Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘escritos’

um fragmento

“- “Por que é que as corujas não comem os sapos da Lagoa Azul?”
E a coruja sorriu, e o sorriso das corujas é muito esquisito, e respondeu:
– “Porque os duendes da beira da água ensinaram aos sapos da Lagoa Azul a arte de virar pedra, e se eu comer pedra vou quebrar meu bico.”

– “Mas se eu não virasse pedra você ia me comer?”, perguntou o Sapo Azul para o Coruja.
E a Coruja, que estava começando a gostar da conversa, respondeu:
– “Não. Porque eu quero aprender o segredo de como virar pedra. E você, Sapo. O que você quer?”

E o Sapinho Azul ficou feliz com a pergunta. E respondeu todo satisfeito, já esquecendo que quase virara comida de coruja:
– “Eu quero descobrir um lugar bem bacana pra morar. Não quero mais morar na Lagoa Azul”.
– “E por que você não quer morar mais na Lagoa Azul, Sapo?”, perguntou a Coruja, curiosa.

– “Porque eu quero conhecer o mundo. Quero morar em outros lugares, e conhecer outros bichos que nunca conheceria na lagoa.”, foi o que ele respondeu.
E a Coruja achou aquilo muito engraçado, mas gostou dos motivos do Sapinho. E então respondeu.
– “Então eu vou te levar pra onde você quiser. Mas primeiro você me ensina a virar pedra.”

E o Sapo Azul gostou daquela troca, e ensinou à coruja a arte de se transformar em pedra. E foi assim que a primeira coruja aprendeu o contra-feitiço que permitiu que as corujas começacem a comer sapos azuis da Lagoa Azul e duendes da beira da água, mas essa já é outra história.
O que importa é que depois disso, a Coruja pegou o Sapinho Azul nas garras de novo e os dois saíram voando pela noite.”

Anúncios

Read Full Post »

Os Deuses são os maiores mentirosos de todos. Mas foi mais ou menos assim que ele me contou essa história, na sala vazia daquela casa em Copacabana, no dia 23 de abril.

Ou será que fui eu mesmo que a contei assim? Se for, que Dánloth me perdoe. O Ressonhar está mexendo com todos nós…

“DánLoth observava de longe o casarão que repousava sobre o rochedo negro. Muito além da visão dos olhos, ele sabia dentro de si, como quem passa a língua em um dente que perdeu a firmeza, que naquele momento a casa rachava por dentro e estava condenada. Saberia o que estava por vir? Talvez não soubesse, embora soubesse bem o que vinha fazer ali, e imaginasse o que poderia vir depois. Era, afinal, o Senhor da Imaginação até que decidisse o contrário. E o faria, muito em breve.

Saltou do rochedo do qual observava a casa e pousou, leve como um gato, sobre o telhado que cobria a grande sacada que fitava o Mar do Adormecimento. Em outro momento teria sorrido enquanto fazia aquilo. Fazia tempo, embora fosse ele um ser além do tempo das Ilhas, que não saltava ou voava. Mergulhou em direção ao mar, rente à borda do telhado, e estendeu rapidamente os braços para segurar-se na viga que sustentava o telhado. Com um movimento rápido, impossível talvez para outros moradores das Ilhas, girou o corpo enquanto segurava-se na viga e reverteu sua queda em um salto para trás, e para dentro da sacada. Não ficou surpreso por encontrar Sboranágh fitando-o quando aterrisou. Ele sabia que havia feito barulho suficiente para alertá-la. E sabia também que ela não se impressionava mais com seus feitos.

(mais…)

Read Full Post »

Da mesma forma que a vida dá suas voltas, a gente sempre acaba tropeçando de novo em velhos escritos. Ontem, fazendo uma pesquisa em velhos escritos em busca de algumas pontas soltas, me deparei de novo com a quarta parte de minha “fábula-em-capítulos” O Cavaleiro e o Dragão (aqui). Se já a achava mal escrita antes, hoje a acho ainda mais sofrível em seu contar. Mas a história que conta continua falando ao menos comigo (se não falar com mais ninguém). Acabei achando algumas conexões entre aquele texto e o que escrevi ontem. Os motivos me são mais do que óbvios, embora creio que não fariam sentido para ninguém mais além de mim.

Tenho muito mais a escrever hoje.

Read Full Post »

Depois de uma(s) inspiradora(s) conversa(s) ontem à tarde, sinto que deveria retomar o conto-encantado-folhetim O Cavaleiro e o Dragão (publicado até o 6º capítulo aqui e no Overmundo) e a história encantada Delianárra (da trilogia Arranárra, Delianárra e Lothienárra). Mas creio que neste momento o Acorda Para Sonhar seja minha prioridade. Então, vamos ver o que vou fazer…

UPDATE: Para quem quer achar os capítulos de “O Cavaleiro e o Dragão” publicados no Overmundo, também os estou indexando aqui.

Read Full Post »

Acordei com o estrondo que pensei ser um trovão. Não sabia de onde vinha toda aquela névoa e aquele vento. Fiquei confuso ao ver o céu vermelho e as nuvens cor de chumbo que galopavam na ventania. E havia mais estrondos, um atrás do outro. E o vento trazia um gemido que podia muito bem ser dele próprio.

Não me lembro como fui parar ali. Não me lembro também de onde vim, ou do que aconteceu antes. É como se tudo fosse começar ali, e estivesse apenas começando.

Percebi que estava de pé, e perdí o equilíbrio. Mas, estranho, toda aquela ventania que eu podia sentir na pele parecia não querer me derrubar. Sentia-me como um espectador de um espetáculo que ainda desconhecia. Um convidado. Especial…

Ouví um estrondo muito mais forte. Estremecí. Me voltei, e vi ao longe uma planície que se rachava ao meio e se desfazia em grandes torrões de terra, árvores gigantescas e outros detritos que eram arrastados pelo vento que gemia, desfazendo-se em poeira brilhante diante de meus olhos. Era belo e assustador. Grãos de poeira brilhante tocaram meu rosto. Pareciam gelados, mas era um frio agradável, e tinham um cheiro familiar que eu não conseguia recordar do que era. Fecho os olhos e estico os braços, tentando abraçar a poeira brilhante que me banha. Me sinto bem. Feliz e triste de um jeito estranho e ao mesmo tempo, e cheio de vigor.

– “Estou sonhando novos sonhos.”

Levo alguns momentos para entender que aquela não era minha voz. Naquele momento não sabia se quem falava era eu, pois bem poderia ter sido… eu acho. Abro os olhos e o vejo ao meu lado, familiar e estranho como só nos sonhos pode-se ser. Seus olhos eram do verde que dá sentido à cor, e seus cabelos (negros?) dançavam vigorosamente na ventania. Quem era ele, que eu sentia conhecer tanto mesmo sem saber dizer quem era?

– “Isto é o Dessonhar. É a forma voltando ao estado primordial para ser novamente tecida”, explicou. Era como se eu já soubesse.
– Por quê estou aqui?
– “Porque você faz parte da minha imaginação.”

Acordo com a sua voz e o barulho irritante do despertador nos ouvidos…

Tem mais, muito mais, e venho escrevendo quase todo dia. Só não me pergunte para onde vai.
Curiosamente só hoje li o Neil Gaiman falando que só conseguiu começar a escrever suas histórias até o fim quando descobriu que era normal não fazer idéia de onde elas iriam chegar, ou do que estava fazendo.

Read Full Post »

A gripe embota minha mente e meus sentidos.
Meus pensamentos param no ar. Sigo sem pensar.
Reconheço uma paz que há muito não tinha lugar.
Acho que finalmente esta noite vou dormir…
…e sonhar.

As verduras dos vales de A Tir Feu dançam
logo além dos olhos, onde só podiam ser encontradas
quando se deixa de procurá-las.
Liberto do pensar, ir incessante ir e vir,
consigo finalmente apenas ficar comigo mesmo…
…e sonhar.

Read Full Post »

L’th sentou-se na beira da calçada, com os longos pés tocando a areia da Praia Vermelha, e se deixou ficar lá. Fitava o sol que se punha, tão inalcançável. O’Dúireagh o olhava sem jeito. Por vezes ficava perplexo com L’th, e não sabia como reagir. Então apenas o olhava e esperava para ver o que faria. Mas L’th ficou lá, sem dizer nada, sem esboçar qualquer reação, olhos púrpuras perdidos na imensidão do mar que abraçava o dia e trazia a noite por trás do sol que ia embora.

– “Você está assim porque falei dos rumores da volta dela, homem?” O’Duireág tentou começar um assunto.

L’th parecia não ter ouvido, mas seus olhos pareciam mais úmidos, mareados. O’Duireág fez menção de falar alguma coisa, mas L’th o interrompeu ao levantar-se da calçada e caminhar em direção ao mar alagoado na Baía da Praia Vermelha. O’Duireág o seguiu.

– “É por conta dela? Por conta da artesã de Atirfeu?” Insistiu O’Duireág, perplexo.
– “Sim e não, cluracão.”
– “O que é então. Você parece triste.”
– “Triste? Sim e não. Sentindo, sim. Sentindo muito. Sentindo como não estava mais acostumado…”
– “Eu não entendo. Você tem sempre que ser tão complicado?”
– “É você que finge que não é, cluracão.”

O’Duireág se calou. Ele também sabia que sentia. Ficou também observando o mar que era pouco a pouco engolido pela noite. Quase não ouviu quando L’th continuou a falar, com uma voz suave e embargada que ele nunca havia ouvido antes…

– “Não é só por ela que me emociono nesta tarde. É por ele. Pelo caminhante que cantou as ilhas. Por DánL’th… É a ele que amo acima de tudo, e também tenho medo que volte. E com a volta dela, ele também irá voltar. É assim que é, e é assim que ele é. Voltará. Eu não sei o que fazer sobre isso. Por vezes era mais fácil quando ele estava em outro mundo e eu podia me esconder e fingir que nada mais existia além de mim. Mas ele é parte de mim, eu sou parte dele, e por isso não posso deixar de amá-la e amar a ele ainda mais agora que se aproximam.”

O’Duireág não sabia o que dizer frente a tudo aquilo. Era ao mesmo tempo complexo demais e familiar demais. Sussurrou apenas um “eu entendo” quase inaudível, e suspirou profundamente.

O alto senhor feérico e o cluracão ficaram observando o mar até que a noite os abraçou. E depois foram embora andando pela praça em um silêncio cúmplice.

Read Full Post »

Older Posts »