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Posts Tagged ‘Rio de Janeiro’

Sérgio Rodrigues, do Todo Prosa, dá uma dica preciosa:

Crônica da agonia carioca

ponto-da-partida.JPGExiste uma cidade, uma cidade belíssima, que está indo para as cucuias. Mas, coisa curiosa, a literatura que nela se produz não parece muito interessada em refletir isso. Consciência do próprio caráter de artifício, alergia a temas que possam ser considerados políticos, esteticismo, cinismo ou apenas vocação para outros tipos de olhar, o fato é que a maioria dos escritores do Rio (e eu me incluo aí) tem adotado um certo ar blasê enquanto o velho espírito carioca estrebucha na calçada. Como se, sei lá, precisássemos fingir que é dor a dor que deveras sentimos.

Fernando Molica é uma exceção. Sendo também jornalista, e dos bons, há anos se ocupa de traduzir os signos mais vistosos dessa queda, que na imprensa são rasos e febris, ruído puro, para a linguagem saturada de sentido da literatura. Correndo os riscos embutidos em seu projeto – inclusive o de ser visto como herdeiro do populismo literário de um José Louzeiro, coisa que não é –, divide sua fé em doses iguais entre realidade e ficção, sem fazer caso excessivo da desconfiança que nossa época devota a ambas. A sobriedade desse olhar realista mas bem-humorado, que repudia esquemas absolutos e tramas mirabolantes, é uma proeza e tanto, especialmente para um botafoguense.

“O ponto da partida” (Record, 192 páginas, R$ 32), uma esperta – e negra, e melancólica – crônica de costumes carioca, é o novo romance de Molica. “Notícias do Mirandão” (2002) ainda é seu livro de que mais gosto, mas este chega perto de ameaçar essa liderança. O Rio já pode ir para as cucuias em paz: pelo menos um de seus cronistas não deixará tudo terminar em pós-moderna algaravia.

Publicado por Sérgio Rodrigues16/04/08 8:18 AM

Quando morava no Rio, no ano passado, confesso que sentí algo desta “queda” me impressionando, mas não soube elaborar sobre ela. Ia em meu livreiro e pedia “me apresente boa literatura sobre o Rio”, mas Rubem Fonseca foi o mais próximo que cheguei de identificar o que eu lia com o que eu via. Agora, talvez, este Fernando Molica (que curiosamente era o nome do meu pediatra há um quarto de século atrás, que por sinal também morava no Rio) possa me redimir este sentimento constante de que o Rio não é mais o que o carioca insiste em achar que ele é. A cidade mudou, mas o povo de lá insiste em se apegar ao Glamour de carnavais passados…

Vamos ver. Vou atrás do livro e depois conto pra vocês o que achei.

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Sérgio Rodrigues, do Todo Prosa, dá uma dica preciosa:

Crônica da agonia carioca

ponto-da-partida.JPGExiste uma cidade, uma cidade belíssima, que está indo para as cucuias. Mas, coisa curiosa, a literatura que nela se produz não parece muito interessada em refletir isso. Consciência do próprio caráter de artifício, alergia a temas que possam ser considerados políticos, esteticismo, cinismo ou apenas vocação para outros tipos de olhar, o fato é que a maioria dos escritores do Rio (e eu me incluo aí) tem adotado um certo ar blasê enquanto o velho espírito carioca estrebucha na calçada. Como se, sei lá, precisássemos fingir que é dor a dor que deveras sentimos.

Fernando Molica é uma exceção. Sendo também jornalista, e dos bons, há anos se ocupa de traduzir os signos mais vistosos dessa queda, que na imprensa são rasos e febris, ruído puro, para a linguagem saturada de sentido da literatura. Correndo os riscos embutidos em seu projeto – inclusive o de ser visto como herdeiro do populismo literário de um José Louzeiro, coisa que não é –, divide sua fé em doses iguais entre realidade e ficção, sem fazer caso excessivo da desconfiança que nossa época devota a ambas. A sobriedade desse olhar realista mas bem-humorado, que repudia esquemas absolutos e tramas mirabolantes, é uma proeza e tanto, especialmente para um botafoguense.

“O ponto da partida” (Record, 192 páginas, R$ 32), uma esperta – e negra, e melancólica – crônica de costumes carioca, é o novo romance de Molica. “Notícias do Mirandão” (2002) ainda é seu livro de que mais gosto, mas este chega perto de ameaçar essa liderança. O Rio já pode ir para as cucuias em paz: pelo menos um de seus cronistas não deixará tudo terminar em pós-moderna algaravia.

Publicado por Sérgio Rodrigues16/04/08 8:18 AM

Quando morava no Rio, no ano passado, confesso que sentí algo desta “queda” me impressionando, mas não soube elaborar sobre ela. Ia em meu livreiro e pedia “me apresente boa literatura sobre o Rio”, mas Rubem Fonseca foi o mais próximo que cheguei de identificar o que eu lia com o que eu via. Agora, talvez, este Fernando Molica (que curiosamente era o nome do meu pediatra há um quarto de século atrás, que por sinal também morava no Rio) possa me redimir este sentimento constante de que o Rio não é mais o que o carioca insiste em achar que ele é. A cidade mudou, mas o povo de lá insiste em se apegar ao Glamour de carnavais passados…

Vamos ver. Vou atrás do livro e depois conto pra vocês o que achei.

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Até a sua careca era enrugada por baixo do boné azul. Parecia ter envelhecido como uma árvore, imóvel mas ainda assim fluido. Era como uma montanha, mas era menor do que eu pensava, e se movia. Parecia meio assustado. Eu ainda segurava seu braço. Ao fundo o mar ia e vinha, as pessoas iam e vinham. O sol estava quente em Ipanema então, e não ventava. “O que você quer de mim?”, ele perguntou. “Eu não quero nada que você possa me dar”. Ficamos perplexos. Ele me olhava sem entender se eu representava perigo ou se apenas o adorava. Eu estava encantado, um pouco assustado até, em vê-lo. Ficamos assim nos olhando. Minha mão ainda segurando frouxamente seu braço, sem dizer nada. Não havia o que dizer. Ele era o senhor de todas as palavras, aquelas que eu apenas perseguia. Então eu podia apenas olhar para ele. Meus olhos sempre foram meus. Ele não sorriu para mim, mas acho que entendeu. “Eu só queria olhar para você, para que você se tornasse humano por trás das palavras”. Larguei seu braço. Ele parecia aliviado, mas não foi embora. Olhou com piedade para mim. “Tenho que ir à padaria”, ele disse. “Boa sorte”, respondi. Fiquei olhando enquanto ele ia embora. Nunca imaginei que encontraria Rubem Fonseca. De fato, eu só imaginei isso tudo. “A única realidade é a nossa imaginação”…

(Fragmento escrito depois de ler “O Inimigo”, de Rubem Fonseca, em seu livro “Os Prisioneiros”)

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Enquanto entrava ontem no metrô, prestando atenção no espaço entre o vão trem e a plataforma, me toquei de que sempre que ouvir Lixo Extraordinário vou me lembrar dos melhores dias que passei aqui no Rio junto com o Valdir Batone e a Gabi Andrade. Se aprendí alguma coisa sobre esta cidade, foram eles e a prosa de Rubem Fonseca que me ensinaram.


Eles são o rock and roll
onde eu sou apenas
palavras silenciosas.

E por falar em Lixo Extraordinário, já está no youtube um clip bem bacana para “Rosa dos Ventres” (uma canção que embala no mínimo dois de meus casais prediletos, se não três). O clip está colado abaixo.

Bacana, né? Minha visão — meu olhar sobre esta música — difere um pouco do olhar de Edu Reginato, autor do clip. Mas esta é a parte boa da cultura livre: se eu tenho outro olhar, resta-me fazer outro clipe para a música. Todos os olhares são possíveis e permitidos, conquanto que a gente saiba respeitar o olhar do outro, e o nosso próprio.

Um abraço pro Batone, pra Gabi, pro Edu que ainda não conheci, e para todo mundo que entende a rocha e o veludo do Rock and Roll.

E obrigado por tudo.

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Enquanto entrava ontem no metrô, prestando atenção no espaço entre o vão trem e a plataforma, me toquei de que sempre que ouvir Lixo Extraordinário vou me lembrar dos melhores dias que passei aqui no Rio junto com o Valdir Batone e a Gabi Andrade. Se aprendí alguma coisa sobre esta cidade, foram eles e a prosa de Rubem Fonseca que me ensinaram.


Eles são o rock and roll
onde eu sou apenas
palavras silenciosas.

E por falar em Lixo Extraordinário, já está no youtube um clip bem bacana para “Rosa dos Ventres” (uma canção que embala no mínimo dois de meus casais prediletos, se não três). O clip está colado abaixo.

Bacana, né? Minha visão — meu olhar sobre esta música — difere um pouco do olhar de Edu Reginato, autor do clip. Mas esta é a parte boa da cultura livre: se eu tenho outro olhar, resta-me fazer outro clipe para a música. Todos os olhares são possíveis e permitidos, conquanto que a gente saiba respeitar o olhar do outro, e o nosso próprio.

Um abraço pro Batone, pra Gabi, pro Edu que ainda não conheci, e para todo mundo que entende a rocha e o veludo do Rock and Roll.

E obrigado por tudo.

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Andando pelas ruas de Copacabana, voltando da estação de metrô até minha casa, fico olhando para os prédios, janelas, para as pessoas, e suspirando. Não é que eu seja um bobo alegre, ou pelo menos não é só por isso. Ando suspirando, pois ainda não me tornei insensível à riqueza de vida e beleza que há em cada detalhe das ruas desta cidade (ou ao menos da maioria das ruas que conheço dela). A cada entrada de prédio, com seus ecos de pretensa opulência cinquentista, ou com sua discreta graça que se compõe com o bucolismo e carioquice das ruas, fico impressionado. Chego a parar, ter vontade de tirar fotos ou olhar por longos minutos para apreender cada detalhe. As pessoas nas ruas me deixam impressionado. O relevo derretido do asfalto, os morros aparecendo por trás dos prédios, as árvores, o descuido e o cuidado com os detalhes, a riqueza que só os anos e as histórias de tantas vidas se desenrolando por ali podem dar a uma cidade… tudo me deixa muito impressionado, tocado e suspirante.
Estou mesmo apaixonado pelo Rio de Janeiro.

Desde que cheguei, mergulhei na leitura de autores cariocas que falem sobre o Rio. Clarice Lispector, Rubem Fonseca, narradores de vidas cariocas simples ou complexas, cada um com seu estilo, com seu olhar sobre a cidade. Andar pelas ruas do Rio com as frases destes homens e mulheres tão cariocas na cabeça é viver uma constante identificação de nuances. É como andar em Brasília ouvindo Legião Urbana no diskman. É como ser convidado para estar ali. É como começar a descobrir uma cidade…
É como se apaixonar.

Acho que ando um bocado sensível, talvez até meio bobo. Mas é desta sensibilidade que nasce o olhar que me presta para escrever qualquer coisa que preste. É disso, e dos sonhos, que nascem todos os contos, sejam eles de fadas ou de pessoas mundanas (ou não).

Quanto tempo se leva para se reconstruir o escritor que vinha se perdendo dentro de mim? Seja como for, está acontecendo rápido.

“Minha alma canta… vejo o Rio de Janeiro.”

E enquanto isso o “cara lá de cima da montanha” abraçava as nuvens roxas ao cair da tarde na cidade do povo gato…

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