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Posts Tagged ‘faërie’

“But I’ve always had this sense that there’s something out there, waiting for me. Not here, in the World As It Is, but in the dreamlands. That there’s a place for me in Faerie and I’ll be there one day if I can just be good enough, or patient enough, or tenacious enough. Or…- It’s a place where I’d be home, really home. I want it so badly sometimes that just thinking about it hurts.”

-Jilly Coppercorn “The Onion Girl” -Charles de Lint

Existem tantos órfãos e desterrados das “outras terras” neste mundo…

E eu aqui me perguntando se há mesmo algum sentido nisso tudo. Se há mesmo um outro lugar diferente, que justifique e explique a minha inadequação a este mundo onde vivemos. Ou se seremos, eu e eles, apenas loucos desalinhados, sendo lentamente mastigados por um mundo que não conseguimos acompanhar…

É dificil separar a fuga da vontade justa de “voltar para casa”, principalmente quando você já não sabe mais se tal “casa” existe…

Tudo que sei que é este aqui não é o meu lugar, este não sou eu, e isto não está certo.
Queria a sensação de mágica e sentido de volta.
Sinto como me perdesse mais e mais a cada dia…

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Peguei emprestado o nome de meu conto inacabado* para dar título a este post pois, cá entre nós, ele não poderia ter outro nome…

Depois de alguns dias frenéticos tentando (e não conseguindo) trabalhar, cansado demais para criar e com trabalho atrasado demais para descansar — o que acaba virando um impasse meio ridículo — finalmente consegui ter uma excelente e sonhadora (embora cronológicamente curta) noite de sono. E como sonhei! Foram tantos e tão variados sonhos, que vez por outra despertava no meio da noite e pulava da cama para anotá-los. Visitei tantas terras e reencontrei tantas pessoas imaginárias ou não que, confesso, acordei meio zonzo.

Depois de fazer meus exercícios de decisão de como seria meu dia, me coloquei a ler minhas anotações. Impressionante! Estava tudo lá! O pescador que se perde na tempestade e chega nas ilhas imaginárias, o pai e o filho que guardam o mar contra o peixe demoníaco, o rei-pescador, o rochedo com as três bruxas que apenas parecem boas, a Floresta dos Príncipes onde a discípula do Coyote vai se encontrar com a Senhora das Corujas para descobrir uma receita, o gnomo caçador de Bargheests, a Floresta dos Reis, os pequeninos beijadores de nariz, os cogumelos vermelhos, a Corte Invisível dos Sprites, a mão amputada do forasteiro, o peixe com o anel no estômago, o Velho Caminhante, o Dragão que se apaixonou pela Árvore, O Deus que cantou o Mundo e se esquece de si mesmo para se reencontrar, a caixa misteriosa entregue ao navegante, o navio inteligente e sua capitã, a ilha dos corvos com sua única árvore, a espada no meio dos girassóis, a Princesa Desencantada, o espelho que captura a alma daqueles que se miram envaidecidos, o jovem Cavaleiro e seu Dragão nos céus de Armach, os anões que não sabem o significado da palavra amor, os gigantes que apostam corridas em nuvens e as duas ninfas que brincam no lago…

Tudo…

Em uma noite eu sonhei um mundo inteiro.


* no conto “acorda pra sonhar” o protagonista é despertado do transe do dia a dia frenético da vida urbana por um insólito encontro com seu alter-ego onírico dentro de sua casa. Nada mais revelo, pois gosto de surpresas.

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Há algum tempo estou não apenas me preparando para escrever este texto, mas também sentindo uma grande falta dele como substrato para dar um pouco mais de sentido a tantas de minhas reflexões. Vamos, neste post, tentar jogar alguma luz sobre o complexo e absolutamente fascinante conceito de Subcriação elaborado (ou revelado) por J.R.R.Tolkien, que não apenas ilumina a arte da narrativa fantástica como lança também sua luz sobre a dimensão divina do ser e sobre algumas descobertas da física quântica.

Para começar, e tentar colocar em poucas palavras o que toda a literatura Tolkeniana apenas começou a explicar, vamos tentar criar um esboço de definição do que é a Subcriação:

Subcriação é o poder de conceber, com o uso da imaginação e da manipulação quase mágica da linguagem (idéias e conceitos), uma dimensão outra de realidade, com entidades várias, cuja existência é conjurada unicamente pela capacidade de imaginação do ser. Trata-se de conjurar a existência de algo antes inexistente, ou antes inexistente naquela forma, pela pura capacidade de imaginá-lo e experienciá-lo em sua imaginação. Assim concebido e trazido à realidade (mesmo que apenas a uma realidade secundária), este ente passa a existir e deve sua existência unicamente ao poder imaginador (subcriador) de seu imaginante.


Admitindo que minha definição foi um bocado canhestra, e talvez não muito clara, vamos às palavras de um dos mais hábeis subcriadores de nosso mundo a respeito da Subcriação. Nas páginas 28 e 29 de seu “Sobre Histórias de Fadas“(edição brasileira da Conrad, de 2006), Tolkien fala um pouco sobre a Subcriação:

“(…)A mente humana, dotada de poderes de generalização e abstração, não vê apenas grama verde, mas discriminando-a de outras coisas (e contemplando-a como bela), mas vê que ela é verde além de ser grama. Mas quão poderosa, quão estimulante para a própra faculdade que a produziu, foi a invenção do adjetivo: nenhum feitiço ou mágica do Belo Reino é mais potente. E isso não é de surpreender: tais encantamentos de fato podem ser vistos apenas como uma outra visão dos adjetivos, uma parte do discurso numa gramática mítica. A mente que imaginou leve, pesado, cinzento, amarelo, imóvel, veloz também concebeu a magia que tornaria as coisas pesadas leves e capazes de voar, transformaria o chumbo cinzento em ouro amarelo e a rocha imóvel em água veloz. Se era capaz de fazer uma coisa, podia fazer a outra, e inevitavelmente fez ambas. Quando podemos abstrair o verde da grama, o azul do céu e o vermelho do sangue, já temos o poder de um encantador em um determinado plano, e o desejo de manejar este poder no mundo externo vem a nossa mente. Isso não significa que usaremos bem esse poder em qualquer plano. Podemos pôr um verde mortal no rosto de um homem e produzir horror, podemos fazer reluzir a rara e terrível lua azul, ou podemos fazer com que os bosques irrompam em folhas de prata e os carneiros tenham pelagens de ouro, e pôr o fogo quente no ventre do réptil frio. Mas numa “fantasia”, tal como a chamamos, surge uma nova forma: o Belo Reino vem à tona, e o Homem se torna subcriador.

Assim, um poder essencial do Belo Reino é o de tornar as visões da “fantasia” imediatamente efetivas através da vontade. Nem todas são belas, nem mesmo salutares, certamente não as fantasias do Homem decaído. E ele maculou os elfos que têm esse poder (em verdade ou em fábula) com sua própria mácula. Este aspecto da “mitologia” — a subcriação, não a representação ou a interpretação simbólica das belezas e dos terrores do mundo — é muito pouco considerado, em minha opinião.(…)”

O que Tolkien está nos apresentando neste e em tantos outros trechos desta de outras de suas obras é que a própria faculdade de imaginar algo, rearranjar-lhe a natureza ou as características, ou mesmo sua relação com o universo que o cerca, é em si só um ato de criação cujas consequências são admiráveis e fantásticas. É a própria faculdade de subcriação, o poder de criar com a imaginação, que Ilúvatar concede aos Ainur no Ainulindalë de O Silmarillion — onde descreve a criação e a primeira era da Terra Encantada de (que significa, em élfico, “isso é” ou “deixa ser” — palavras de Ilúvatar que realizaram a subcriação ainuriana), onde se desenrola numa era posterior a sua famigerada saga d’O Senhor dos Anéis.

Ao fundir ou, mais do que isso, identificar o poder subcriador do fabulista e do contador de histórias encantadas com o poder dado por Ilúvatar aos Ainur no Ainulindalë, Tolkien está fazendo uma afirmação discreta e refinada, mas profundamente poderosa — a de que o poder da subcriação é o que nos torna deuses (como o fez com os Ainur). Da mesma forma Tolkien narra no mesmo Ainulindalë que Ilúvatar teria dado aos elevados Ainur o poder e o privilégio de nomear aquelas coisas que criaram, e que estes nomes passariam a ter um enorme poder, pois tornariam-se parte da criação — o que não é senão um mito do surgimento da linguagem, a qual é, enquanto elemento organizador de idéias e conceitos, uma ferramenta fundamental à própria faculdade subcriadora. Em um outro trecho de “Sobre Histórias de Fadas” Tolkien também faz uma breve elaboração sobre linguagem e mitologia, quando diz:

“(…)A opinião de Max Müller, a visão da mitologia como “doença da linguagem”, pode ser abandonada sem remorso. A mitologia não é nenhuma doença, porém pode adoecer, como todas as coisas humanas. Da mesma forma alguém poderia dizer que o pensamento é uma doença da mente. Estaria mais próximo da verdade dizer que as línguas, em especial as européias modernas, são uma doença da mitologia. Mas ainda assim a linguagem não pode ser descartada. A mente encarnada, a língua e o conto são contemporâneos em nosso mundo.(…)”

Posto isso, Tolkien coloca a linguagem e o mito como elementos inseparavelmente entrelaçados, de modo que geram e devoram um ao outro em seu próprio ciclo e, a meu ver, dá a entender (como se confirma em vários outros trechos) que o mesmo processo que de uma forma gera linguagem e mito, também gera a narrativa fantástica (esta, irmã do próprio mito) e toda a invenção humana — e tudo isso é fruto e, ao mesmo tempo, matéria prima do divino poder da subcriação.

Dando mais um ousado passo à frente, é possível conectar a idéia de subriação aos mais arrojados conceitos da física quântica, nos quais o Universo só existe pois está sendo não apenas observado, mas moldado pela imaginação e pela percepção. Dando às mãos a Tolkien e Fred Alan Wolf (que maravilhosa companhia!) podemos chegar à conclusão de que não apenas o poder da subcriação é a essência de toda a arte, linguagem e fantasia, mas também o elemento que molda o universo à imagem e semelhança de nossas banais ou ousadas imaginações. Posto isso, somos todos criadores (ou, mais corretamente, subcriadores, senhores do rearranjo livre da realidade) — deuses — e a “chama secreta” que deu a existência a brilha no coração de todos nós.

Este é um dos motivos pelos quais eu digo com ORGULHO que eu sou um contador de histórias. Isso é uma reafirmação da nossa própria divindade.

“Eä Eru i estaina ná Ilúvatar Ardassë,
ar ónes minyavë Ainur i ner i híni sanweryo,
ar ner yo së nó ilúvë né ontaina.
Ar ten quentes, antala ten lammar lindalëo,
ar lirnentë, ar së né alassëa.

Nan andavë lirnentë ilquen erya
ecar pitya nótessë [sina lúmessë] ar hosta lastainë,
nan ilquen hanyanë minyavë sanwi Ilúvataro
yallon tulles, ar handessë nossento
palyanentë nan úlintavë.
Nan oi lúmessë ya lastanentë, entë tuller antumna handenna,

ar vanessë lindalento palyane
ar tulles marta sa Ilúvatar tultanë Ainur eryenna
ar quente ten taura lírë pantala ten analt’
ar analcarinquë or ya nó westanes
ar i alcar yesseryo ar i rille mettaryo elyaner Ainur,
yanen cawnentë ar carnentë úlamma…”

(fragmento do Ainulindalë em Quenya)

Namárië.

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É possível se contar uma história sem moral? É possível sequer se conceber uma narrativa que seja não moral, ou onde uma personagem possa ser realmente não moral? Se isto for possível, so o é em um Conto da Terra Encantada (e, insisto, a tradução é FaërieTale e não FairyTale) e tratar-se-á de uma das mais fabulosas demonstrações de Sub-Criação* e mesmo Meta-Sub-Criação*.

Estou sendo muito incompreensível?
Então vamos tentar esclarecer as coisas…

Toda moral é um código, uma estruturação, de valores. Valores são afirmações feitas a respeito de idéias, atos, objetos, pessoas e quaisquer elementos que se possa perceber. Quando se diz “o gato é bonito”, se está fazendo uma afirmação de valor. Quando se diz “eu estou achando este texto um saco”, esta é também uma afirmação de valor. Do mesmo modo, dizer que tal coisa é certa ou errada, ou que tal idéia ou coisa é boa ou ruim, são afirmações de valor (assim como dizer que alguma coisa existe ou mesmo que não-existe). Sobre estas afirmações de valor, de certos e errados e “melhores que” e “piores que”, se constrói uma moral. E não é que haja tantas “morais” assim, pois uma grande quantidade de afirmações de valor são tão entranhadas em nossas culturas que nem sequer sabemos que as levamos em nossas cabeças. Logo, podemos discutir se o aborto é “bom” ou “ruim” e, dependendo de nossos valores, este será “moral” ou “imoral” (contrário à moral). Por outro lado, se eu questionar a validade da afirmação de que “esta tela é real” ou mesmo da afirmação de que “você é real”, você pode me achar interessante, curioso, completamente maluco ou achar que ando lendo livros demais sobre física quântica, mas dificilmente esta afirmação estará em discussão para você (a não ser que você seja tão maluco ou maluca, ou quântico, quanto eu).

Pois bem, para encurtar uma explicação que pode ser muito longa, a partir de uma estrutura de valores se tece uma moral. Há quem diga que a moral é a própria estrutura de valores, mas isso não importa agora. O que importa é que, uma vez que existe uma ou várias moralidades, dado que existem valores e eles se estruturam sempre de alguma forma, torna-se então possível afirmar que não há nada que não esteja de alguma forma contemplado, seja positiva ou negativamente, pela moralidade. Posto isso, qualquer afirmação (e uma narrativa é construída de afirmações) carrega em seu seio uma enorme dimensão moral.

Se eu digo que “John pegou uma pedra e a jogou em Michael”, isso não tem, a princípio, uma implicação moral, não é? não é!? Mas é claro que tem! Logo de cara temos um ato que, dentro de uma estrutura moral, pode ser considerado certo ou errado. Na maior parte das vezes a “observação moral” desta afirmação dependerá, ou poderá ao menos ser modificada, por outras afirmações ligadas e complementares a ela como, por exemplo, “John jogou a pedra pois Michael estava fugindo com sua carteira”. Note a quantidade de questões morais (é certo jogar pedras nos outros? é certo jogar pedras em pessoas que tentam roubar suas carteiras? é certo roubar carteiras? um erro justifica o outro? o calor do momento, ou as emoções, justificam um erro? etc…) contidas apenas neste conjunto de duas afirmações. Será possível então escrever uma história não-moral?

Vamos tentar aprofundar um pouco mais esta questão (ou, se estiver cansado ou já estiver convencido de que não é possível escrever uma narrativa não-moral, pode pular para o último parágrafo). Vamos nos esforçar mais para buscar ao menos uma única afirmação não moral. Algo como “a pedra está no chão”. Vejam! Uma afirmação sem nenhum conteúdo moral, certo? Não é!? Err… acho que não foi desta vez que conseguimos também. Pode-se dizer que não há a princípio nenhuma questão que “pareça” moral envolvida nesta afirmação. Mas vamos olhar um pouco mais para a pedra e ver se não há aí nenhum valor envolvido. Antes de mais nada, o que é uma pedra? Sem precisar entrar em definições muito complexas, uma pedra é um objeto basicamente não-vivo (ou assim convencionamos acreditar) que e feito de… bem… de algum tipo de rocha. Mas no fundo isso não é uma pedra. Isso é apenas um nome (valor) e uma definição que o conceitua (mais valores) atribuídos àquele objeto. A mesma coisa vale para chão e até para a idéia de “estar” (sim, lá vamos nós para mais Metafísica Qualitativa Pirsiguiana!). Mas o que tem a ver isso com a moral? É aí que está o ponto! Lembram-se de que a moral é uma estruturação de valores? Se o nome é um valor, e eu estou usando naquela afirmação ao menos dois nomes (pedra e chão), além do conceito de estar, então afirmar que a pedra está no chão é uma reiteração (ainda que “au-passant“) da “validade” destes nomes e deste conceito enquanto formas de se expressar o fenômeno sobre o qual estou afirmando. Tá muito complexo? Agora que chegamos até aqui, dá para simplificar. Ao dizer “a pedra está no chão” eu estou dizendo que existe uma pedra, e que ela pode ser chamada assim, e que existe um chão, e que ele pode ser chamado assim, e que uma pedra pode estar no chão, a partir do momento que estou afirmando que ela “está no chão”. Weeew… que maluquice, duende! Pode ser maluquice, mas são afirmações perfeitamente razoáveis. Eu poderia questionar (e esta seria uma daquelas coisas que parecem inquestionáveis, pois estão incutidas em nossa percepção de mundo, mas que na verdade tanto podem ser questionáveis quanto vem sendo questionadas pela física quântica), por exemplo, que exista tal coisa como uma pedra. É! Eu posso! E agora você não vai ter só que afirmar que a pedra está no chão. Vai ter que me convencer de que há tal coisa como uma pedra para que ela possa estar ali no chão. A mesma coisa vale para o chão. Você afirmou que há um chão (e isso é um valor: “chão existe”, uma vez que algo pode estar “no chão”). Agora vai ter que arcar com as consequências. Prove que existem pedras, chão, e, por fim, que uma pedra PODE simplesmente ESTAR no chão. Mas não precisamos discutir nada disso se você quiser apenas afirmar que “a pedra está no chão”, assim como afirmar que “John pegou a pedra e a jogou em Michael” ou que “Mary teve seu filho pois considerava um absurdo realizar um aborto”. Mas você há de convir agora que estas três afirmações são profundamente carregadas de conteúdo moral (e que eu posso ser um imoral por isso, mas eu posso questioná-las enquanto afirmações de valor que são). E agora podemos, então, concluir que é IMPOSSÍVEL se escrever uma narrativa sem conteúdo moral?

Postas todas estas coisas, temos então que ficar atentos à moral de cada uma de nossas afirmações (e isso não apenas quando estamos escrevendo histórias ou fábulas). Cada afirmação carrega em seu seio uma enorme quantidade de consequências, e se as mesmas passam completamente desapercebidas no cotidiano, o mesmo não se dá quando se está construindo uma narrativa. Cada pequena afirmação utilizada na construção da história diz muito não apenas sobre o mundo que está sendo sub-criado, mas também sobre o olhar que você ora lança sobre ele (e partilha com o leitor). Quando se está escrevendo uma história, seus olhos são os olhos do leitor e seus ouvidos são igualmente partilhados mas, sobretudo, uma parte “a priorística” do seu juízo de valores também acaba sendo emprestada. O leitor pode exercer seu senso crítico a respeito daquilo que consegue enxergar, mas não a respeito daquilo que você já julgou e valorou antes dele. Desta forma é dado ao contador de histórias não apenas moldar um mundo e povoá-lo de personagens e histórias, mas também enfocar todo este ecossistema dinâmico com a luz de seu olhar narrador de forma a dar a ele tal ou qual nuance desejar. Cria-se vilões e heróis (e estes dois entes são elementos feitos de moral da cabeça aos pés, mesmo que não tenham cabeças ou pés), direitos e regras, premiações e punições naturais, e tudo isso pode acontecer por debaixo do tapete vermelho que você estende ao leitor, ou mesmo por debaixo do seu próprio nariz. Quando digo que ao escrever dizemos muito sobre nós mesmos, não estou falando apenas das nossas escolhas temáticas e de histórias, ou das dimensões morais mais aparentes. Estou dizendo que, ao emprestar seus olhos e ouvidos e tudo mais ao leitor, você está emprestando uma parte das janelas da sua alma e, inevitavelmente, das lentes que usa para enxergar o mundo sub-criado ou revelado a você. Estas são coisas que se deve ter em mente ao escrever. Toda história tem uma moral ou, mais do que isso, toda história é construída inteiramente de valores, moral e (com um pouco de imaginação, arte e fantasia por parte do contador) de um bocado de magia. É necessário se ter muita responsabilidade e atenção quando se utiliza a magia da criação…

Tudo isso me faz pensar que, na verdade, tudo neste universo é submetido à moral (ou às moralidades várias). Mas disso qualquer leitor de Pirsig já sabe…

Ou vocês também querem que eu explique? :)

Acho melhor voltar à minha fábula.
Espero que este enorme post sirva a alguém.


* Por mais que eu tente, nunca consegui achar um link ou texto sequer que explique estes conceitos de forma razoável. Por fim acabei escrevendo um eu mesmo, que pode ser lido seguindo a palavra hyperlinkada, ou clicando aqui.

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Por falar em histórias encantadas, foi uma verdadeira pedrada na cabeça ler ontem a parte dos escritos de Tolkien (em seu “Sobre Histórias de Fadas“) a respeito de sua definição e delimitação deste tipo de história. Não apenas ele consegue mostrar porque este tipo de encanto se restringe à literatura (estando perdido para o teatro, mesmo para o teatro shakespeareano), como também mostra muito claramente que em uma história encantada ou sobre o reino encantado não são os seres humanos que são o objeto central, e se o são, com suas percepções e emoções, não se trata então de uma história encantada.

Além disso Tolkien fala que a literatura de Fantasia (palavra a qual delimita magistralmente como o fluxo da Imaginação Subcriadora para a Arte) é um tipo de literatura à parte, que não se deve valer dos artifícios artísticos literários e deve se mergulhar na expressão do encanto. Isto é, que o escritor e seu ego saiam da frente, com todas as suas firulas e jogadas de palavras, e deixem que o puro encanto subcriado ou natural do Mundo Encantado tomem o centro do palco e da visão do leitor. Fabulistas devem ser então, os mais humildes dos escritores. Todo aquele encanto não os pertence, e embora sejam por eles trazidos à existência através de seu elevadíssimo poder de subcriação.

Depois de limpar a ferida, eu percebo que isso faz um enorme sentido. Acho que agora vou conseguir ficar em paz e escrever… do jeito que eu sabia lá no fundo, o tempo todo, que deveria ser.

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“The Summer King is a haunting, absorbing, and lavishly told tale set in both present day Ireland and the world of Fairy.

Laurel, an 18-year old girl who is grieving the death of her twin sister Honor, returns to Ireland and the scene of her twin’s death to try and find out who killed her sister. While the devastated family thinks it was an accident, Laurel, armed with her sister’s puzzling journals, believes her sister was led into something unsavory. She finds, in addition to other disturbing entries, odd references to little people, in particular one little man. She’s also starting to be plagued with dreams.

Upon arrival in Ireland, Laurel finds her old boyfriend Ian Grey, who she was with the day her sister died, still nursing hurt that she had left him. She blamed him for her not being there to save her sister. These young people have lots of angst and passion to work out and that alone could fill a book, but wait: There’s the small matter of a cluricaun, something like a leprechaun but a little darker. This little guy reminds me of a small Bacchus, always toting around his poteen and pissing drunk when he’s not lying through his teeth.(…)”

Uma história encantada com conflitos emocionais, passada na Irlanda e onde aparece um cluricaun safado? Eu QUERO este livro! :D

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“The Summer King is a haunting, absorbing, and lavishly told tale set in both present day Ireland and the world of Fairy.

Laurel, an 18-year old girl who is grieving the death of her twin sister Honor, returns to Ireland and the scene of her twin’s death to try and find out who killed her sister. While the devastated family thinks it was an accident, Laurel, armed with her sister’s puzzling journals, believes her sister was led into something unsavory. She finds, in addition to other disturbing entries, odd references to little people, in particular one little man. She’s also starting to be plagued with dreams.

Upon arrival in Ireland, Laurel finds her old boyfriend Ian Grey, who she was with the day her sister died, still nursing hurt that she had left him. She blamed him for her not being there to save her sister. These young people have lots of angst and passion to work out and that alone could fill a book, but wait: There’s the small matter of a cluricaun, something like a leprechaun but a little darker. This little guy reminds me of a small Bacchus, always toting around his poteen and pissing drunk when he’s not lying through his teeth.(…)”

Uma história encantada com conflitos emocionais, passada na Irlanda e onde aparece um cluricaun safado? Eu QUERO este livro! :D

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