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Posts Tagged ‘gatos’

Não sei quando ela nasceu. De sua história eu só ouvi boatos e causos. Dela não sei mais do que aquilo que aprendí com estes tempos de convivência. E com ela reaprendí também a conviver com não-humanos, e aprendí até a gostar mais deles do que das gentes falantes barulhentas e complicadas…

É a minha rainha-gata da colina. Minha Fionnacáit.

Queen of the hill

No dia 2, quando completo 31 anos de vida, completa-se também nosso primeiro ano de convivência. Espero que ela continue por perto por muito tempo. Posso dar uma de durão, mas eu amo esta geniosa senhora branca…

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Lúti observava a chuva através da janela. Adorava tudo a respeito da chuva. O cheiro, as gotas na janela (ou no rosto), o vento refrescado depois da seca. Era a primeira vez que via a estação das chuvas em Brasília, e tinha a sensação de que havia algo de realmente especial naquela chuva.

Encostou o focinho na janela. Desde a noite que descobriu que era gente e gato, sonhadora e sonho, gostava de chamar seu nariz de focinho. A janela estava fria, mas o frio era gostoso. Através da janela borrada pela chuva só distinguia o mato escuro, as luzes da cidade à distância — um brilho esmaecido e indistinto — e o céu que tomara agora uma luminosidade entre o laranja e o vermelho. A noite parecia iluminada pela chuva, ou para a chuva, ou coisa assim. Tinha a sensação de que era algo realmente especial.

Ficou pensando nas coisas que havia escutado por trás das portas nas últimas semanas. Lúti gostava muito de escutar por trás das portas — desde criança, não era coisa nova, ou coisa que ela começara a fazer depois que descobriu que podia virar gato. Escutara Sinasecht falando para a Baronesa sobre a chuva que viria, e coma chuva iria despertar um dragão e também romper as crisálidas de algumas pessoas…

Era tudo muito novo pra ela. Estar em Brasília, então ver seus velhos sonhos destroçados, o desespero de se ver sozinha em uma cidade estranha, e então todas as coisas que aconteceram depois. A descoberta do outro mundo, e de sua verdadeira natureza. E então a casa da colina, Erick, Dairean, Sinasecht e seus sussurros e suas mãos que ela sabia que eram frias sem mesmo ter que encostar nelas, Otto e todas as outras fadas que ela sabia que existiam por ter ouvido falar, ou mesmo sem ter ouvido falar. O mundo, que pareceu tão maior quando ela entrou naquele ônibus para Brasília crescera em grandes e assustadoras ondas desde então, e não parava de crescer. E lá longe, em algum lugar, ela sentia que esta chuva estava novamente alargando suas fronteiras. E ela se sentia excitada e ao mesmo tempo assustada, porque essas coisas são sempre um pouco assustadoras. De repente sentiu-se muito pequena frente a tudo aquilo, e a chuva fina lá fora parecia rugir como uma tempestade, embora continuasse fina. Soube então, sem saber como sabia, que no Sonhar aquela chuva era uma tempestade.

E o Sonhar era a suprema vastidão que a chamava e a assustava ao mesmo tempo. E ela gostava disso. Sem vacilar, tomou a forma de gato e correu pelo quarto, pelo corredor, até a grande sala cheia de móveis que pareciam tão enormes agora, e ganhou o jardim depois de pular pelo janelão da sala que Seu Alcélio não havia fechado por algum motivo. Correu pela chuva, ouvindo ao mesmo tempo as gotas finas trazendo vida de volta pra este mundo e o rugido da tempestade que caía sobre o outro, e que parecia dizer alguma coisa que ela ainda não conseguia entender bem o que era. A curiosidade dos gatos a movia, e ela continou correndo na chuva, sem sequer saber para onde ia.

(imagem por yumedust no dA)

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Lúti observava a chuva através da janela. Adorava tudo a respeito da chuva. O cheiro, as gotas na janela (ou no rosto), o vento refrescado depois da seca. Era a primeira vez que via a estação das chuvas em Brasília, e tinha a sensação de que havia algo de realmente especial naquela chuva.

Encostou o focinho na janela. Desde a noite que descobriu que era gente e gato, sonhadora e sonho, gostava de chamar seu nariz de focinho. A janela estava fria, mas o frio era gostoso. Através da janela borrada pela chuva só distinguia o mato escuro, as luzes da cidade à distância — um brilho esmaecido e indistinto — e o céu que tomara agora uma luminosidade entre o laranja e o vermelho. A noite parecia iluminada pela chuva, ou para a chuva, ou coisa assim. Tinha a sensação de que era algo realmente especial.

Ficou pensando nas coisas que havia escutado por trás das portas nas últimas semanas. Lúti gostava muito de escutar por trás das portas — desde criança, não era coisa nova, ou coisa que ela começara a fazer depois que descobriu que podia virar gato. Escutara Sinasecht falando para a Baronesa sobre a chuva que viria, e coma chuva iria despertar um dragão e também romper as crisálidas de algumas pessoas…

Era tudo muito novo pra ela. Estar em Brasília, então ver seus velhos sonhos destroçados, o desespero de se ver sozinha em uma cidade estranha, e então todas as coisas que aconteceram depois. A descoberta do outro mundo, e de sua verdadeira natureza. E então a casa da colina, Erick, Dairean, Sinasecht e seus sussurros e suas mãos que ela sabia que eram frias sem mesmo ter que encostar nelas, Otto e todas as outras fadas que ela sabia que existiam por ter ouvido falar, ou mesmo sem ter ouvido falar. O mundo, que pareceu tão maior quando ela entrou naquele ônibus para Brasília crescera em grandes e assustadoras ondas desde então, e não parava de crescer. E lá longe, em algum lugar, ela sentia que esta chuva estava novamente alargando suas fronteiras. E ela se sentia excitada e ao mesmo tempo assustada, porque essas coisas são sempre um pouco assustadoras. De repente sentiu-se muito pequena frente a tudo aquilo, e a chuva fina lá fora parecia rugir como uma tempestade, embora continuasse fina. Soube então, sem saber como sabia, que no Sonhar aquela chuva era uma tempestade.

E o Sonhar era a suprema vastidão que a chamava e a assustava ao mesmo tempo. E ela gostava disso. Sem vacilar, tomou a forma de gato e correu pelo quarto, pelo corredor, até a grande sala cheia de móveis que pareciam tão enormes agora, e ganhou o jardim depois de pular pelo janelão da sala que Seu Alcélio não havia fechado por algum motivo. Correu pela chuva, ouvindo ao mesmo tempo as gotas finas trazendo vida de volta pra este mundo e o rugido da tempestade que caía sobre o outro, e que parecia dizer alguma coisa que ela ainda não conseguia entender bem o que era. A curiosidade dos gatos a movia, e ela continou correndo na chuva, sem sequer saber para onde ia.

(imagem por yumedust no dA)

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Desisti de escrever o que estava escrevendo. Bem, não é que eu desisti de escrever em si. É mais como se eu tivesse desistido de escrever aquilo que estava escrevendo, que não estava refletindo o que eu queria escrever. Alguns escritos simplesmente dão errado. E escritos não são como pessoas. Eles por vezes não encontram seu caminho. É melhor simplesmente amassar o papel em que se escrevia (ou o equivalente digital “close document” – “don’t save”), abortar, partir pra outra.

Fico então olhando a Fionna, minha gata, passear pela cozinha, ansiosa e frustrada pela estupidez de seu humano — eu — em ter esquecido de comprar comida para ela. Lembro-me de ter lido certa vez, ou mais de uma vez, que Neil Gaiman declarava que ouvia todas as histórias que contava de seu gato, ou seria gata? Não importa, ao menos pra mim, o sexo do felino. O que importa é que eu gostaria, ao menos uma vez, de poder ouvir uma história que a Fionna me contasse. Quem sabe se Neil me ensinasse a entender a fala dos gatos. Acho que seria a solução. Pois o contrário, a Fionna aprender com o gato, ou gata, de Neil Gaiman a falar a fala das gentes, poderia esbarrar no costumaz desinteresse dos felinos — dos dois felinos envolvidos, no caso. Fionna só quer comida, eu não conheço Neil Gaiman pessoalmente, e muito menos seu gato ou gata, e eu deveria estar tentando escrever as histórias que tenho pra contar neste momento em vez de escrever este post sem pé nem cabeça.

Mas de uma forma ou de outra, estas palavras me soaram bem mais honestas do que qualquer história que eu poderia contar neste momento. Queria poder contar uma história sobre gatos e gentes, e sobre suas histórias. E isso é justamente a idéia que eu precisava.

Lúti vai contar a história.

(e é assim que a gente recomeça. deixa a mente vagar pra fora da história, ronda um pouco que nem um gato procurando comida, e então — zás! — você reencontra a senda da história.)

Hora de voltar a meus escritos.
Espero que a Fionna ache comida. Seria terrível escrever com ela miando no meu ouvido.

Onde eu estava?

Ahhh, sim…

“Lúti observava a chuva caindo através da janela…

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Hoje aprendí uma ou duas coisas sobre a justiça e a sociedade dos gatos. Ainda me intrigo com algumas de suas particularidades, e de suas desconfortáveis semelhanças com nossas loucuras. Talvez tenhamos enlouquecido nossos gatos, ou eles simplesmente entendam algo, saibam de alguma coisa, que nem sequer desconfiamos em nossa soberba.

Seja como for, gatos que gatos são se resolvem entre si, e eu não tenho nada a ver com isso. Só os gatos sabem realmente os segredos da própria natureza…


Fionna, rainha da colina (de bagunça).

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Olho à minha volta procurando aquela gata. Não posso perder ela agora… Desde que a vi, gata perdida entre os blocos, eu a quis. Fico atento a cada movimento, cada sombra. Esse jogo de perseguição, tão antigo, é um tesão. Não posso perder ela agora! Desde que cruzamos nosso olhos nesta noite, eu soube que ela também não queria ser perdida por mim. Ela quer ser desejada, perseguida, alcançada e tomada. Eu vou achá-la! Ah, se não vou…

Corremos como bichos entre blocos. Ora eu a deixava ganhar distância, ora ela se escondia para que eu a achasse. Este é o nosso jogo. Eu a perdi depois daquela curva e… Não, ela está ali! Meus pêlos se eriçam quando vejo seu corpo longo e ágil correndo. Minhas pernas se esticam na corrida, minha vontade se alongando a cada passada. Cruzamos dois blocos, um estacionamento, um parque — correndo, correndo, as coisas passam rápido por mim — até que a alcanço. Sinto sua respiração cansada sob meu toque pesado, combinando com a minha. Nossas peles se encontram com força quando pulo — vencedor — sobre ela. Rolamos sobre a grama seca. Ela é minha gata eu sou o gato dela agora. Sobre a grama, entre os blocos, sob o céu e tudo mais, me coloco dentro dela. Alí roçamos e cheiramos, lambemos e gememos… e gememos… gememos.

Uma janela se abre sobre nós. Alguém grita um xingamento. Gente! Odeio gente! Uma pedra de gelo que é jogada em minhas costas e estraga tudo. Isso dói! Alguém joga cubos de gelo sobre nós e nos chama de gatos safados, grita que quer dormir… Corremos por instinto de sobrevivência, em busca de abrigo do perigo, para lados contrários. De meu esconderijo sob um carro posso ver o gelo derretendo sobre a grama que esquentamos. Posso ver a janela sendo fechada e alguém que ruma de volta para o sono entediado. Posso ver a noite se esgueirando sobre o para-choque do carro, mas não posso ver a minha gata. Nós nos perdemos, então, nesta noite…

Mas eu ainda vou achá-la! Ahh, se não vou!

Porra! Será que estes macacos não entendem o tesão?

Um contículo zooantropomórfico escrito na casa de um amigo nos idos de 2004, e publicado originalmente no Alriada Express em 20 de agosto de 2004.

Eu adoro gatos.

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