Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘fragmentos’

fragmentos

“existem peças de lixo que já começaram a fazer parte da decoração. e não é assim às vezes com a vida? até o dia em que você joga fora um pouco mais do lixo, ou um pouco mais da vida.”

“guardara alí sua tesoura para nunca mais perdê-la. e nunca mais a achara.”

Read Full Post »

3 days.

– você não pode!

– se você diz, então não podemos. mas eu estou cansado de não poder. você também deveria estar.

– não. você não pode! isso não é certo!

– o que é certo?

– o certo é ser no mínimo razoável. se não a gente acaba sozinho.

– você está sozinho.

– não. não estou!

– sim, você está. nem você está aí. virou um quarto escuro e vazio onde não mora ninguém. não tem ninguém para atender a porta.

– como assim? mas você está aqui. e… e eu estou aqui também.

– estamos?

– ahhh… cut the crap!

– do you?

– onde você quer chegar?

– eu quero ser feliz. eu quero a poesia. quero a vida. quero a chuva e o vento novamente me abraçando. eu quero aquilo que você me roubou.

– eu não te roubei nada.

– sim. você me roubou a liberdade. me trancou em um lugar onde nem você consegue viver.

– …

– você tem medo de mim. veja… você nem sequer se olha no espelho. não quer ver seu próprio rosto!

– eu me olho no espelho sim. e vejo que os anos passaram…

– não. você se olha no espelho em busca dos anos que passaram. você não olha pra você mesmo. você não olha pra ninguém!

– é você que não olha pra ninguém! você que não se importa!

– não.

– …

– …

– não o que?

– você sabe.

– o que?

– você sabe que está errado. foi você mesmo que veio aqui. você sabe que está enganado, mas não quer aceitar. não quer aceitar nem sequer seus próprios motivos para vir até aqui.

– você me chamou…

– eu não tenho como fazê-lo. sou um prisioneiro, esqueceu?

– sim. mas você sabe que me chamou.

– não. foi você que sentiu minha falta. você sabe que precisa de mim.

– não!

– deixe de ser infantil!

– não!!!

– … (risada silenciosa)

– eu não gosto do seu jeito.

– gosta sim. na verdade, eu sou aquilo que você mais ama, mas você não me aceita, não me entende. você só me quer, mas não sabe me ter. só que não há escolha. um dia vai ter que aprender.

– eu estou confuso.

– eu sei. mas vou te contar. não existe resposta.

– corta a filosofia barata!

– você sabe que não é filosofia barata.

– não. eu sei que É filosofia barata.

– sabe? e se lembra o poder desta filosofia barata? você se lembra de como era quando eu abria as asas e voava, e te levava comigo?

– Sméagan…

– há muito tempo que você não pronuncia meu nome. obrigado!

– Sméagan… eu não sei o que fazer?

– Fala meu nome de novo? Me chama de todos os nomes? É tão bom!

– Sméagan… o que eu faço?

– que mudança. agora podemos começar a conversar…

– …

– a primeira lição é que somos o que somos, sentimos o que sentimos, e o vento sopra para onde sopra. é a primeira coisa que a gente aprende antes de aprender a voar.

– você não pode me dar uma resposta prática?

– abra a porta. me deixa sair. vem comigo. aprenda a me amar.

– …

– você tem três dias.

– vou pensar.

– você pensa demais. você tem três dias para abrir a porta, e você sabe por que.

– por que?

– não seja estúpido!

– é o Samhain?

– sim, mas não só isso.

– o que mais?

– lembre-se da vela, do manto estendido no chão, lembre-se do que aconteceu quando você caminhou conosco contra o sentido do Sol…

– …

– lembre-se dela.

– o que você quer dizer?

– eu quero dizer…. lembre-se dela.

– para quê?

– porque é por isso que você veio aqui.

– não… não foi.

– sim. foi. e você não sabe o que fazer com isso. mas a sua pergunta já traz no seio a própria resposta.

– eu não posso fazer isso. não faz sentido!

– o que é que faz sentido? você mesmo não faz sentido. somos criaturas paradoxais que você tornou opostas, mas enquanto eu estiver trancado aqui você não vai encontrar sentido, e nem vai sentir porra nenhuma, seu idiota! você sabe disso.

– eu devo caminhar contra o sentido do sol?

– não. você deve abrir a porta. me deixa sentir o vento. e aí a gente descobre o que faz.

– o vento…?

– é. o vento.

– ou o Vento?

– isso é o que vamos descobrir. me deixa sair?

– me deixa pensar.

– você tem três dias, garoto. aproveite-os bem. depois disso, você corre o risco de ser feliz de novo, ou de continuar sendo infeliz.

– ainda há tempo?

– o único tempo que há agora são três dias. depois, só há a imensidão.

– você sabe que em muitos momentos eu te odiei. em outros eu tive medo de você.

– você sempre teve medo, de mim e de tudo mais. tanto medo, que até te ensinaram a me odiar.

– irônico, né?

– os Deuses são irônicos. e nós também.

– Sméagan…

– … (um sorriso silencioso cheio de dentes)

– … eu te amo.

– até que enfim.

– me deixa pensar, e decidir o que vou fazer.

– três dias, garoto.

– será como o Cuélebre, como o Dâz…

– não. aquilo foi outro tempo.

– e como será então?

– você vai descobrir. pare de fazer perguntas que você sabe serem sem resposta.

– Sméagan…

– vou sentir saudades deste nome…. mas diga. o que quer?

– sinto saudades do Vento.

– eu sei. eu sinto.

– então…

– três dias.

 

três dias.

 

 

“you’re going to reap just what you sow…”

Read Full Post »

Mais um fragmento que pode ou não ser parte de “Acorda para Sonhar”…

…”era difícil enxergá-lo através da névoa do sonho. Não é como se ele não estivesse ali, mas sim como se naquelas condições o seu estar fosse inclompleto…
Não havia muito tempo para perguntar tudo que queria. Lembrava-se do outro sonho, quando ficara falando sozinho. Disparou a pergunta que mais o inquietava.
– Por que isso tudo está acontecendo? Qual o motivo do Dessonhar?
Dánloth sorriu, e sua imagem ficou ainda mais tênue na névoa.
Por um momento pensou que ele iria embora sem responder a pergunta. Mas ele o fez, e sua voz tinha tom de quem achava graça da pergunta:
– A imaginação flui, sempre. Ela não pode se estagnar. E todo fluxo traz no seio o fim de si mesmo e de um novo início. Até os Deuses morrem e renascem. E eu acho que já vou tarde…
Rodrigo ficou perplexo com a resposta. As névoas se fechavam, e Dánloth parecia ir embora sem dar um passo, desaparecendo. Mas depois de sumir, ainda se podia ouvir sua voz ao longe, confundida com o vento:
– Wottan me disse uma vez que os deuses são todos mentirosos, mas que nossas mentiras são tão reais quanto qualquer verdade, se as deixarem ser. Todos nós fomos enganados e transformados pelas mentiras de alguns deles…
Rodrigo sabia que ele estava falando d’Ele. Se já não era grande fã dos cristãos antes, agora sua fúria encontrava um sentido que dava a ela forma e cor. Sentiu-se mal, e levantou-se desajeitado da cama. Não teve tempo de chegar até o banheiro. O vômito saltou dele com pressa, espirrando no chão e na parede do quarto. Mas sentiu-se estranhamente melhor depois disso. Do chão, o vômito cheio de ódio quase parecia cantar para ele…”

Read Full Post »

“O tornozelo da moça tremia em espasmos, tanto, com tanta força, que um enfermeiro teve que ir até lá e segurá-lo para que ela não se machucasse. Jorge piscou os olhos para tentar recuperar o foco. Não deu. Parecia que havia uma névoa sobre tudo. Estava acordando. Era isso! Mas não estava entendendo onde estava, nem se lembrava como tinha ido parar ali. A moça estava nua da cintura pra baixo. Os enfermeiros colocavam um lençol sobre ela enquanto tentavam fazer algum tipo de procedimento. Jorge piscou de novo, forçando a visão. Sentia-se ao mesmo tempo constrangido e interessado pela nudez da moça. Respirou fundo e tentou se mexer para enxergar melhor. O corpo todo doeu, e não mexeu. Fechou os olhos tentando conter o desespero, tentando entender o que tinha acontecido e como havia ido parar ali. E foi então que alguém religou o áudio do mundo à sua volta. Foi uma explosão de gente falando, tinha gente gritando também e isso dava nervoso, e também havia ruídos de máquinas. Pareciam máquinas médicas. A lembrança veio para Jorge como um choque. Havia cortado os pulsos na banheira de casa, e foi sangrando até tudo ficar escuro. E então agora estava ali. Abriu os olhos, mas não tinha esperança de enxergar mais nada. Para lá das lágrimas que embaçavam sua visão, a moça que batia os tornozelos parecia estar acordando, e chorava também…”

Um fragmento de uma nova versão do conto não publicado “Na hora da saída.”

Acho que ficou mais escuro e desesperançoso, em respeito aos dois suicidas fracassados que o protagonizam.

Read Full Post »

Ainda sobre sonhos…

– Os sonhos bons podiam vir em série, noite após noite, continuando de onde pararam na noite anterior.

L’th sorriu. Um sorriso maroto que lhe era incomum.

– Isso já acontece. É o que vocês chamam de vida.

Read Full Post »

Palavras de conforto

Respirou fundo mais um trago do cigarro. Um suspiro mal disfarçado. Disse entredentes

– Se eu tivesse alguma palavra de conforto, eu gostaria de dá-la a você…

hesitou…

concluiu, soltando a fumaça

– …mas tem dias como hoje em que não tenho uma palavra de conforto nem sequer para mim.

mas para além da fumaça que dissipava não tinha mais ninguém para ouvir.

Sentia-se tão só que não conseguia sequer se relacionar com seus amigos imaginários.

Read Full Post »

A outra chave.

“Procurei mais de um par de anos a chave que abriria de novo a porta do poço profundo das terras ensolaradas, de onde verte cerveja, vida e sangue. Se ele tivesse me contado, eu não acreditaria. Mas a chave que eu procurava não era mesmo aquela. A chave mestra, aquela que abre os portões da torre branca que quase toca o céu, abre também todas as outras portas. E pelo visto ela estava, como eu já soube e não soube também, escondida no antigo jardim de flores brancas e alaranjadas. Aquele que sempre ficava à esquerda de onde quer que eu caminhasse…”

L’th.

Read Full Post »

Older Posts »