inspiradora(s) conversa(s) ontem à tarde, sinto que deveria retomar o conto-encantado-folhetim O Cavaleiro e o Dragão (publicado até o 6º capítulo aqui e no Overmundo) e a história encantada Delianárra (da trilogia Arranárra, Delianárra e Lothienárra). Mas creio que neste momento o Acorda Para Sonhar seja minha prioridade. Então, vamos ver o que vou fazer…

UPDATE: Para quem quer achar os capítulos de “O Cavaleiro e o Dragão” publicados no Overmundo, também os estou indexando aqui.

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L’th sentou-se na beira da calçada, com os longos pés tocando a areia da Praia Vermelha, e se deixou ficar lá. Fitava o sol que se punha, tão inalcançável. O’Dúireagh o olhava sem jeito. Por vezes ficava perplexo com L’th, e não sabia como reagir. Então apenas o olhava e esperava para ver o que faria. Mas L’th ficou lá, sem dizer nada, sem esboçar qualquer reação, olhos púrpuras perdidos na imensidão do mar que abraçava o dia e trazia a noite por trás do sol que ia embora.

– “Você está assim porque falei dos rumores da volta dela, homem?” O’Duireág tentou começar um assunto.

L’th parecia não ter ouvido, mas seus olhos pareciam mais úmidos, mareados. O’Duireág fez menção de falar alguma coisa, mas L’th o interrompeu ao levantar-se da calçada e caminhar em direção ao mar alagoado na Baía da Praia Vermelha. O’Duireág o seguiu.

– “É por conta dela? Por conta da artesã de Atirfeu?” Insistiu O’Duireág, perplexo.
– “Sim e não, cluracão.”
– “O que é então. Você parece triste.”
– “Triste? Sim e não. Sentindo, sim. Sentindo muito. Sentindo como não estava mais acostumado…”
– “Eu não entendo. Você tem sempre que ser tão complicado?”
– “É você que finge que não é, cluracão.”

O’Duireág se calou. Ele também sabia que sentia. Ficou também observando o mar que era pouco a pouco engolido pela noite. Quase não ouviu quando L’th continuou a falar, com uma voz suave e embargada que ele nunca havia ouvido antes…

– “Não é só por ela que me emociono nesta tarde. É por ele. Pelo caminhante que cantou as ilhas. Por DánL’th… É a ele que amo acima de tudo, e também tenho medo que volte. E com a volta dela, ele também irá voltar. É assim que é, e é assim que ele é. Voltará. Eu não sei o que fazer sobre isso. Por vezes era mais fácil quando ele estava em outro mundo e eu podia me esconder e fingir que nada mais existia além de mim. Mas ele é parte de mim, eu sou parte dele, e por isso não posso deixar de amá-la e amar a ele ainda mais agora que se aproximam.”

O’Duireág não sabia o que dizer frente a tudo aquilo. Era ao mesmo tempo complexo demais e familiar demais. Sussurrou apenas um “eu entendo” quase inaudível, e suspirou profundamente.

O alto senhor feérico e o cluracão ficaram observando o mar até que a noite os abraçou. E depois foram embora andando pela praça em um silêncio cúmplice.

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“[…]A norte da Floresta de Espiras, onde vivem as Banshee das Pedras e O Barghest, existe um grande rochedo que observa o Mar do Adormecimento. Na segunda ponta mais alta do rochedo, acessível apenas àqueles com asas, mágica ou persistência o bastante para lá chegar, vivem três mulheres. Muitos viajantes as chamam de “Bruxas do Rochedo Negro”, mas não há nenhum motivo específico para dizer que sejam bruxas. Suas histórias, contam as lendas, se entrelaçam com a de DánLoth, e há quem diga que por algum motivo não podem deixar a casa. Talvez seja por isso que ainda vivam na Casa do Rochedo Negro. Talvez seja por isso, ou por medo da solidão do Rochedo, que ainda não tenham assassinado umas às outras nas noites escuras. […]”

(ainda não achei uma imagem adequada a este pequeno fragmento. na sequência, procurarei por uma)

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O fragmento número três se perdeu. Dele me lembro apenas três pequenas passagens, que reproduzo abaixo.

“[…]A estrada dos tijolos cinzentos, que cruza as terras mortais de Fínne, é talvez a única estrada nas ilhas que sempre nos leva aos mesmos lugares. Isso faz dela uma estrada estranha para quem mora na região.

[…]

Ela vinha miúda pela estrada. Seus cabelos muito vermelhos contrastando com o verde das urzes e com o cinzento profundo de seu manto. Naquela primeira vez que a encontrei, ela rumava para o Bosque dos Príncipes. Queria se encontrar com a Velha Coruja. Dizia que era parte de sua iniciação como mulher-que-sabe-das-coisas. Não sabia na época que havia entre os pequeninos mulheres-que-sabem-das-coisas, ou mesmo aspirantes a este caminho. Partilhamos à beira de uma fogueira um pão de estrada e um resto de frutas cristalizadas que ela trazia envoltas em um pano azul dentro de seu alforje, que era grande demais para ela. Se recusou a comer carne de caça, e achei melhor não fazê-lo também. Foi a primeira vez que a ví, mas foram nossos outros encontros que a tornaram inesquecível. Espero que ela esteja bem agora, onde quer que esteja.

[…]

Era um homem muito triste. Trazia uma grande trouxa de bagagem nas costas e me parou educadamente pedindo direções. Parecia ignorar que a estrada de tijolos cinzentos o leva sempre aos mesmos lugares, pois me perguntou se naquele dia era possível chegar a Setestrelas se tomando o desvio à direita. […] Quando perguntei por quê estava deixando a capital, ele me disse gravemente que só se deve deixar um lugar quando os motivos para se querer ir embora não forem mais compensados pelos motivos para se querer ficar. Insistí, e ele simplesmente me disse que não morava mais lá, e calou. Eu também silenciei quando me perguntou de onde eu vinha. De certa forma, me parecia que por mais que andasse estava sempre em um lugar muito familiar, e não fazia mais para mim sentido algum dizer que um dia vim de algum lugar.”

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