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Posts Tagged ‘magia’

Estava escuro. A dor era algo abstrato, presente e sem lugar. Apenas sentia. Por tudo que se lembrava, havia acabado de despertar. Fora de hora, no meio da noite. Sonhara? Não sabia. Estava escuro e estava doendo, e ele estava com medo. Tentou dormir de novo, mas não conseguia. A dor permanecia, como uma companheira que precisa falar e não te deixa dormir. Ele se resignou a apenas ficar lá, no escuro, e ouvir a dor.

A dor falou de descaso. Falou das farças que a gente encena para nós mesmos. Falou de fuga, e vício, e entrega. Falou de escolhas. Ou isto era apenas sua cabeça passeando enquanto a dor apenas falava sua língua de latejos e pulsos cortantes.

O que você sabe sobre os deuses? Ele quase podia ouvir a voz, mas sabia que vinha de dentro. Não havia mais ninguém dali afora àquela hora. O que sei sobre os deuses? Sabia. Sabia um monte de coisas. Mas o que sabia não o serve mais. É no escuro e na dor a melhor hora para começar a reaprender.

Os Deuses estão todos dentro de nós. São parte de nós, assim como somos parte deles. Muitos se esquecem disso. Na verdade, os Deuses são nós. Nós de sentidos, de imagem e imaginação. São confluências, rostos, presenças. São absolutamente reais em sua própria forma de serem reais. Assim como nós. O resto pode muito bem ser ilusão, pois é de outro mundo. Um mundo que é bem menos parte de nós, e nós dele, porque foi inventado. Só os deuses já estavam lá mesmo antes de serem inventados. Eles só aceitaram as roupas que ganharam de nós. E nós nos demos os Deuses da mesma forma que nos demos aos Deuses. Deuses são a experiência da divindade, como dela nos lembramos, como a ela conhecemos.

Quais são os seus Deuses? Ele podia novamente ouvir a voz, mas sabia que vinha de dentro. Tentou pensar em todos os Deuses que conhecia, e todos eles pareciam apenas lembranças estéreis. Mas ele entendeu. Estas são lembranças estéreis, de segunda mão. São apenas histórias. Quais são os seus Deuses? Quais são os rostos que você enxerga simples e naturalmente.

E então o portal se abriu, e ele enxergou seus Deuses.
E soube então qual era o caminho. E a cura fazia parte dele.

Om Namah Shivaiya. Om Namah Chandekayee. Jaya Jagatambe Eh Maa Durga, Maa Kalee.

Nós de sentido da divindade que é.

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Para Ele(s).

A Canção do Delirante Aengus
(1899)
Eu fui para uma floresta de nogueiras,
Porque minha mente estava inquieta,
Eu colhi e limpei algumas nozes,
E apanhei uma cereja, curvando o seu fino ramo;
E, quando as claras mariposas estavam voando,
Parecendo pequenas estrelas, flutuando erráticas,
Eu lancei framboesas, como gotas, em um riacho
E capturei uma pequena truta prateada.

Quando eu a coloquei no chão
E fui soprar para reativar as chamas,
Alguma coisa moveu-se e eu pude ouvir,
E, alguém me chamou pelo meu nome:
Apareceu-me uma jovem, brilhando suavemente
Com flores de maçãs nos cabelos
Ela me chamou pelo meu nome e correu
E desapareceu no ar, como um brilho mais forte.

Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos
Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,
Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,
E beijar seus lábios e segurar suas mãos;
Caminharemos entre coloridas folhagens,
E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo
As prateadas maçãs da lua,
As douradas maçãs do sol.

O Escolhido da Fada
(1899)
O cavaleiro vinha de Knocknare
E, quando cruzava os áridos campos de
YeatsClooth-na-bare; ele sentia
Caolte agitando seus cabelos ardentes
E Niamh chamando Venha, Venha para cá
Esvazie seu coração de seu sonho mortal.
Os ventos acordaram, as folhas giram pelo ar,
Nossas faces estão descoloridas,
Yeatsnossos cabelos estão soltos,
Nosos peitos estão arfantes,
Yeatsnossos olhos tem um brilho fugidio,
Nossos braços estão acenando,
Yeatsnossos lábios estão entreabertos;
Venha! E se alguém olhar sobre
Yeatsnosso tão desejado vínculo,
Nós estaremos entre ele e os feitos das suas mãos,
Nós estaremos entre ele e as esperanças
Yeatsde seu coração.
O cavaleiro está seguindo velozmente ‘entre noites e dias’,
E, onde poderá haver esperanças ou feitos tão
Yeatsapraziveis e belos?
Seu companheiro Caolte agitando seus cabelos de fogo,
E Niamh chamando Venha, Venha para cá.

Que os Deuses os tenham junto a si,
e que um dia voltem, se assim tiver que ser, para agraciar o mundo com seu amor.

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Sempre foi minha a vida que elas me trouxeram.
Sempre foram minhas as alegrias, e as dores.
Sempre foi minha a vida que me roubaram.
Como meu era meu tempo, meu princípio
e meu fim.

Meu encanto e minha magia sempre foram minhas…
Minhas! Inalienavelmente minhas,
por mais que lhes tentasse atribuir
a quem mais me encantasse.

Sempre foi meu o encanto que eu respirava
e as coisas belas que dançavam em minha alma.
Sempre foi meu o meu tempo, meu espaço
e o mundo que fica do lado de lá.

Toda a beleza da vida, toda a magia,
sempre esteve aqui, esperando meu olhar,
como uma visita muito esperada
que espera pacientemente à porta.

Por vezes incontáveis eu esqueço,
que todo o meu mundo sempre foi,
sempre, inalienavelmente, para sempre,
meu.

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Imagine um mundo onde a palavra tem literalmente tanto poder quanto a espada, onde as canções podem criar, desfazer e recriar, onde toda a vida é matéria de mito. Um mundo de fantasia e encanto, ambientado no imaginário mítico dos celtas insulares da Irlanda. Esta é a proposta do embrião de sistema narrativo IERNE: Celtic Fate, do meu xará Daniel M. Perez.

Vou acompanhar de pertinho o crescimento deste sistema narrativo e, se os Deuses quiserem, serei um de seus primeiros narradores. =)

Ierne: Celtic FATE

Meu xará DM Perez explica um pouco sobre a proposta do sistema:

Ierne: Celtic FATE is to be my roleplaying game of Celtic Myth set in a mythic Ireland-like setting. It is to be a game of heroes, monsters and magic, where the powers of the word are as strong as those of the sword. I have some specific design goals I want to hit:

  • Must be a simple game – I will keep rules to the bare minimum, character stats to the essentials, and setting information to just what is needed to spur the imagination. I want this to be a thin book that does not intimidate anyone when picked up.
  • Must be an introductory game – I want this game to be appealing to non-gamers, in addition to starting gamers looking for their second or third game to try.
  • Must be Celtic – may seem an obvious thing, but I want to keep it very much in mind. I want the game to capture Celtic myth and dish it out in all aspects of play. The rules and setting must convey the myths of the Celts.

With that in mind, here are a few reasons why FATE is the system of choice for me:

  • Descriptiveness – The combination of Aspects and Skills all based around words/statements make FATE a very approachable game, far more than seeing a sheet full of numbers with + or – signs attached to them. The character sheet should bring to mind a story, not remind someone of a math test.
  • Aspects – Celtic myth abounds with tales of how words have power, something not easy to convey in number-based systems. Aspects, as a game mechanic based on words, fits this idea perfectly. Whether it’s a title or a curse, and especially when we talk of geasa, it can be handled by Aspects.
  • Abstractness – FATE adapts very well to abstract thought since it can be very narrative. Combat, for example, can be carried out in terms of zones of effect, which can scale from the individual to the regimental level just as easily.
  • Unified Mechanic – What is known as the FATE Fractal, this is the concept that, in FATE, anything and everything can be described/statted using the same mechanics: Aspects and Skills. Once a person understands these concepts, the rest of the rules are easy to understand as they follow the same pattern.
  • Open – FATE is an open system released under the Open Game License, which means I have access to an existing pool of previous design work from which to draw inspiration and building blocks. It also means that my game will be open for others to tinker with and build upon.

So there you have it, my plans and some of my thought regarding Ierne: Celtic FATE. I hope you are excited and that you’ll come along for this ride.

A dica foi do meu antenadíssimo amigo e mestre Dudu Penna (@epenna)

Para quem não conhece o sistema narrativo aberto e livre FATE, vale conhecer.

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Estas parecem ser semanas cheias de reencontros com meus velhos escritos, proporcionados por comentadores conhecidos ou desconhecidos. Depois de reencontrar os “Caminhos“, e meus escritos míticos sobre a tribo metarecicleira, foi a vez de reencontrar uma anotação blogada sobre a Cobra Preta que Mama, uma lenda do nordeste brasileiro. (aliás, encontrei aqui também uma referência à dita cobra)

A anotação é uma das milhares de notas que me seriam preciosas se eu as reencontrasse, feitas no meu velho blogue Alriada Express. O que é mais curioso é que neste exato momento eu estava debruçado sobre um “mito” que me veio à cabeça agora mesmo enquanto comia um hamburguer ali no Steve*. Logo que estiver colocado em palavras escritas, publico aqui o mito de Ingatú-sem-corpo.

*ainda tenho que um dia largar mão da inércia para escrever sobre a hamburgueria do Steve.

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É incrível e maravilhoso como pequenas coisas podem nos arrancar do transe triste da depressão. As nuvens avançando no céu, rodeando o sol que dança entre as árvores ao som de tambor das trovoadas que rolam sobre as colinas… só isso, tudo isso… me fez me sentir vivo de novo!

Talvez hoje seja dia de dedicar algum tempo à minha escrita.

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Hoje acordei com uma disposição diferente. Não era preguiça, nem falta de vontade de trabalhar. Lavei meu carro, ajeitei as coisas que precisava ajeitar em casa, até tentei trabalhar — mas algo me dizia que não havia trabalho a fazer, e que outra coisa me chamava. Lembrei que havia marcado, de meio coração, o primeiro encontro de imaginários para amanhã. Não havia ainda sentado para juntar as centenas de anotações que havia feito para a Crônica de Changeling que pretendo re-iniciar no encontro, e decidí então quer seria isso que deveria fazer.

Depois de fazer as compras que a casa demandava (e esquecer de comprar comida para minha pobre companheira felina, que agora no início da noite desistiu de miar para ir caçar camundongos), me sentei na frente do computador e comecei a baixar os livros de que precisava, reler velhas anotações, fazer algumas muito poucas novas anotações, ler livros de regras, estudar sobre o que precisava estudar… enfim, assumir novamente o velho manto de contador de histórias.

E tudo fluiu naturalmente, como nos velhos tempos. Sem grandes arroubos, sem grandes bolas de fogo ou outros ocidentalismos associados à magia. Simplesmente, aconteceu. Redescobrí minha senda de contador de histórias, e o manto e o cajado de griô moderno novamente me recaíram leves e naturais nos ombros. Os personagens que antes me sussuravam no ouvido, há várias semanas, fizeram silêncio. Eles sabem que agora vou cuidar deles, e que não é mais necessário seu chamado constante. E é isso que vou fazer. Estou novamente contador de histórias, pois isso é o que eu sou.

E então descobrí que em algum lugar nas redondezas, começou a chover em meio à seca brasiliense. Quem disse que a mágica não está em todo lugar?

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