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Posts Tagged ‘reflexões’

Do tempo que me permito não gastar com amor, tenho gastado demais com coisas que não estou bem certo se acredito. Depois de um Campus-Party cheio de encontros bacanas (mas ainda mais cheio de egos e danças-rituais blogueiras e muito trabalho)… Depois de dedicar quase todas as minhas horas na frente do computador a trabalhos sérios que não tem para mim muita poesia… Depois de ler tanto mas não ter tempo para digerir…
Sinto que o contador de histórias, o poeta, está esmagado debaixo da outra coisa que tenho insistido em ser — blogueiro, ou seja lá o que for.

Quando há alguns dias a Patinha me pediu para contar uma história, e eu não consegui, fiquei preocupado. O quê está acontecendo comigo de novo? Acho que o de sempre. Vivendo sem dose, caindo sempre de cabeça, e perdendo aquilo que é precioso em meio às minhas caças ao tesouro.

Mais do que disciplina, tenho que aprender equilíbrio.
Mais do que me transformar, tenho que aprender a ser.

E assim passam os dias.
Se não morrer, sobreviverei.

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O que é (e o que significa) ser escritor?

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É inestimável o valor daquilo que se pode dizer sem falar palavra alguma.

É incrível a balbúrdia que se pode fazer quando se tenta transformar em palavras aquilo que é indizível.

É encantadora a poesia que se faz em silêncio.

Agora cale a boca.

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Este era… err… é um post sobre o efeito que a escrita tem sobre o escritor (e não apenas o contrário), mas preferi deixar o inexplicável (inexplicável?) ato falho que cometí no título. Sabe-se lá por quê. Vai ver é porque achei engraçado…

Como eu estava dizendo, ou ia dizer, a escrita muda a gente. Não é apenas a experiência e a reflexão envolvidas no escrever. Há um algo mais. É como se algo daquilo que se cria, das imagens, das emoções, dos sentimentos, ficasse impregnado em nossa alma. Se tudo que escrevemos vem de nós, ou ao menos de algo que absorvemos do mundo, escrever “muda o nível” da nossa relação com aquilo que é matéria prima da escrita, e com o seu resultado.

Se antes de escrever uma história que me surge, os personagens me assombram e aporrinham, depois de escrevê-la eles se tornam quase amigos imaginários. Mesmo que não me demandem mais nem uma história, eles continuam por aqui, em mim, e eu posso sentí-los… e é bom. As emoções transmitidas também me afetam. E eu não penso de forma alguma que elas fossem minhas emoções desde o princípio. São por vezes emoções de uma história, de um ou mais personagens, que se realizam no ato da criação literária. Estas emoções, somadas da experiência criativa e da labuta literária, definitivamente mudam o escritor. E recomeça o processo, pois o escritor mudado também influencia sua obra, e a obra o influencia de volta.

Escrever é um casamento, é um ofício de vida e — quem escreve me entende nessa — escrever também é um alterador de consciência. O escritor que nunca ficou alterado ou inebriado com sua escrita, que atire a primeira caneta (mas por favor, não me atirem teclados porque isso machuca!).

Por fim, cada um escreve por seus motivos. Cada um experiencia a escrita, e se relaciona com ela, da sua própria forma. Aquilo que se escreve também influencia o processo. Mas uma coisa nos une a todos, nós escritores que se sabem escritores e escritores que ainda não se sabem escritores: escrever, pelo motivo que for, é fantástico.
(mesmo que seja só para comer gente muda)

O parêntese final é descartável, mas eu o achei engraçado.

Hora de dormir.
Amanhã eu conto pra vocês que a sexta parte de O Cavaleiro e o Dragão já está na fila de edição do Overmundo
Ops, já contei. :D

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Discussões psicoclínicas, metafísicas e culturais, somadas às minhas próprias reflexões fabulísticas e morais, me levaram de volta ao início daquela estrada. Cá estou eu olhando para a estante e pensando que é hora de reler “Zen e a arte da manutenção de motocicletas” (há um resumo não garantido dele aqui, para quem não o conhece), para reencontrar o início do fio da meada da Qualidade e do Bom e Ruim.

Quando nossa visão do mundo começa a ficar muito complexa, dá uma enorme preguiça de reestruturá-la para abarcar novas percepções e insights. Mas é justamente neste momento que devemos fazê-lo. “Keep it simple, stupid!“, dizem os sábios zen-carequinhas e os cabeludos e desajeitados evangelistas do código. E é justamente em busca da raiz da simplicidade que mergulho me Pirsig e Tolkien, tentando encontrar um espelho adequado para a pessoa e para o contador de histórias em mim.

Estamos em obras? Sempre.
Mas estamos trabalhando para melhorar os “serviços”(!?).

E chega de posts complexos e reflexivos!
Quando eu escrever novamente aqui, quero que seja sobre uma poesia ou um trecho de história, pois é para isso que estamos aqui, não é mesmo?
Chega de mostrar entranhas…
É hora de cantar e contar histórias…

Abraços do Verde.

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A cabeça está em greve, reivindicando espaço:
o campo energético mínimo de cada pensamento.
Cansando-se de ser um ônibus lotado,
revoga o dever de assentar os primeiros face ao direito
de assentar os últimos e os do meio.

Uma vez que apenas os pensamentos convenientes
estejam devidamente acomodados,
(fechadas as portas àqueles que não são simpáticos)
roga, ainda, o exercício da legítima defesa:
jogar janelas à fora os pensamentos vãos.

Um corredor vazio é também coisa que anseia.
Tendo, os pensamentos à beira de explosão,
comodidade para ir ao banheiro.
Tendo, os pensamentos transviados,
caminho livre atá o vestiário,
para trocarem roupa, nome, seios,
sexo, time, país, emprego, religião.(…)”

(trecho de Greve Geral, poesia da adorável Jubalize, moça que conheci acendendo um cigarro sentada à janela e concluindo que o tesão é a coisa mais importante da vida, enquanto gatas de almofada se refestelavam em suas almofadas, querendo mais atenção do que tudo mais…)

A minha cabeça também anda balançando perigosamente por aí, como um ônibus cheio demais. Os pensamentos por vezes caem pela janela e são deixados para trás, esquecidos em meio à balbúrdia de seus semelhantes. Na cabeça cheia demais, todos os pensamentos são pardos. Falta cor, porquê falta luz e ar, e todos sofrem de uma suave anóxia — eu e meus pensamentos — quando a cabeça está cheia demais. Mal consigo pensar. Mal consigo sorrir. Mal consigo ser, quando minha cabeça está tão lotada de pensamentos gritando por atenção que mal consigo decidir o que faço primeiro. Isso não é coisa que se faça consigo mesmo.

FORA VOCÊS TODOS, PENSAMENTOS!

Pronto… agora voltem a entrar, um por um, em fila indiana. Vou escolher quais de vocês são bem vindos e quais devem procurar outro caminho.

Pensamentos sobre histórias encantadas — entrem por favor. Sentem-se à janela. Podem acender um cigarro, mas tentem não incomodar os pensamentos sérios das cadeiras mais de trás.

Pensamentos sobre trabalho, podem entrar, mas não fiquem no caminho dos outros. Há espaço para todos, e se alguém estiver atrapalhando a viagem dos outros passageiros, terá que descer. Sim, isso também se aplica a vocês. Pensamentos como vocês eu posso encontrar a qualquer momento, em qualquer ponto de ônibus desta vida. Vocês são muito banais!

Pensamentos sobre a saudade que sinto de minha Brasília quadradinha, seca e cheia de belezas subterrâneas podem entrar. Podem também entrar todas as outras saudades, mas por favor, vão para o fundo do ônibus. Sentem-se lá no fundo, por favor. Não quero vê-los o tempo todo. Basta que estejam aí.

Pensamentos sobre meu ativismo sejam bem vindos. Sentem-se à esquerda e tentem não chamar a atenção do motorista a todo momento. Falem somente o essencial e serão atendidos. Incomodem-me e terão que descer. Não achem que são mais valiosos do que realmente são.

Pensamentos tolos, sejam bem vindos, mas também não atrapalhem a viagem dos demais. Não sentem-se atrás nem ao lado dos pensamentos encantados, e nem dos pensamentos de trabalho. É, vocês podem sentar-se lá atrás, junto com as saudades, se conseguirem se entender bem. Talvez façam uma bonita amizade.

Pensamentos raivosos de mágoas antigas familiares, acho que termina aqui a viagem de vocês. Não. Não os quero mais. Vão embora.

Pensamentos desnecessários e preocupações, eu me lembrava de ter dito em outra ocasião que não os queria mais. São inúteis! Vão fazer algo de útil desta vida, como virar soluções. Se algum de vocês resolver virar uma solução em vez de apenas um problema, serão bem vindos no próximo ponto…

Pensamentos sobre o futuro podem viajar de pé, já que são tão apresados. Mas não deixem suas bagagens pesadas baterem na cabeça dos outros pensamentos.

Pensamentos de solidão, eu os deixo ficar só desta vez, mas vão ter que se socializar com os outros.

E quem são vocês? Que outros pensamentos são estes que estão na fila? Não… não são bem vindos, nem os conheço! Vão embora! Então era isso — meu problema era, pra variar, com os pensamentos penetras que entram sem serem apercebidos quando se tem a cabeça como um ônibus lotado e desorganizado.

Estamos prontos agora?
Motorista, siga a viagem. E que seja uma boa viagem agora.

Vou andar na praia para ver algo belo e não racional. Já consigo pensar um bocado quando não tenho que pensar em nada…

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“Não me lembro que em que dia, mês ou ano. Lembro que estava muito frio, talvez julho, talvez 2001.
Foi de manhã, o telefone tocou, meu marido atendeu e eu imediatamente começei a chorar, ninguém teve que me dar a noticia, eu sabia que meu pai tinha morrido.
Também não me lembro de como fui parar no chuveiro, como a minha mala ficou pronta e nem como em instantes estava no aeroporto indo para São Paulo. Não sei como uma viagem de uma hora e meia durou só 5 minutos.
Quando desembarquei não sabia se tinha que ir para algum lugar ou se alguém ia me buscar. Por alguns momentos fiquei parada em pé com a mala na mão. Foi aí que vi a Elza Soares, me sentei do lado dela, baixei minha cabeça e esperei.

(extraído de uma blogada da Mariana no blog Idéias Estranhas, de PH e as Peixoto)

Estava decidido a só pensar em coisas alegres hoje, mas uma concessão se faz justa e necessária a esta blogada da Mariana Peixoto. Conheci a ela, suas irmãs, sua família, inclusive o pai referido no texto (a quem eu achava um cara muito bacana) quando era ainda um moleque de uns 6 ou 7 anos. Só isso, ler sobre a partida de alguém conhecido por quem tínhamos apreço ou sobre as emoções que se amontoam nestes momentos, já me tocaria o bastante. Mas o fato é que este texto me faz também lembrar do meu próprio dia sem norte, quando meu pai também tomou seu rumo para outra parte de sua viagem neste ou em outro universo.

Lembro-me que já sentia que o dia estava estranho e frio desde seu início. Não havia dormido em casa, esticando uma soneca no sofá de um outro amigo depois de sua festa de aniversário. Também não havia ido trabalhar. Jogara Tagmar por toda a tarde, numa sessão de RPG que não me divertiu em nada. Sim, sentia que o dia estava estranho, mas achava que era só a depressão eventual causada pela ressaca do dia anterior. Quando, depois de outras errandas pela cidade de Brasília, cheguei à casa de um velho amigo artesão de fantasias, sentia-me particularmente estranho. A pequena festa que lá se desenrolava, com risadas femininas estridentes e partidas de algum jogo de tabuleiro obscuro do qual não me lembro, iluminadas por abajours antigos, não me interessava em nada. Ainda, eu não ia para casa. Continuava lá, encostado no sofá, fingindo que ria.

Quando o telefone tocou, não sei se senti algo estranho ou se já era a estranheza que sentia o tempo todo que se fazia mais sentida — não me lembro mais. Quando meu irmão me disse ao telefone que meu pai havia passado mal e estava hospitalizado, tentei me animar dizendo que ele já havia sobrevivido a um infarto antes, mas por fim perguntei se ele estava morto. Meu irmão disse que não, mas naquele momento sentí que ele estava. Me levantei e fui até a sala vazia da casa. Meus ouvidos zumbiam um pouco, e eu tentava relembrar de toda a preparação que havia imposto a mim mesmo nos últimos anos — uma preparação para lidar com aquele momento fatal e inevitável. Sentia-me sereno, mas ao mesmo tempo anestesiado. Falei com as paredes e com a escuridão da sala como se falasse com meu pai, racionalizando que se ele não vivia mais naquele corpo que me concebeu e me abraçou, vivia agora então em todo lugar. Disse-lhe que podia ir, que seu ofício de criar seus filhos estava bem concluído, e que seguiríamos em frente. Não sabia se falava a verdade ou se mentia para tranquilizar o espírito de meu pai que partia. Sabia que descobriria com o tempo. Descobrí.

Quando cheguei em casa, pouco tempo depois, sem me lembrar também ao certo como tinha chegado até lá, mesmo assim não conseguí chorar. Havia roupas espalhadas pelo corredor da casa que sempre fora tão arrumada quando meu pai era vivo. Roupas espalhadas de pessoas que haviam se vestido com pressa frente à emergência. Aquele era mais um sinal de que aquela não era mais a casa de meu pai. Meu pai nunca permitira roupas jogadas no chão do corredor de sua casa. Mesmo assim, eu não conseguia chorar.

Sentia que havia muito a se fazer, mas não sabia o quê. Previdente, liguei para tirar da cama um velho e confiável amigo a quem recrutei para me ajudar naquele momento. Sabia que poderia precisar. Não confio, nem nunca confiei, em qualquer semelhança de infalibilidade de minha parte, e naquele momento alguém tinha que não falhar. Ele já estava a caminho quando desligou o telefone. Sentei-me então em frente a meu computador e mandei um email para uma ex-namorada, dizendo a ela que estava muito equivocada se algum dia achara que eu era fraco ou covarde. Sentia naquele momento uma pontada de rancor por esta injustiça, proferida por ela dias antes, e agora que sabia que era e tinha que ser forte, não podia continuar deixando aquela acusação sem resposta. Descarreguei tudo o que podia naquele email que, assim como o dia, também não tinha norte. Ela nunca me respondeu, mas pelo que me consta ainda acha que sou um cara legal.

Quando ouvi a campainha, pouco depois de terminar meu rancoroso email, fiz uma prece silenciosa aos velhos Deuses para que fosse meu amigo — antes de minha família. Não sei se os Deuses olham com mais carinho para os órfãos, mas naquele momento me atenderam. Sem alegria ou cumprimentos, meus amigo se juntou a mim na espera nervosa e silenciosa pelo que vinha pela frente. E então, eles vieram. A chave girava vacilante na porta, e eu já podia ouvir os gritos e o choro desconsolado de todos. Por um segundo pensei para comigo mesmo um silencioso “ai meu saco, agora é que vai ser a parte chata”, e isso me fez me sentir desprendido da situação. E então minha família irrompeu em um luto que parecia ser paradoxalmente estranho ao meu pela sala de casa. Enquanto se amontoavam pelos sofás e cadeiras, encontrei meu irmão em meio à balbúrdia sofrida que nos cercava. Ele tinha uma lágrima nos olhos. Nunca havia visto meu irmão chorar antes. Nos abraçamos apertados e fizemos uma jura abafada de lealdade eterna um ao outro. Acho que foi alí que derramei a minha primeira lágrima da noite, mas sabia que em algum lugar meu pai sorria orgulhoso. Seus filhos estavam realmente moldados com aquilo que ele mais valorizava: o amor e a lealdade fraternal. É claro que isso foi também uma sentimentalidade, mas a quem acaba de perder o pai é dado todo o direito para qualquer ato sentimental.

Foi um dia sem norte, aquele dia de morte. Mas foi também um dia de renascimento. Naquele dia eu soube do que eu era feito. Eu era, e sou, feito de Louzada e Costa Carvalho, meu pai, minha mãe, meus irmãos, e tudo que todos eles tentaram manter em mais alta conta durante todas as suas vidas até então. Perdera meu pai, mas ganhara em troca um pouco mais de mim mesmo. Era igual a todos, e estava de pé quando todos achavam que o jovem e frágil Daniel desabaria. Alí, eu fiquei de pé.

Valeu por tudo, meu pai.
Aquilo que você não me deu em vida, você me propiciou quando se foi. Naquele dia eu aprendi que era capaz de lidar — de um jeito ou de outro — com qualquer coisa, contanto que não me deixasse assustar demais. Foi naquele dia de 1998, e nos dias que vieram depois, que eu comecei a virar homem, mesmo sendo até hoje e eternamente um menino que vive com um pé no Mundo Encantado.

Graças aos Deuses.

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