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(de) novo

Apoiado por mais alguns dias na recém redescoberta segurança do velho murinho de pedra, vou redescobrindo coisas devagar, como se fosse novidade. Até a dor parece nova, e tem seu lugar. A gente dói quando tá vivo. Mortos e desacordados não sentem dor…

A luz da manhã, o gosto do pão, a cabeça novamente povoada. É tudo tão familiar quanto parece novo depois de tanto tempo.

Nota mental…

Não interessa o quão “bacana” é o que está fazendo. Se você não acredita, não vale a pena. Não importa o quanto os outros gostam do que você faz. Se você não está feliz, não vale a pena.

Só o que nos faz felizes vale a pena. E os outros que se agradem a si mesmos.

Levei anos para decifrar tua última mensagem, meu querido e abandonado amigo, embora dela já sentisse o significado desde o primeiro dia.

Adeus novamente, meu amigo Turin Turambar.
Descanse em paz.

fragmento

“Era um homem muito triste. Trazia uma grande trouxa de bagagem nas costas e me parou educadamente pedindo direções. Parecia ignorar que a estrada de tijolos cinzentos o leva sempre aos mesmos lugares, pois me perguntou se naquele dia era possível chegar a Setestrelas se tomando o desvio à direita. [...] Quando perguntei por quê estava deixando a capital, ele me disse gravemente que só se deve deixar um lugar quando os motivos para se querer ir embora não forem mais compensados pelos motivos para se querer ficar. Insistí, e ele simplesmente me disse que não morava mais lá, e calou. Eu também silenciei quando me perguntou de onde eu vinha. De certa forma, me parecia que por mais que andasse estava sempre em um lugar muito familiar, e não fazia mais para mim sentido algum dizer que um dia vim de algum lugar.”

Velhas anotações no 529. Novas anotações se somarão.

A dica do Luiz Fernando nos comentários do post anterior é realmente encantadora.

Pelas palavras do próprio, na resenha linkada:

Once Upon a Time (que pode ser traduzido como “Era uma vez”) é um jogo narrativo criado pela Atlas Games (a editora

que publica o RPG Ars Mágica) e que pode ser jogado de 2 a 6 jogadores. O objetivo do jogo é contar uma história que contenha elementos relacionados às cartas que você tem a mão, visando levá-la para um final pré-determinado,

que você retira aleatoriamente no começo do jogo. Os outros jogadores podem usar cartas para interromper sua narração e então eles começam a contar a história segundo as cartas que têm em mãos. O vencedor é aquele que terminar com todas as cartas em sua mão e levar a história para o final pré-determinado que retirou. (leia mais na resenha do Luiz Fernando para o centralRPG)

Pelo visto trata-se de um sistema simples e direto que utiliza-se de cartas para mediar uma dinâmica lúdica de narrativas coletivas. É o tipo de coisa que a gente vinha procurando há tempos, e pensando em fazer, mas nunca havia visto realizada. Espero que o convite do amigo Luiz se concretize em breve. :)

P.S. A Atlas Games me impressiona.

Trazendo o papo para fora do silo.

O post era este aqui:

Conversando com Luiz Fernando Macedo sobre histórias encantadas e histórias nas quais se mergulha (ou aquelas que nos levam com elas), relembrei o conceito da subcriação tolkeniana. Escrevi sobre ela há alguns anos, aqui:

http://cadernodocluracao.wordp​ress.com/2007/03/24/subcriacao​-poder-divino-e-essencia-do-fa​ntastico-da-imaginacao-e-da-re​alizacaorealidade/

Luiz Fernando Macedo disse:

“Ótimo texto, ótimo mesmo! Fico maravilhado com o pensamento de que uma realidade, como a de Tolken, pode existir simultaneamente na cabeça de milhares de pessoas. Cada cidade e cada personagem, formando um universo tão diferente e ao mesmo tempo tão parecido com o nosso, onde cada pessoa tem a chance de viver experiências únicas dentro dele. Também é fascinante saber que mesmo sendo originados pela mesma fonte, cada um destes mundos é tão individual e subjetivo que acaba se tornando único na cabeça de cada um. Contar uma história não algo fixo, escrito em pedra e sim algo moldável de forma que cada vez que a história for recontada ela irá englobar, mesmo que sutilmente, as vivências daquele indivíduo, que vai acabar passando com mais ênfase naquilo que foi mais importante para ele. Contar histórias não permite apenas que você experencie aquelas vivências, mas também dá oportunidade do outro a experienciar. Por isso faço coro com você e também digo com orgulho que sou um contador de histórias!”

Eu disse:

“Com certeza, meu caro Luiz Fernando Macedo. Contar histórias é abrir as portas para universos simbólicos ricos e vivos. Aqueles que nos acompanham nas histórias que contamos (ora coletivamente) são companheiros, e não passageiros, nessa viagem. Meu orgulho de contador de histórias se baseia principalmente na importância destas para a sanidade psíquica e espiritual dos seres. Nossa vida é feita de narrativas (que ora narramos para nós mesmos, quando tomamos consciência de nosso mundo e dizemos: isso é isso, aquilo é aquilo), são narrativas míticas que constroem a nossa percepção do mundo. São também narrativas nossa comunicação interpessoal e todo e qualquer conceito de história que possuímos. Somos, ou deveriamos ser todos, em algum aspecto, contadores de histórias.

[...]

E retornando ao foco da discussão (eu divago… e como…), acho bela e emocionante a idéia de que cada pessoa que lê/escuta uma história dela se reapropria, constrói um simulacro simbólico dentro de seu próprio universo, tecitura das tramas da narrativa adicionada com os fios e tinturas de sua própria história e universo simbólico internos. Contar e ouvir histórias é igualmente criativo e construtor de pontes e sentidos.”

Segue a conversa?

A Rivendell de J.R.R. Tolkien na aquarela de... Alan Lee ou de Brian Froud, creio eu.

Bauhaus

Este é o elemento musical e estético que talvez faltasse a boa parte dos jogadores de Vampiro: a Máscara brasilienses dos idos de 1990-e-pouco.

Eles não conheciam Bauhaus.

Estava escuro. A dor era algo abstrato, presente e sem lugar. Apenas sentia. Por tudo que se lembrava, havia acabado de despertar. Fora de hora, no meio da noite. Sonhara? Não sabia. Estava escuro e estava doendo, e ele estava com medo. Tentou dormir de novo, mas não conseguia. A dor permanecia, como uma companheira que precisa falar e não te deixa dormir. Ele se resignou a apenas ficar lá, no escuro, e ouvir a dor.

A dor falou de descaso. Falou das farças que a gente encena para nós mesmos. Falou de fuga, e vício, e entrega. Falou de escolhas. Ou isto era apenas sua cabeça passeando enquanto a dor apenas falava sua língua de latejos e pulsos cortantes.

O que você sabe sobre os deuses? Ele quase podia ouvir a voz, mas sabia que vinha de dentro. Não havia mais ninguém dali afora àquela hora. O que sei sobre os deuses? Sabia. Sabia um monte de coisas. Mas o que sabia não o serve mais. É no escuro e na dor a melhor hora para começar a reaprender.

Os Deuses estão todos dentro de nós. São parte de nós, assim como somos parte deles. Muitos se esquecem disso. Na verdade, os Deuses são nós. Nós de sentidos, de imagem e imaginação. São confluências, rostos, presenças. São absolutamente reais em sua própria forma de serem reais. Assim como nós. O resto pode muito bem ser ilusão, pois é de outro mundo. Um mundo que é bem menos parte de nós, e nós dele, porque foi inventado. Só os deuses já estavam lá mesmo antes de serem inventados. Eles só aceitaram as roupas que ganharam de nós. E nós nos demos os Deuses da mesma forma que nos demos aos Deuses. Deuses são a experiência da divindade, como dela nos lembramos, como a ela conhecemos.

Quais são os seus Deuses? Ele podia novamente ouvir a voz, mas sabia que vinha de dentro. Tentou pensar em todos os Deuses que conhecia, e todos eles pareciam apenas lembranças estéreis. Mas ele entendeu. Estas são lembranças estéreis, de segunda mão. São apenas histórias. Quais são os seus Deuses? Quais são os rostos que você enxerga simples e naturalmente.

E então o portal se abriu, e ele enxergou seus Deuses.
E soube então qual era o caminho. E a cura fazia parte dele.

Om Namah Shivaiya. Om Namah Chandekayee. Jaya Jagatambe Eh Maa Durga, Maa Kalee.

Nós de sentido da divindade que é.

Vivemos sob a égide da inconsciência por default. E não é para menos. A vida é corrida, e espreme cada momento ou lembrança de epifania para fora de nós. Rouba-nos também, ou nos faz furtar de nós mesmo, nosso tempo para ser. A vida moderna é uma corrida em direção a lugar nenhum, deixando para trás toda a bagagem que a gente não sabe como carregar.

Mas chega o momento em que a gente se pergunta se tudo aquilo que ficou para trás (e não deveria) não é justamente aquilo que nos era mais precioso. Quem é que não tem uma história de algo que fazia — ou alguém que era — e que ficou no passado, acolchoado em uma caixa mental de lembranças doces e difusas?

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Este texto foi escrito na época da palestra sobre Mitoreciclagem que realizamos no Campus Party 2009, no Encontrão Intergaláctico do Metareciclagem. Hoje me cutucaram para voltar a isso, e eu voltei. E foi bom. =)

~~~

Eu gosto de pensar em mitos como narrativas. Histórias que nos são contadas, histórias que contamos para os outros e para nós mesmos. Mas não é qualquer tipo de história. Trata-se de uma história poderosa, que carrega dentro de sí peças do quebra-cabeças de nossa visão de mundo e de realidade. As histórias que ouvimos e as histórias que contamos, e as histórias que vivemos, definem aquilo que temos por real e imaginário, certo e errado, bom e ruim. Somos todos seres míticos, mesmo que nem sempre estejamos conscientes disso.

Muitas pessoas costumam associar os mitos a um tipo de narrativa fantástica, que sabemos ser fantasiosa — não real, e que é geralmente povoada por deuses e seres fantásticos. Estas histórias podem ser mitos, mas na maior parte dos casos elas não são os nossos mitos. Mas por confundir estas histórias fantásticas com mitos, acreditamos viver em uma época não-mítica — e eu acredito que esta é uma idéia equivocada.

Mitos são histórias, sim. Histórias que podem ser sobre qualquer coisa, mas das quais derivamos nossas idéias e sentimentos sobre como o mundo é, como as coisas acontecem, o que é certo e errado, real ou imaginário. Na maior parte dos casos, nossos mitos não são mais sobre deuses e seres fantásticos, forças da natureza ou feitos sobrenaturais. Estes são, na maior parte dos casos, mitos de outros tempos e povos que absorvemos em nossos caldeirões de histórias, mas que não podem mais ser considerados os nossos mitos.

Nossos mitos são sobre pessoas e seus feitos. São histórias sobre empresas, governos, organizações, e sobretudo sobre pessoas que podem ou não ser pessoas como nós. São histórias sobre máquinas e estruturas abstradas, como as leis ou os estados, e nossas relações com elas. Nossos mitos são sobre pessoas que trabalham duro e acumulam muito dinheiro, sobre como as empresas e os governos são poderosos — tem o poder de manufaturar produtos complexos e mandar direta e indiretamente em nossas vidas, mitos sobre pessoas corruptas que se dão bem, sobre como doenças estranhas podem surgir do nada e nos matar, mitos sobre como a classe social que nascemos define quem somos e o que podemos fazer. Nossos mitos são todas aquelas histórias que ouvimos e, acreditando completamente nelas ou não, absorvemos delas algo que vai fazer parte da dinâmica pintura maior que é a nossa visão do mundo.

Se em alguns povos os mitos vinham de sacerdores e xamãs, viajantes e contadores de histórias, os nossos mitos hoje chegam a nós por muitos meios diversos: desde as conversas com o amigo ou com a vizinha, passando pelas escolas que frequentamos, lugares onde trabalhamos, até chegar na imprensa, nas empresas cujos produtos consumimos e os governos que nos regem.

Quando o ministério da saúde exige que todas as embalagens de cigarros apresentem fotos que representam os males do cigarro associadas a dizeres sobre os efeitos nocivos dos mesmos, isso é uma forma de difusão mítica. Podemos desconsiderar estas fotos e dizeres, ou prestar atenção nelas, mas de um jeito ou de outro elas reforçam a idéia de que os cigarros causam doenças — coisas que hoje são inquestionáveis, mas das quais muitas pessoas duvidavam a pouco tempo atrás, quando estas mesmas afirmações de valor mítico eram recusadas e desmentidas pelas empresas de cigarro, interessadas no consumo dos mesmos. Este pode não ser o melhor exemplo (foi o que me ocorreu agora) mas é uma amostra de como nos são contadas histórias que de um jeito ou de outro definem o que é real para nós.

~~~

“…Tudo é narrativa. Aquilo que estamos vivendo neste exato momento é uma narrativa que vertemos sob nós mesmos. Aquilo que nossos sentidos captam, aquilo que interpretamos do que percebemos, se transforma em uma narrativa para nós mesmos quando nos dizemos ‘estou vendo um computador, ele está ligado na minha conta de Gmail, estou lendo um email do Daniel Duende que fala sobre mitos, e ele fala o seguinte…’. Quando conversamos, isso também é uma narrativa de muitos níveis. Eu estou te narrando o que digo, ao passo que você narra para você mesmo o que ouviu do que eu disse. Ao mesmo tempo, você narra para mim aquilo que está sentindo, através de suas expressões faciais ou corporais, ou de eventais palavras de concordância ou discordância que você diga, e eu narro para mim mesmo aquilo que estou vendo você fazer e ouvindo você falar a respeito do que eu estou te dizendo. Ao mesmo tempo, quem nos escuta está narrando para si mesmo aquilo que seus sentindos estão captando, e na mesma medida contamos a nós mesmos sobre as reações daqueles que estão assistindo a conversa. Sob a mesma ótica, estou narrando para você aquilo que quero dizer com estas palavras, e você, narrando para si mesmo o que entendeu delas. Que tal me contar agora o que acha daquilo que eu disse?”

Palestra sobre Mitoreciclagem no Encontrão Intergalactico do Metareciclagem, no Campus Party de 2009

Baixe aqui o áudio da palestra.

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