Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘rubem fonseca’

Até a sua careca era enrugada por baixo do boné azul. Parecia ter envelhecido como uma árvore, imóvel mas ainda assim fluido. Era como uma montanha, mas era menor do que eu pensava, e se movia. Parecia meio assustado. Eu ainda segurava seu braço. Ao fundo o mar ia e vinha, as pessoas iam e vinham. O sol estava quente em Ipanema então, e não ventava. “O que você quer de mim?”, ele perguntou. “Eu não quero nada que você possa me dar”. Ficamos perplexos. Ele me olhava sem entender se eu representava perigo ou se apenas o adorava. Eu estava encantado, um pouco assustado até, em vê-lo. Ficamos assim nos olhando. Minha mão ainda segurando frouxamente seu braço, sem dizer nada. Não havia o que dizer. Ele era o senhor de todas as palavras, aquelas que eu apenas perseguia. Então eu podia apenas olhar para ele. Meus olhos sempre foram meus. Ele não sorriu para mim, mas acho que entendeu. “Eu só queria olhar para você, para que você se tornasse humano por trás das palavras”. Larguei seu braço. Ele parecia aliviado, mas não foi embora. Olhou com piedade para mim. “Tenho que ir à padaria”, ele disse. “Boa sorte”, respondi. Fiquei olhando enquanto ele ia embora. Nunca imaginei que encontraria Rubem Fonseca. De fato, eu só imaginei isso tudo. “A única realidade é a nossa imaginação”…

(Fragmento escrito depois de ler “O Inimigo”, de Rubem Fonseca, em seu livro “Os Prisioneiros”)

Anúncios

Read Full Post »

Enquanto ainda estava no Rio de Janeiro, ficava sentado na varanda do décimo segundo andar olhando a surrealidade das vidas cariocas que se desenrolavam à toda volta. Havia o médico (ou dentista) que ficava nú em seu consultório no final do expediente, lendo e fazendo anotações. Havia a cobertura onde frequentemente 3 ou 4 mulheres nuas ficavam se pendurando na grande e acenando para os passantes da rua (e para os escritores sentados em varandas do décimo segundo andar). Havia o menino que ficava olhando de binóculo para as janelas do meu prédio. Vez por outra, nos dias em que chegava droga no morro, eu podia ver meninos com fuzis na mão montando guarda no topo de um prédio próximo à entrada do morro do Pavãozinho.

Em meio a toda esta surrealidade surgiu a idéia de escrever uns romances policiais surreais. A idéia era uma brincadeira, e continuou como tal por vários dias. De qualquer forma, me diverti fazendo anotações para o primeiro deles — O Ícaro — que girava à volta da morte de um velho e rico artista onde a suspeita recaía sobre sua sobrinha-neta, a única pessoa que dividia o apartamento com ele. É claro que a história era um bocado mais surreal, por trás deste mote aparentemente banal.

Com o passar dos dias e a correria, acabei deixando a idéia (e todos meus outros projetos de escrita) de lado. Quando comecei a me debruçar na leitura de alguns dos contos policiais de Rubem Fonseca (como Bufo e Spallanzani e O Caso Morel) a vontade de escrever histórias policiais voltou (embora eu não tenha retornado ao projeto do Ícaro na época). Mesmo assim, na época, não me veio grande inspiração e o momento acabou passando também.

Há alguns dias fui convidado por alguns queridos amigos para escrever roteiros para histórias em quadrinhos. Como estava com a cabeça cheia, nem dei atenção à coisa no momento. Mas hoje, enquanto devorava um bife na cozinha, meio apressado para descer para a cidade e tomar umas cervejas para relaxar, alguns dos (já comuns) acontecimentos estranhos que cercam a bizarra Casa da Colina (onde moro) voltaram a me lembrar de Teo.

Teo é o nome do investigador que protagoniza o Ícaro (o conto que eu pensei em escrever). Uma figura bastante interessante, sobre a qual não pretendo falar nada agora para não estragar a surpresa. Teo tem uma vida um bocado estranha, embora tente da melhor forma possível ter uma vida completamente normal. É tragicômico.

Em resumo, a história do Ícaro, e Teo, me voltaram à cabeça e estas idéias foram se juntando à idéia da história em quadrinhos e a outras idéias que também flutuavam em minha cabeça. E, de repente — abracadabra — o roteiro me surgiu quase inteiro na cabeça, passando quadro a quadro frente a meus olhos enquanto eu olhava preocupado tentando descobrir que diabos era aquela coisa enorme se mexendo debaixo da minha geladeira…

A vida é surreal, mas é boa.
Mais informações sobre este projeto, depois,
se o monstro sob a geladeira não me matar. :)

Read Full Post »

Começa assim…

“Você fez de mim um sátiro (e um glutão), por isso gostaria de permanecer agarrado às suas costas, como Bufo, e, como ele, poderia ter a minha perna carbonizada sem perder esta obsessão.”



Estas primeiras palavras de Bufo e Spallanzani, de Rubem Fonseca, nunca me saem da cabeça. Será sua força, sua simplicidade ou seu sentido?

os Deuses sabem.

Read Full Post »

Mais um daqueles memes muito difíceis de responder…

O Viktor Navorski do Abre Parêntese me incluiu no meme que lhe foi “imposto” inicialmente por André Miranda (do Zine Acesso). É claro que por pura e amorosa maldade os meus indicados para respondê-lo são o Paulo Bicarato, meu querido copoanheiro do Alfarrábio.org, a Luana Selva (que está de blogue novo no imaginários.net), a libélula Tati Zengzung (também moradora do imaginários) e o mano véio companheiro de divagações e aventuras Daniel Pádua (que é o zelador-crocante da casa imaginária e, claro, tem um blogue por lá).

Agora que já passei a dor de cabeça em frente, está na hora de tentar escolher cinco — Os cinco — entre os livros que tanto me marcaram. Vamos fazer assim: vou responder sem pensar muito, tudo bem? Os livros que mais me marcaram e ainda hoje fazem sentido para mim (em nenhuma ordem especial, exceto a da memória) são:

  • O Caso Morel, de Rubem Fonseca (mais uma vez, não apenas pela trajetória humana de Paul Morel, mas também pela aula de escrita que Fonseca nos dá neste e em tantos outros de seus livros.)

É claro que vários livros maravilhosos ficaram de fora, mas são duas horas da manhã e foi assim que eu quis responder a este meme agora. Se pudesse citar um sexto livro, ou talvez um sétimo, acho que eu acabaria citando o Bukowski.

Tudo é uma questão de momento. A vida é feita deles, afinal.

Read Full Post »

Mais um daqueles memes muito difíceis de responder…

O Viktor Navorski do Abre Parêntese me incluiu no meme que lhe foi “imposto” inicialmente por André Miranda (do Zine Acesso). É claro que por pura e amorosa maldade os meus indicados para respondê-lo são o Paulo Bicarato, meu querido copoanheiro do Alfarrábio.org, a Luana Selva (que está de blogue novo no imaginários.net), a libélula Tati Zengzung (também moradora do imaginários) e o mano véio companheiro de divagações e aventuras Daniel Pádua (que é o zelador-crocante da casa imaginária e, claro, tem um blogue por lá).

Agora que já passei a dor de cabeça em frente, está na hora de tentar escolher cinco — Os cinco — entre os livros que tanto me marcaram. Vamos fazer assim: vou responder sem pensar muito, tudo bem? Os livros que mais me marcaram e ainda hoje fazem sentido para mim (em nenhuma ordem especial, exceto a da memória) são:

  • O Caso Morel, de Rubem Fonseca (mais uma vez, não apenas pela trajetória humana de Paul Morel, mas também pela aula de escrita que Fonseca nos dá neste e em tantos outros de seus livros.)

É claro que vários livros maravilhosos ficaram de fora, mas são duas horas da manhã e foi assim que eu quis responder a este meme agora. Se pudesse citar um sexto livro, ou talvez um sétimo, acho que eu acabaria citando o Bukowski.

Tudo é uma questão de momento. A vida é feita deles, afinal.

Read Full Post »

“Eu tinha muita coisa na cabeça, isso me desarticulava.
Os melhores conferencistas são aqueles de uma única idéia.
Os melhores professores, aqueles que sabem pouco.”

Rubem Fonseca em “O Caso Morel”

Read Full Post »

Levando alguns passos em frente (por um caminho mais produtivo) o post anterior, estava pensando sobre a importância da existência de literatura ambientada em uma cidade para a construção do imaginário de (e sobre) aquela cidade. No caldeirão desta reflexão, junto 3 sentimentos semelhantes em natureza e distintos no tempo e no espaço.

O primeiro é o sentimento de isolamento e “saudade do desconhecido” que experimentava nos tempos em que só lia literatura estrangeira. Sentia falta de encontrar a minha cultura, a minha nacionalidade, nas histórias que me moviam.

O segundo sentimento era um sentimento de falta. A falta de literatura sobre Brasília, que narrasse histórias brasilienses, sob os céus da Cidade Seca, falando das coisas daquele lugar — capturando seu espírito, evidenciando-o. A este sentimento respondi me propondo quase naturalmente a só escrever a respeito daquela cidade, no meu período de contista que foi de 2003 a 2006.

O terceiro sentimento é o encanto cantado no post anterior, de andar por uma cidade que é pano de fundo e personagem de uma boa parte daquilo que ando lendo hoje em dia. Isso não é sem propósito; desde que me mudei para o Rio me propus a mergulhar e conhecer a literatura carioca que fale sobre a cidade. A sensação de ler sobre Copacabana, sobre o Jardim Botânico, sobre a rua Voluntários da Pátria em Botafogo (onde trabalha o médico da morta de Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca), sobre a Urca onde um homem morre afogado enquanto Clarice Lispector experimenta seu vestido… sobre tantos lugares e histórias cariocas… é simplesmente fantástica. É como estar finalmente inserido e contemplado integralmente em um universo ao mesmo tempo real e secundário, imaginário e sólido. É a magia penetrando o dia a dia.

Isso me leva de volta ao questionamento do segundo sentimento: É necessário que as pessoas escrevam sobre suas cidades, sobre suas realidades, sobre suas vidas e as vidas das quais são testemunhas. Há de se falar de jeitos, trejeitos, ruas, espaços, apertos, histórias e ilusões de cada cidade — e de sua gente. Uma cidade sobre a qual há rica literatura é mais real do que a sua realidade física, é super-real, é mais forte e se entranha na carne do leitor-morador.

É por estas e por outras que me sinto em dívida com minha cidade natal quadradinha. Eu tenho que escrever sobre aquela cidade! Tenho que viver mais dela, e escrever mais, muito mais, sobre ela! O Rio já está em boas mãos. É bom de morar, é bom de ler. Mas quando não estiver escrevendo sobre a Terra Encantada, quero escrever sobre a minha terra.

Brasília ainda carece de quem conte suas histórias. Eu ainda careço de contar as histórias da minha Brasília. Ouço o chamado. Um dia eu chego lá…

Já que declarei em meu post anterior meu amor pelo Rio, agora é hora de declarar também o meu amor por Brasília, sua gente, sua terra que vira poeira no ar e seu vento seco que embaraça os cabelos e o coração. Eu também amo Brasília, e ainda vou escrever muito sobre ela. Ela merece!

(mas para quem também ficou com água na boca para ler sobre Brasília, humildemente prometo publicar mais dois de meus contos brasilienses no Overmundo logo depois que publicar a quinta parte de O Cavaleiro e o Dragão. Para quem não quer esperar, sempre há Na Saída e A Moça Acenando na Janela.)

Read Full Post »

Older Posts »