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Posts Tagged ‘mitos’

Este texto foi escrito na época da palestra sobre Mitoreciclagem que realizamos no Campus Party 2009, no Encontrão Intergaláctico do Metareciclagem. Hoje me cutucaram para voltar a isso, e eu voltei. E foi bom. =)

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Eu gosto de pensar em mitos como narrativas. Histórias que nos são contadas, histórias que contamos para os outros e para nós mesmos. Mas não é qualquer tipo de história. Trata-se de uma história poderosa, que carrega dentro de sí peças do quebra-cabeças de nossa visão de mundo e de realidade. As histórias que ouvimos e as histórias que contamos, e as histórias que vivemos, definem aquilo que temos por real e imaginário, certo e errado, bom e ruim. Somos todos seres míticos, mesmo que nem sempre estejamos conscientes disso.

Muitas pessoas costumam associar os mitos a um tipo de narrativa fantástica, que sabemos ser fantasiosa — não real, e que é geralmente povoada por deuses e seres fantásticos. Estas histórias podem ser mitos, mas na maior parte dos casos elas não são os nossos mitos. Mas por confundir estas histórias fantásticas com mitos, acreditamos viver em uma época não-mítica — e eu acredito que esta é uma idéia equivocada.

Mitos são histórias, sim. Histórias que podem ser sobre qualquer coisa, mas das quais derivamos nossas idéias e sentimentos sobre como o mundo é, como as coisas acontecem, o que é certo e errado, real ou imaginário. Na maior parte dos casos, nossos mitos não são mais sobre deuses e seres fantásticos, forças da natureza ou feitos sobrenaturais. Estes são, na maior parte dos casos, mitos de outros tempos e povos que absorvemos em nossos caldeirões de histórias, mas que não podem mais ser considerados os nossos mitos.

Nossos mitos são sobre pessoas e seus feitos. São histórias sobre empresas, governos, organizações, e sobretudo sobre pessoas que podem ou não ser pessoas como nós. São histórias sobre máquinas e estruturas abstradas, como as leis ou os estados, e nossas relações com elas. Nossos mitos são sobre pessoas que trabalham duro e acumulam muito dinheiro, sobre como as empresas e os governos são poderosos — tem o poder de manufaturar produtos complexos e mandar direta e indiretamente em nossas vidas, mitos sobre pessoas corruptas que se dão bem, sobre como doenças estranhas podem surgir do nada e nos matar, mitos sobre como a classe social que nascemos define quem somos e o que podemos fazer. Nossos mitos são todas aquelas histórias que ouvimos e, acreditando completamente nelas ou não, absorvemos delas algo que vai fazer parte da dinâmica pintura maior que é a nossa visão do mundo.

Se em alguns povos os mitos vinham de sacerdores e xamãs, viajantes e contadores de histórias, os nossos mitos hoje chegam a nós por muitos meios diversos: desde as conversas com o amigo ou com a vizinha, passando pelas escolas que frequentamos, lugares onde trabalhamos, até chegar na imprensa, nas empresas cujos produtos consumimos e os governos que nos regem.

Quando o ministério da saúde exige que todas as embalagens de cigarros apresentem fotos que representam os males do cigarro associadas a dizeres sobre os efeitos nocivos dos mesmos, isso é uma forma de difusão mítica. Podemos desconsiderar estas fotos e dizeres, ou prestar atenção nelas, mas de um jeito ou de outro elas reforçam a idéia de que os cigarros causam doenças — coisas que hoje são inquestionáveis, mas das quais muitas pessoas duvidavam a pouco tempo atrás, quando estas mesmas afirmações de valor mítico eram recusadas e desmentidas pelas empresas de cigarro, interessadas no consumo dos mesmos. Este pode não ser o melhor exemplo (foi o que me ocorreu agora) mas é uma amostra de como nos são contadas histórias que de um jeito ou de outro definem o que é real para nós.

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“…Tudo é narrativa. Aquilo que estamos vivendo neste exato momento é uma narrativa que vertemos sob nós mesmos. Aquilo que nossos sentidos captam, aquilo que interpretamos do que percebemos, se transforma em uma narrativa para nós mesmos quando nos dizemos ‘estou vendo um computador, ele está ligado na minha conta de Gmail, estou lendo um email do Daniel Duende que fala sobre mitos, e ele fala o seguinte…’. Quando conversamos, isso também é uma narrativa de muitos níveis. Eu estou te narrando o que digo, ao passo que você narra para você mesmo o que ouviu do que eu disse. Ao mesmo tempo, você narra para mim aquilo que está sentindo, através de suas expressões faciais ou corporais, ou de eventais palavras de concordância ou discordância que você diga, e eu narro para mim mesmo aquilo que estou vendo você fazer e ouvindo você falar a respeito do que eu estou te dizendo. Ao mesmo tempo, quem nos escuta está narrando para si mesmo aquilo que seus sentindos estão captando, e na mesma medida contamos a nós mesmos sobre as reações daqueles que estão assistindo a conversa. Sob a mesma ótica, estou narrando para você aquilo que quero dizer com estas palavras, e você, narrando para si mesmo o que entendeu delas. Que tal me contar agora o que acha daquilo que eu disse?”

Palestra sobre Mitoreciclagem no Encontrão Intergalactico do Metareciclagem, no Campus Party de 2009

Baixe aqui o áudio da palestra.

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Entre os povos que conhecem (e temem) essa besta, não existe sentença pior do que ter sua cabeça cortada e abandonada aos animais carniceiros. Porque é certo que o paavur virá e o comerá.

Quando o paavur come o corpo de um morto (e nem precisa ser o corpo todo, quase sempre basta a cabeça), a sua lembrança desaparece do meio dos vivos. Nem seus filhos, nem seus amigos, ninguém mais lembra que tal pessoa existiu.

Às vezes o paavur vem abrir túmulos à noite, para comer os defuntos enterrados. Por isso, o mais seguro é cremar os corpos quando se quer preservar a memória do morto.

Dizem também que, ao comer o cérebro dos mortos, o paavur consegue absorver suas lembranças. Quem come um paavur recupera todas as memórias de homens e animais que o habitavam, e então se torna ou um louco, ou um sábio ou um Ruvi (“narrador”), um mestre das histórias.

(do blogue Almanaque, dica do Paulo Bicarato, do Alfarrábio)

 

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Toda vez que a falta de energia elétrica arranca o verniz urbano do mundo que nos cerca, eu fico pensando em como a escuridão natural da noite é o ventre prolífico dos mitos.

As faces dos passantes ficam envoltas pela escuridão, um universo de possibilidades para a imaginação. Os cantos e os becos além das luzes de emergência parecem cheios de vida. O silêncio da morte dos eletroeletrônicos dá espaço aos ruídos da noite — distantes, insondáveis, vindos de lugar nenhum e preenchendo os espaços vazios de som. E uma vez que não estamos mais sendo bombardeados de luz e som como de costume, e estamos agora cercados apenas dos suaves vultos e sons distantes da noite, abrem-se as portas da imaginação. E a nossa imaginação desfila no palco escuro da noite sem luz.

No escuro somos mais do que nunca criaturas e criadores de nossos mitos internos, e nossos imaginários tomam vida.

É por isso que eu costumava escrever no escuro, iluminado apenas pela tela do meu computador…

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Eu mencionei que meu segundo artigo sobre os mitos e lendas do Brasil, vistos pela blogosfera, já foi publicado no Global Voices em Português também? De fato, já estou trabalhando no terceiro artigo, que trata sobre o Sací Pererê.

Querem saber? Se pudesse, eu fazia uns 7 artigos sobre os mitos, lendas, assombrações e imaginários brasileiros e latino-americanos. Não me faltam assunto nem tesão pelo tema.

Que São Eduardo Galeano nos abençoe. :)

UPDATE:
O terceiro artigo da série, sobre o Sací Pererê, já está no ar tanto no Global Voices Online quanto no Global Voices em Português. Espero que gostem.

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Foram publicadas (eu mesmo traduzí!) duas matérias (aqui e aqui) sobre mitos, lendas e assombrações da América Latina no Global Voices em Português. Leitura gostosa e interessante para pessoas que, assim como eu, são apaixonadas por histórias encantadas, mitos e lendas.

Estou agora mesmo terminando de formatar a tradução para o português da primeira parte da matéria (em 3 partes) que publiquei no Global Voices Online sobre mitos, lendas e assombrações do Brasil. A matéria não levantou muito interesse por lá. Vamos ver o que o público lusófono vai achar dela.

De qualquer forma, indiferente do interesse dos outros, escrevo e traduzo estes temas por paixão pessoal — e é esta que no fim das contas realmente importa.

UPDATE:
Meu primeiro artigo sobre alguns mitos, lendas e assombrações brasileiros (citado acima) já está traduzido para o português no Global Voices em Português. Quem quiser conferir põe o dedo aaaaquí, que já vaaaai feeeechar…

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Sempre que posso, estou comprando novos livros. Prefiro comprá-los em sebos — em parte por serem mais baratos, em parte por achar que é muito triste que um livro tenha apenas um ou poucos leitores — mas por vezes também os compro novos em livrarias.

Nestes últimos dias, comprei mais dois livros que agora estão morando em minha cabeça o tempo todo enquanto os leio. Um deles é uma coletânea do trabalho com contos de fadas “feministas” realizado por Angela Carter (embora eu ache o termo “feminista” um pouco duvidoso para caracterizarc material contido no livro), chamada “103 Contos de Fadas de Angela Carter” (Companhia das Letras, 2007). Embora discorde de alguns pontos do pensar de Angela sobre os contos de fadas e as fábulas, considero o livro um repositório precioso do repertório mundial dos contos de fadas aos olhos de uma mulher inglesa sensível e inteligente.

O outro livro que comprei é o segundo tomo de Memórias do Fogo (subentitulado “As Caras e as Máscaras”), do fantástico e ultra prolífico Eduardo Galeano (o mesmo de “As Palavras Andantes” e “As Veias Abertas da América Latina” (aqui em .PDF)), um fantástico apanhado romanceado das histórias, folclore e lendas da América Latina entre os séculos XVIII e XIX. O livro, escrito com a excelência constumeira de Galeano, me traz aquilo pelo que anseio ardentemente estes dias: as histórias do meu lugar, que me foram ora negadas, ora servidas de forma muito deturpada. É um tesouro, e prentendo comprar seus outros dois tomos em breve.

Estes dois livros caíram quase que magicamente do céu (ou vieram em tempo do Caldeirão de Histórias cósmico) neste meu momento de revisão e reaprendizado do meu lugar no munco, e da minha natureza enquanto contador de histórias. Acho que o resultado da leitura deles poderá ser sentido por aqui.

Só os Deuses parecem saber. Que sigam as Histórias.

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